
Empresária de sucesso, mãe que dá conta de tudo, esposa perfeita e mulher independente. Essas são algumas das características de uma típica Girl Boss, um termo utilizado para descrever uma mulher empreendedora, ambiciosa e autossuficiente, que sonha grande e trabalha duro para alcançar seus objetivos, sendo a líder da própria vida e negócio.
Em 2017, o termo ganhou força com o lançamento da série Girl Boss, da Netflix, que tratava sobre a vida, ascensão e queda da empresária americana Sophia Amoruso, multimilionária antes dos 30 anos, fundadora da Nasty Gal, varejista americana de fast-fashion especializada em moda para mulheres jovens.
A tendência foi ganhando força entre as mulheres, que, preocupadas em ocupar espaços historicamente masculinos, entendiam que era necessário ser uma Girl Boss e dar conta de tudo, nem que isso custasse a saúde.
No entanto, o comportamento vem mudando, conforme observa a conselheira da Associação Serrana de Recursos Humanos (ARH) Thamis Aline Zeni. Para ela, o que vem contribuindo para isso é o entendimento de gestores sobre o trabalho feminino nas empresas, mas também em casa.
— As coisas, de fato, estão mudando. Lembro que quando eu virei líder, meu chefe até disse: "eu sei que tu não queria ser, mas tu tem potencial" e eu topei porque sei que, como líder, a gente tem mais espaço pra fazer transformações e eu enxerguei um espaço em que dava para fazer diferente — afirma.

Hoje diretora de Pessoas e Cultura na Randoncorp, em Caxias do Sul, Thamis relembra que quando aceitou o papel de gestão deixou claro que a atuação precisaria estar alinhada aos valores e àquilo que ela acredita, com o equilíbrio de poder ser mãe, esposa, filha e, ao mesmo tempo, líder.
Achava que eu tinha controle sobre a vida, sobre tudo no trabalho, que não podia deixar a peteca cair, que não podia errar.
THAMIS ALINE ZENI
conselheira da ARH Serrana
— A maternidade me ensinou muito isso. No início eu achava que eu tinha controle sobre tudo. Sobre a vida, sobre tudo no trabalho, que não podia deixar a peteca cair, que não podia errar. No começo era muito isso. Só que esse é um fardo que não tem como dar conta. Antes de ser mãe, eu achava que tinha o controle sobre tudo. Tinha rotina, arrumava a casa, a casa sempre limpa, arrumada, organizada, aquele falso dar conta de tudo — afirma.
O que virou a chave no caso de Thamis foi uma gestão acolhedora, empática e leve, que entendeu que, enquanto mãe e mulher, as prioridades eram diferentes, mas sem deixar o trabalho de lado.
— Para fazer qualquer transformação, sempre tem que ter alguém que está aberto a pensar e fazer diferente. A gente foi ensinado a fazer todo mundo igual, repetir as coisas e foi assim que a sociedade foi se criando. Enquanto a gente não tiver pessoas que pensem diferente e que abram espaço para o diferente, é difícil de a gente conseguir fazer as transformações. Tem muito das pessoas se abrirem com coragem para questionar o status quo — analisa.
Além de ter passado pela tendência Girl Boss e entender que era preciso mudar, Thamis, enquanto profissional de Recursos Humanos, também observa outras mulheres passando pela mesma situação.
— Eu acho que nós, mulheres, entendemos que podemos ser quem a gente e que isso é suficiente, mesmo tendo essas outras mil funções. Eu já esqueci o lanche da minha filha muitas vezes. Na primeira vez eu pensei: "puxa vida, não acredito que eu esqueci", mas aí eu entendi que a minha filha vai aprender com isso. Que a mãe dela não é perfeita, que a mãe dela comete um monte de erros — observa.
"Aprendi a delegar mais"

Entender que é necessário delegar tarefas foi o que mudou o comportamento da empresária Alanna Slomp, proprietária do Supermercado Croata, em Forqueta. Além do papel de gestora, acumula as funções de mãe e faz parte da Diretoria Executiva da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) Caxias do Sul, como diretora de Relacionamento.
Desde os 15 anos, Alanna vive, oficialmente, o mundo dos negócios. Na época, o pai a presenteou com uma loja de R$ 1,99 para que gerenciasse, já que a família preserva a veia empreendedora com os supermercados. Mas, desde antes disso, sempre esteve imersa nos empreendimentos familiares.
— Isso foi bem natural, porque a gente sempre teve uma educação de que não existe o homem prover o sustento da casa. Eu sempre fui muito independente. Eu sempre tive meu carro, eu fazia minhas coisas, nunca dependi de nada, sempre busquei isso para mim. E esse espírito empreendedor é desde criança — orgulha-se.
Com incentivo da família, seguiu os passos dos pais no supermercado no bairro Forqueta, onde, antes de ser mãe, era sempre a primeira a chegar e a última a ir embora.
— Não foi muito fácil cair a ficha (de mudar o comportamento), porque eu sempre me dediquei muito aqui. Cedo da manhã até o último minuto da noite. Eu sempre ficava direto aqui. Quando eu engravidei, eu pensei: "quem é que vai fazer o que eu faço?" e eu aprendi a delegar mais — analisa Alanna.
Com essa mudança no comportamento, a própria empresária percebeu os benefícios na vida pessoal. Com isso, passou a tirar férias com a família, por exemplo.
— Foi bem bom, comecei a tirar férias, comecei a me dedicar mais a ela (a filha Aurora). Hoje em dia, a gente consegue tirar umas folguinhas. Antes, eu não tinha folga, todo sábado, eu estava aqui, religiosamente — diz.
"No momento que tu começa a elencar as prioridades, tu começa a dar força a elas"

Mesmo trabalhando em um meio que ela mesma considera mais aberto ao novo, a produtora cultural Cali Troian se viu, inúmeras vezes, em uma rotina sem horários, em que passava madrugadas, finais de semana e feriados trabalhando sem descanso.
— Eu não tinha horários, era totalmente flexível, até porque a minha carreira demanda essa flexibilidade. Então, eu tinha uma rotina de trabalho, eu me dedicava ao meu trabalho e ao meu lazer, e à minha família de origem — lembra.
Essa foi uma escolha para consolidar o trabalho que faz ao longo de 20 anos de carreira no meio cultural. Como a empresa carrega seu nome, a responsabilidade de "dar conta de tudo" era ainda maior.
— O meu trabalho sempre foi personificado. Então, além do desafio da maternidade, enquanto empresária, também foi o entendimento que era momento de, com o aumento da demanda do meu trabalho, expandir a empresa e encontrar equipes. É desafiador também, porque aquilo esteve sempre na minha responsabilidade — confidencia.
Não foi logo depois da maternidade que Cali entendeu que precisaria mudar o comportamento Girl Boss para conseguir priorizar o que era mais importante. Na verdade, o movimento foi recente, de cerca de dois anos atrás.
— A gestão do tempo era necessária. Eu precisei passar a administrar o meu tempo. Isso pra mim não foi um problema. Deixar de fazer algumas coisas, mas principalmente adaptar e passar a gerir o meu tempo de uma forma diferente. Gerir o tempo para trabalhar nas prioridades que eu precisava — analisa Cali.
Esse movimento de desaceleração deu tão certo que, graças a ele, conseguiu tirar do papel um sonho antigo: a Estação Téti, um empreendimento cultural para crianças e famílias, em uma área de 600m² no complexo do antigo Moinho da Estação. A inauguração foi no mês de julho de 2025.
Eu acreditava que eu tinha que dar conta de tudo. Eu tinha que ser mãe, filha, Cali, esposa, tinha que entregar e atender as expectativas de todo mundo.
CALI TROIAN
empresária
— Eu acreditava que eu tinha que dar conta de tudo. Eu tinha que ser mãe, filha, Cali, esposa, tinha que entregar e atender as expectativas de todo mundo. E eu não estava conseguindo mais suportar. Isso me deixava estressada, me deixava ansiosa. No momento que começa a elencar as prioridades, começa a dar força a elas. Foi o caso da Estação Téti, que era um sonho de muitos anos e que se tornou realidade — orgulha-se.




