
O Brasil teve uma redução no número de habilitados nas categorias C e D da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) nos últimos 10 anos. Segundo dados do Ministério dos Transportes, o país teve uma queda de 2,2 milhões de motoristas de veículos de carga e de 3,3 milhões de pessoas que poderiam transportar passageiros. A diminuição traz impactos também ao mercado de trabalho, com empresas, como as da Serra, vivendo o desafio da contratação de mão de obra.
De acordo com os dados da pasta, em 2014 o país tinha 3,5 milhões de motoristas na categoria C, destinada aos veículos de carga, como caminhões. Em 2024, apenas 1,3 milhão seguiam ativos. Já na categoria D, destinada aos veículos para transporte de passageiros com mais de oito lugares, 9,4 milhões estavam habilitados na década passada. No fim do ano passado, o número verificado foi de 6 milhões.
Em Caxias do Sul e região, o presidente do Sindicato dos Transportadores de Passageiros da Serra (Sinditranspf), Paulo César Santos, avalia que "existe uma falta de mão de obra considerável".
Entre os motivos citados por Santos estão as oscilações no clima que impactam no trânsito, problemas na mobilidade urbana e até oportunidades em outras áreas:
— Há gargalos dentro de Caxias do Sul. Toda essa malha está muito engessada no horário de pico. Traz para o nosso segmento e para os motoristas uma tensão no trânsito muito elevada. E aí, muitos motoristas deixam de estar no fretamento por sentir toda essa pressão. Hoje você tem opções para trabalhar. Isso também é uma situação. A malha viária, o clima, a nossa falta mesmo de segmento. Porque os jovens hoje não querem muito ir para o volante, seguir nessa carreira.

Outro motivo citado por Santos é o investimento feito pelo profissional que quer entrar na carreira, que o representante calcula ser de cerca de R$ 4 mil. Para ter a CNH D é necessário dois anos de CNH B e ter pelo menos 21 anos, além disso há o curso para transporte de passageiros.
O sindicato calcula que o segmento do fretamento possui 1,6 mil veículos, com 1,8 mil motoristas cadastrados. Juntos, transportam 85 mil trabalhadores de Caxias diariamente.
Movimentações do setor
Em 2025, o setor do fretamento em Caxias teve reajuste de 7,5% no salário base. O acordo foi firmado em fevereiro entre Sinditranspf e o Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários. Santos vê que o aumento, que trouxe ganho real frente a inflação de 4,83% em 2024, também é uma maneira de incentivar a permanência de profissionais no segmento.
O presidente da entidade cita também que investimentos seguem em andamento, como nas frotas, mesmo com a inflação no preço dos veículos. Santos, que é proprietário da Cesartur, lembra que o transporte tornou-se um diferencial bastante importante aos setores atendidos:
— O colaborador quer, num tempo rápido, sair de sua residência e ir até a empresa, o seu local de trabalho. E, consequentemente, sair da empresa e com o menor tempo possível estar na sua residência. Até porque as pessoas estudam, as pessoas praticam esporte e têm outras atividades. Então, o fretamento virou algo como um diferencial ao ser oferecido pelas empresas para as pessoas permanecerem no emprego ou para atrair novos trabalhadores para a sua empresa.

Caminho é reter a mão de obra
Na Viação Giratur, que completa 40 anos de atuação neste ano, o sócio proprietário Márcio José Lorenzet conta que o caminho adotado é tornar o ambiente cada vez mais atrativo para a retenção da mão de obra. Hoje, por exemplo, a remuneração oferecida na empresa é 20% acima do salário-base da categoria.
— Hoje, a nossa maior preciosidade aqui é a mão de obra. Além de ser a pessoa que transporta, se ele está transportando feliz, com salário adequado, com benefício adequado, ele vai te transportar contente. Ele te transportando contente, ele vai te tratar bem, ele vai te dar um bom dia, ele vai te dar um bom trabalho, ele vai te levar pra casa em segurança e vai conduzir de uma forma diferente — destaca o sócio proprietário.
Entre os desafios do segmento, Lorenzet relata que duas situações são verificadas: os horários de atendimento e a concorrência com a indústria. O empresário detalha que em muitos desligamentos, ex-colaboradores citam a escala como um dos motivos para pedir a demissão.
— O transporte fretado tem a particularidade de ter vários horários de atendimento e isso acaba dificultando um pouco a mão de obra. Hoje, a maioria do pessoal quer trabalhar de segunda a sexta, fazer o horário dele ali, e no final de semana quer ficar mais com a família. Nós entendemos isso. Só que para o ramo de transporte, como atendemos a indústria, tu não fica tão preso igual um funcionário de indústria, mas tu tem diversos horários — descreve.
Ao mesmo tempo, é notado que motoristas deixam a profissão para especializar-se em outra atividade, especialmente na indústria. Se antes a competição pela mão de obra era com o setor de transporte público, hoje também é com outros setores. Outra ação do empresário, que teve acordos sindicais com a entidade dos trabalhadores, foi a de bonificação para os funcionários conforme desempenho:
— Todos os anos fazemos justamente para não perder mão de obra. Eu não digo nem para o concorrente do fretamento. É para outro setor. Ou é para transporte público, que é totalmente diferente do nosso, então é outra frente, ou é para indústria.
A empresa atualmente está com 720 funcionários e cerca de 500 veículos, o que gera o transporte de cerca de 55 mil pessoas por dia. De 2024 até junho, Lorenzet calcula que estava sempre com uma média de 25 vagas abertas. Por movimentos na indústria local, alguns profissionais voltaram à carreira de motorista e todas foram preenchidas. Mas, o empresário vê como uma situação pontual, que pode durar, justamente, até um reaquecimento no outro segmento.
Curso para promover carreira
Uma parceria entre o Sest Senat e quatro empresas de transporte de Caxias busca justamente promover a carreira de motorista. Segundo Lorenzet, o lançamento deve ser em agosto. No projeto, os interessados na profissão se inscreverão e serão contratados pelas empresas para o curso e, consequentemente, para trabalhar como motorista.

— Vamos subsidiar a pessoa por 12 meses. Ela entra contratada e depois vai ser contratada para o projeto. Depois, vai ser direcionada ou para nós ou para alguma das outras três empresas — detalha.
Durante o curso, os interessados serão levados a conhecer as empresas e como funciona a rotina delas também.
Mudança de cultura
Em São Marcos, conhecida como a Capital Gaúcha dos Caminhoneiros, a redução no número de motoristas também é sentida. O diretor de transportes da Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Agropecuária de São Marcos (CIC São Marcos), Rodrigo Michelon, relata uma mudança de cultura que traz consigo o desinteresse dos mais jovens a assumirem o volante.
— Falamos que precisamos tornar a nossa profissão interessante novamente para justamente captar essa juventude. O setor fala que em cinco anos vai ter um colapso e vai ter uma falta muito grande de mão de obra. Hoje já se tem uma necessidade de motorista, mas daqui a cinco anos com a aposentadoria de vários, esse número vai ser muito maior — alerta Michelon, que também é dirigente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística no RS (SetCergs).
Michelon observa que muitos caminhões pararam em São Marcos com as aposentadorias. Ao contrário do que acontecia antigamente, "muitos filhos não assumiram o caminhão do pai".
Entre os motivos citados pelo diretor está o custo para ter a CNH C, em que é necessário ter a categoria B por um ano, e a obrigatoriedade de ter pelo menos 21 anos. Michelon vê também que há uma falta de conexão entre a profissão e as famílias, diferentemente do que acontecia no passado:
— No tempo que meu pai era motorista também e que se tinha início das operações, levava a gente junto. Hoje, muitas empresas não permitem que se leve família junto. Então não se cria aquele vínculo, aquele amor à profissão, né? Muita gente dizia, "ah, eu viajei com meu pai e eu quero seguir essa profissão".
Queda no número de motoristas preocupa entidade
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Caxias do Sul e Região, Tacimer Kulman da Silva, percebe a queda no número de motoristas como "preocupante". Silva relembra que a falta de profissionais pode impactar na vida das pessoas e funcionamento das empresas.
— Esses profissionais desempenham um papel essencial, no transporte de passageiros são responsáveis pela mobilidade urbana, facilitando o acesso ao trabalho, aos estudos e a diversos serviços. Já no setor de cargas, atuam na distribuição de alimentos, medicamentos, combustíveis e outros produtos indispensáveis para nossa região e também para o país — afirma Silva.
O presidente da entidade também comenta que para reverter o cenário, "é preciso valorizar o profissional do volante":
— Isso inclui a reestruturação salarial, com uma remuneração justa, melhores condições de trabalho e apoio nas estradas. Para atrair novos motoristas é preciso oferecer incentivos financeiros, como subsídios para obtenção da habilitação ou para a mudança de categoria, além do custeio dos cursos exigidos para o exercício da profissão.
Para Silva, outra medida necessária é o governo fazer investimentos nas estradas. O presidente da entidade acredita que elas carecem de melhorias na pavimentação e de obras de duplicação, garantindo mais segurança para os trabalhadores da categoria rodoviária.



