
Maior produtora de suco de uva do Brasil, a Serra gaúcha enfrenta desafios para aumentar a venda da bebida. Depois do salto na produção e comercialização em 2019, quando o setor foi impulsionado pelo consumo nas escolas, a produção total enfrentou oscilação até alcançar o menor volume em seis anos.
Dados da Associação Gaúcha de Viticultores (Agavi) apontam que em 2019 as cooperativas e vinícolas da região produziram 163 milhões de litros suco de uva. Até então, esse ano considerado um dos melhores para o segmento. Contudo, entre 2020 e 2021 a produtividade registrou queda, com volumes de produção abaixo dos 150 milhões de litros.
Em 2022, o setor acenou recuperação, com produção total de 158 milhões de litros. O ano seguinte, em 2023, houve um salto na produtividade: foram 167 milhões de litros da bebida produzidas na região. Mas apesar das comemorações da boa safra e vendas em expansão, o segmento registrou em 2024 uma queda brusca: 119 milhões de litros produzidos.
Pandemia, efeitos da chuva e enchente no ano passado, quebra de safras e inflação: esse conjunto de fatores é apontado por representantes do segmento como influências diretas para a variação vista nos últimos anos e para a redução da produção.
— É evidente que essa dificuldade da pandemia foi grande. Registramos queda no consumo do suco e aumento no vinho. Ano passado a quebra da safra foi de 40% e ainda houve as enchentes — comenta o diretor-executivo da Federação das Cooperativas Vinícolas do RS (Fecovinho), Hélio Marchioro.

Comercialização foi 30% menor em 2024 em relação a 2023
Essa quebra de safra refletiu diretamente nas vendas do último ano. Conforme o levantamento da Agavi, a comercialização da bebida foi 30% mais baixa em 2024 em relação ao ano de 2023.
— Durante a pandemia a gente atendeu ao mercado, mas sempre em baixa. Dali para a frente, houve uma cerca recuperação até 2023. O pior ano mesmo foi 2024, com um desempenho muito ruim. E esse ano, até maio, continuava em queda — detalha o Diretor Executivo da Agavi, Darci Dani.
Por se tratar de um produto característico do Brasil, mais precisamente da região Sul, o suco de uva ainda não conquistou mercado internacional. Limitado aos consumidores nacionais, a bebida depende das grandes redes de supermercado para chegar até o público.
Nesse cenário, que tem gaúchos e paulistas como principais compradores, a inflação se coloca como um obstáculo entre o segmento e os consumidores. No primeiro semestre desse ano, Porto Alegre e a região metropolitana contabilizaram alta na inflação no preço de alimentos com 5,01%, percentual acima da média nacional, que cresceu 3,64%.
Alternativas para chegar à mesa
Quem também viu as vendas do suco encolherem nos últimos anos é Cooperativa Vinícola Nova Aliança, de Flores da Cunha. No ano passado, a cooperativa registrou redução de 20% na comercialização da bebida. Até julho desse ano a venda seguia em baixa, com nova queda na casa dos 20%.
De acordo com o presidente da cooperativa, Heleno Facchin, com a alta da inflação e a redução do poder de compra, muitos consumidores acabam migrando categoria de produto. Na prática, buscam outras opções com valor menor, mas que não possuem a mesma composição.
— O suco acaba competindo com outras bebidas que têm preço menor, por exemplo refrescos, que possuem de 5% a 30% de suco da fruta. Com menos concentração da fruta o custo final é mais baixo, se tornando atrativo para esse público — pontua Facchin.

Nesta terça-feira (19), a Nova Aliança apresenta na ExpoAgas, em Porto Alegre, a linha de refrescos Happy, que leva 10% de suco de fruta na composição. A aposta é fazer frente à demanda dos consumidores. Ao todo, cinco sabores serão lançados: abacaxi, laranja, morango, pêssego e uva.
Com mercados estabelecidos em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, além do Rio Grande do Sul, Facchin avalia que a próxima safra terá bons resultados, quando em quantidade, como em qualidade. Esses elementos são vistos como oportunidade de negócio e ocupar novos mercados. Contudo, o segmento acredita que os governos estadual e federal precisam potencializar ações de suporte.
— As aquisições de suco de uva pelo governo federal estão meio travadas. A Prefeitura de São Paulo, de Joinville compraram suco. Mas nas rodadas a nível federal, feitas pelo Programa de Aquisição de Alimentos, o suco de uva não é demandado. Esses processos licitatórios poderiam nos ajudar a melhorar os resultados e criar um hábito saudável entre o público infantil — pondera Facchin.




