
Há praticamente um ano, o Sebrae, em parceria com a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), lançava uma tecnologia para rastrear vinhos com Denominação de Origem da região. A apresentação ao mercado dos vinhos "tokenizados" ocorreu na Mercopar, em Caxias do Sul. No entanto, segundo André Bordignon, analista de competitividade setorial do Sebrae, desde que foi lançado, muitas vinícolas tiveram dúvidas sobre o processo. Com isso, a entidade está reestruturando a iniciativa, que deve voltar a ser colocada em prática no ano que vem.
O processo é possível por meio de blockchain, tecnologia de registro digital distribuído e imutável, que armazena informações em blocos interligados em uma cadeia. A iniciativa já conta com duas vinícolas participantes: a Pizzato e a Dom Cândido, ambas de Bento Gonçalves.
De acordo com Bordignon, o primeiro passo da instituição foi encontrar o setor certo para lançar o projeto piloto. Assim, em parceria com a Aprovale, endentaram que a vitivinicultura seria o melhor.
Desenvolvida pelo Sebrae RS e o iCoLab, a plataforma foi alimentada, inicialmente, com dados da safra de 2022, e recebeu o nome de Origem RS. A partir dela é possível realizar o registro detalhado e dar transparência ao ciclo produtivo do vinho classificado com a DO.
A plataforma foi carregada com informações da safra de 2022, e gerou-se um NFT (token não fungível), que é um certificado digital de propriedade inviolável. Depois dessa etapa, foram impressos rótulos dos vinhos "tokenizados" com um QR Code. Ao escaneá-lo, o consumidor pode acessar os detalhes sobre cada produto, desde a documentação completa da vinícola e o registro da área produtiva, até as especificações da uva e as características do vinho, incluindo todo o histórico de produção.
— Dá uma boa credibilidade e transparência para o consumidor, e isso possibilita que aqueles mercados mais exigentes e que querem ter certeza do produto que estão comprando, que não é fruto de uma falsificação (por exemplo) — conta Bordignon.
Na prática
A Dom Candido foi uma das primeiras vinícolas a topar participar do projeto. Conforme o advogado da empresa, Vicenzo Fávero Goelzer, os primeiros contatos com o Sebrae ocorreram ainda em 2023. Ele já havia estudado sobre as tecnologias de blockchain, o que facilitou o aceite por parte dos gestores.
Para ele, se trata de uma nova experiência ao consumidor de vinho e que vai além do degustar a bebida. Os vinhos de safras a partir de 2022 já receberam no rótulo um QR Code que dá acesso a dados da produção. Conforme Goelzer, alguns resultados já são identificados e acredita que há chances de crescimento.
— Até o momento temos uma tokenização, por meio da leitura de um QR Code, com informações como onde foi plantada a uva, coordenadas geográficas, e também é possível compreender quem foi o enólogo que participou da elaboração deste vinho, de que safra é, de onde veio. O que não consegue acessar ainda, mas estamos buscando expandir, é o lastreio a partir do momento que esse produto chega no envase. O rastro que se tem hoje é da safra — explica o advogado.
Na Pizzato, os primeiros vinhos com a tecnologia blockchain saíram no ano passado e, conforme Flavio Pizzato, diretor e enólogo chefe da vinícola, são de safras como a de 2021. Ele aceitou topar do projeto pela ligação com a tecnologia e defende que o blockchain é um processo que legitima a marca e carrega um aspecto de originalidade ainda maior aos produtos dando, também, uma segurança contra fraudes:
— Ele está muito no aspecto de originalidade, ou seja, o vinho tem a origem, é certificado e garantido por um processo inalterado, que é o blockchain. Dentro de um horizonte, o público consumidor hoje é muito mais consciente e muito mais valorizador das situações em que você tenha as certificações que permitam garantir a origem.

