
O tradicionalismo gaúcho se revela nas mãos que preparam o churrasco, conduzem o cavalo e guiam a parceira na dança. Por trás desses gestos, há outras mãos, menos visíveis, que moldam a tradição: as que forjam a faca do assador, costuram o vestido da prenda e preparam a encilha do peão. Em Caxias do Sul e nas cidades da Serra, alguns artesãos mantêm vivo esse ofício, transformando matéria-prima simples em utensílios rústicos, mas cheios de capricho - muitas vezes sendo os únicos na região a fazer esse trabalho.
A atenção aos detalhes é o diferencial no trabalho em couro, da guaica até a bainha

No distrito caxiense de Vila Seca, a casa de Ramon e Michele Noronha é dividida entre os cavalos de brinquedo do filho Santiago, 5 anos, e a oficina onde o casal confecciona peças de couro para cavalos de verdade. Cada encomenda é feita sob medida para donos exigentes. No momento, Ramon trabalha em um conjunto de 10 peças que irá adornar o animal de um único cliente, competidor de concursos de aperos - nome dado ao conjunto de arreios usados para selar e controlar os cavalos.
Antes de criar a marca Dom Ramon Guasqueiro, em 2014, o caxiense produzia peças para amigos e familiares, sem maior compromisso com os acabamentos. Ao escutar a sugestão de um amigo, aprimorou as técnicas e fez do hobby sua profissão. A virada de chave no negócio ocorreu em 2019, quando o casal expôs seus produtos pela primeira vez nos Festejos Farroupilhas de Caxias do Sul. No mesmo período, a marca passou a ser trabalhada nas redes sociais, fazendo aumentar não apenas a clientela local, mas também no Brasil inteiro.

– Tenho clientes em Rondônia, que pedem mais aperos, para São Paulo vendo mais bainhas de faca, enquanto para Santa Catarina saem mais cintos e guaiacas. A maioria das peças não se encontra em loja, nem é produzida em fábrica, por isso existe uma boa procura pelo artesanal. Quando chega época de Semana Farroupilha, recebo muito pedido também para fazer restauros de encilhas, para clientes que irão participar das cavalgadas – comenta.
Atualmente o trabalho no ateliê é feito também por Michele, que se especializou em criar peças menores, como porta-cuias, chaveiros, passadores de lenço e prendedores de cabelo, sempre a partir do couro e utilizando técnicas de bordado e costura.
– Como temos um filho pequeno para cuidar, poder trabalhar em casa também foi útil para mim. Alguns produtos, como cintos e guaiacas, eu consigo fazer sozinha. Também cuido das redes sociais, mas hoje em dia a gente quase nem posta, porque mal consegue dar conta da demanda que já existe – diz Michele.
Bombas de chimarrão em alpaca são raridade no mercado

Um dos poucos artesãos a produzir bombas para chimarrão em alpaca - liga metálica de cobre, níquel e zinco -, Sandro Hecher herdou o ofício do pai, Nelson, que no final dos anos 1980 montou a oficina mantida até hoje pelo filho, na garagem de casa, em Caxias. A produção é direcionada principalmente a atender a clientela da fronteira com o Uruguai, além do próprio país vizinho.
– Aqui na região da Serra se compra muito a bomba de aço inox, não se tem tanto a cultura de valorizar a alpaca, o trabalho artesanal. Isso é mais comum dos gaúchos lá da fronteira e até dos uruguaios – comenta.
Pelo tempo que a produção das peças demanda, mas também por não ter o tino comercial de um bom vendedor, Hecher se especializou em atender a lojistas.
– Nunca fui de participar de feiras, nem gosto de ir atrás do cliente final. O dom de vender quem tem é o lojista, eu só tenho o de fabricar – brinca.

Trabalhando sozinho, fazendo desde a fundição da matéria-prima até a solda das peças, que vão desde o bojo até a ponteira, a larga experiência faz com que o artesão saiba quais serão os períodos de maior demanda, quando a produção pode chegar a 300 bombas fabricadas por mês.
– O consumo maior de chimarrão no inverno faz com que a procura aumente nesta época, que também coincide com a Expointer e com a Semana Farroupilha. Nesta época, para dar conta eu trabalho das 7h até as 19h, diariamente.
Ainda que a maior parte da produção siga para outras partes do Estado ou até para o exterior, é possível encontrar as bombas em alpaca de Sandro Hecher nas lojas caxienses voltadas para artigos de chimarrão.
As diferenças entre a faca artesanal "pra apartamento" e a faca "campeira"

Lâmina de aço carbono, em vez do inox, cabo de alpaca, osso ou chifre e bainha de couro cru são algumas das características das facas campeiras produzidas artesanalmente na Cervo Campeiro, no bairro São José, em Caxias do Sul.
– O "gauchão raiz" gosta da faca mais rústica, que vai usar na cintura e que o acompanha nas pequenas tarefas da lida no campo - não apenas para cortar carne. Ao contrário da faca de aço inox, que nunca oxida, a de aço carbono escurece com o tempo, pode até enferrujar, mas atende melhor à demanda do dia a dia – explica o cuteleiro e empresário Jaison Pinson.
Jaison iniciou na cutelaria há 10 anos, quando deixou o emprego em uma metalúrgica para empreender - ou, como ele diz, "se jogar na vida". Abriu a fábrica no porão da casa do pai, produzindo não mais que cinco facas por dia - bem menos que a produção atual, que gira em torno de 5 a 7 mil unidades por mês, entre peças originais e semi-industrializadas.
Apesar do crescimento gradativo, houve um momento específico que permitiu à Cervo Campeiro dar o grande salto e se consolidar como referência em cutelaria.

– Como as pessoas ficaram mais em casa e pararam de gastar com viagens e restaurantes, muitas passaram a investir em produtos, na sua área gourmet, na sua churrasqueira. Outro fator foi que muita gente, sentindo o emprego ameaçado, começou a buscar uma segunda fonte de renda, e alguns viraram revendedores de facas. Tenho clientes que passaram a viver só disso - conta.
O cuteleiro ressalta ainda que há demanda para crescer ainda mais no segmento, mas a falta de mão de obra é um entrave:
– Poderia tranquilamente produzir até 10 mil facas por mês, se tivesse mais gente que soubesse fazer o trabalho manual. Por ser difícil encontrar, estou partindo mais para o lado industrial, antes que comece a perder vendas. Mas não quero perder a essência da cutelaria. Até porque, depois que tu industrializa e se torna só uma fábrica, passa a oferecer um serviço que qualquer um, com investimento, pode fazer.
A procura pelas cuias artesanais fizeram um missioneiro escolher a Serra

Natural de Santo Ângelo, nas Missões, João Frizzo se mudou para Farroupilha há mais de 20 anos. Isso porque era da Serra que recebia a maior parte das encomendas das cuias artesanais que ainda fabrica - hoje em menor escala - no porão de casa.
– Eu sempre vinha à região para participar da Festa da Uva, da Feira de Inverno de Flores da Cunha, e assim meu trabalho foi ficando conhecido. Também tinha menos concorrência aqui do que lá - conta o artesão sobre a mudança para a Serra.
O porongo, fruto que serve de matéria-prima para a fabricação das cuias, Frizzo busca em Vicente Dutra, na fronteira com o Uruguai, dirigindo mais de 400 quilômetros. Retorna de lá com o suficiente para fabricar cerca de mil unidades. Desde a pandemia, quando optou por diminuir o ritmo como uma espécie de pré-aposentadoria, passou a pagar um pouco mais caro para já comprar as peças torneadas, poupando a etapa que antes delegava a um funcionário.

Além das cuias, Frizzo também faz protetores - ideais para não espalhar a erva quando se mateia no carro - e porta-ervas, que ajudam a manter a especiaria mais verde e saborosa por mais tempo. A maior parte das unidades recebe a personalização pedida pelo cliente, como iniciais do nome, nomes de casal ou logotipos de empresas que presenteiam seus funcionários no Natal.
Para garantir a qualidade de cada peça, o trabalho manual envolve polir a parte externa, alisar a interna, fixar a base e inserir a personalização solicitada. A única parte terceirizada é o desenho dos logotipos, produzido em gráfica. O molde é feito pelo próprio Frizzo, que guarda em caixas de sapatos - empilhadas e separadas em ordem alfabética - as centenas de marcas para as quais já produziu um ou mais exemplares. Ao final, cada cuia custa entre R$ 65 e R$ 75, dependendo do tamanho, enquanto o porta-ervas sai por volta de R$ 100.
– O maior diferencial da cuia artesanal em relação à produzida na indústria é a durabilidade - especialmente na fixação da personalização. Muita gente traz a cuia comprada em loja para eu arrumar porque o desenho caiu, algo que numa cuia feita manualmente raramente acontece - explica.
Seja em época de rodeio ou de baile grande, a Caldart garante a pilcha pronta

Instalada há 60 anos na Avenida Júlio de Castilhos, a Caldart Pilchas é a mais antiga confecção voltada para o segmento tradicionalista em Caxias do Sul. Enquanto no térreo funciona a loja, no andar de cima as costureiras se dedicam à fabricação dos vestidos de prendas e dos trajes de peão, cuja procura tem seu auge na Semana Farroupilha, período em que a loja não fecha ao meio-dia e estende o atendimento até o começo da noite.
– Ao longo do ano temos períodos em que a procura se intensifica, como os bailes mais tradicionais, que as prendas querem estar impecáveis, ou também quando é época de Enart ou de Fegadan. Quando passar a Semana Farroupilha, já vamos começar a receber encomendas para o Rodeio Internacional de Vacaria, em fevereiro - conta a sócia-proprietária Maria Ivone Caldart Sartori.

A procura é equilibrada entre trajes para adultos e infantis. Nos meses de maior produção chegam a ser confeccionadas até 500 peças, fora outras 150 que saem, também mensalmente, por aluguel:
– Nós temos alguns tratos com os clientes. Para vestidos infantis, por exemplo, algumas mães trazem a saia comprada um ano antes e a gente só acrescenta um babado a mais, para que a menina possa usar o mesmo vestido durante sua fase de crescimento. Para adultos, tem a possibilidade do cliente trazer para nós a pilcha que já não utiliza mais, em troca de um desconto no seu traje novo. A peça usada a gente disponibiliza para aluguel, que é um serviço mais procurado pelas escolas, especialmente no período Farroupilha.
Além de atender às prendas e aos peões gaúchos, Maria Ivone comenta que parte da produção também atende a fábricas de churrasqueiras que trabalham com exportação, e que vendem seus produtos acompanhados dos trajes para os garçons que irão atender nas churrascarias espalhadas mundo afora.





