
O mercado dos Estados Unidos representa 17% das exportações caxienses em 2025, conforme o relatório da Diretoria de Negócios Internacionais da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC). Ao todo, foram movimentados cerca de US$ 61,3 milhões em sete meses. Os fabricantes de gesso, vidro, cimento, amianto e cerâmica são os que mais venderam para o país norte-americano. Foram US$ 25,1 milhões neste ano.
O presidente da CIC, Celestino Loro, analisa com preocupação a aproximação da data de início da cobrança da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano, a partir de 1º de agosto. Apesar de ainda acreditar em negociações entre os governos brasileiro e dos EUA, Loro afirma que a incerteza no mercado mundial já fez com que empresas da Serra planejassem férias coletivas no período enquanto nenhuma decisão diplomática é tomada.
— Os EUA são um cliente extremamente importante. Os impactos que a gente já tem são de diversas dimensões. Temos empresas que estão já programando férias coletivas, empresas que estão dizendo que, momentaneamente, vão suportar essa tarifa para não jogar fora todo o esforço que foi feito por anos para construir aquele mercado. Temos vários desdobramentos graves e outros menos graves. Todos aqueles que exportam diretamente para os Estados Unidos estão sentindo a situação — aponta.
Para Loro, se a situação continuar igual, sem negociações, a economia vai ser contaminada. Na prática, isso significaria em diminuição na produção das empresas e, consequentemente, diminuição da necessidade de mão de obra, podendo resultar em demissões.
— Hoje, nós não consideramos a hipótese disso não ser negociado. Temos uma expectativa, uma necessidade de que se negocie tudo isso. É hora de a gente deixar o que aconteceu para trás e começarmos a reescrever uma negociação limpa, sem ideologias, sem contaminações do passado, e que minimize todos os prejuízos que não são só nossos. Nós não consideramos não haver negociação — pontua.
Incerteza afeta a indústria

A indústria metalúrgica, mecânica e de material elétrico de Caxias do Sul e região já sente os impactos da tarifa de 50%. Com a iminência da cobrança, entidades como o Simecs, que representa as indústrias do setor, esperam que as negociações entre os governos posterguem o tarifaço.
— Que possa ser possível um adiamento disso, pra que dê tempo de reorganizar. Porque para quem exporta é difícil reorganizar uma exportação, e para quem compra é complicado. É difícil ter uma previsibilidade com prazo tão curto. Muitos estão apostando nisso — analisa o presidente da entidade, Ubiratã Rezler.
Para o setor, o ideal seria que a taxa fosse zerada ou voltasse aos 10% anunciados por Trump aos países membros do Brics. O cenário de incerteza desde o último anúncio do presidente norte-americano afetou empresas que, agora, mantêm estoques aguardando novas negociações.
— Pedidos que estavam prontos para embarcar, que estão seguros. Coisas prontas para mandar, que estão nas caixas, vão ficar parados. Além de pedidos parados e esperando, muitos foram cancelados, aguardando uma definição. Embora tenha uma determinação, há um sentimento de falta de clareza — pontua.
Para as empresas da região, Rezler avalia que o impacto será tanto nas que exportam quanto nas que produzem e vendem para a cadeia nacional.
— O problema é muito maior do que a gente imagina, até a menor empresa que faz parte da cadeia produtiva de alguma empresa que exporta vai ser altamente impactada. Ela é mais impactada ainda do que as indústrias maiores que têm no seu atendimento global outros mercados. Vai ser atingida, diminuir, desligar, perder competitividade, não tenho dúvida nenhuma — afirma.
Negócios paralisados no setor moveleiro

Em Bento Gonçalves, o setor moveleiro vê a paralisação de negócios desde o anúncio de uma taxação de 50% aos produtos brasileiros. Segundo o Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), os EUA representam quase 17% das exportações do polo moveleiro desde o início do ano. São cerca de US$ 4,5 milhões (ou quase R$ 25 milhões) gerados. Em relação ao município, os móveis representam quase metade do que o município exporta ao país norte-americano.
O diretor internacional do Sindmóveis, Cleberton Ferri, avalia que há um temor de que o tarifaço impacte negócios também com outros países, e não apenas com os Estados Unidos.
— Como os Estados Unidos são o maior mercado consumidor do mundo, eles acabam impactando indiretamente nas demais economias e isso vai impactar a nós porque outros países que vivem ao redor do Estados Unidos e que vivem também da economia americana vão sentir esse impacto. Vamos ter que buscar outras formas de não parar nossas produções e continuar exportando.
Mercado global instável
Para quem trabalha diretamente com comércio internacional, como é o caso do diretor da empresa ITG, Maurício Charão, a expectativa é de que as negociações entre Brasil e Estados Unidos façam diminuir as taxas de importação e exportação.
— A incerteza, por si só, já é um baita problema. Para a gente que lida com o mercado internacional a estabilidade é a joia. Desde que o Trump começou com as tarifas, ele gera um problema enorme, globalmente falando. Quando taxou a China, em 145%, quando chegou ao pico, nossos compradores europeus também seguraram as compras do Brasil com a expectativa dessa discussão entre China e EUA, sobre alguma barganha — analisa.
No entanto, Charão não acredita que a tarifa volte à casa dos 10% (anunciados por Trump aos países do Brics). Neste momento, o esperado são taxas na faixa dos 30%.
— Os 10% afetaram pouco diretamente. A gente acabou absorvendo isso, não porque tinha margem, mas porque o mercado não está muito comprador. A demanda está baixa no mundo todo em função dessas incertezas — avalia Charão.
Ele afirma que, neste momento, as operações que tinham como destino o mercado americano estão pausadas. A estratégia tem sido antecipar remessas para que sejam enviadas antes do dia 1º de agosto.
— A consequência direta é que tudo pausou. Cotações, pedidos, orçamentos. Dependendo do exportador e da fatia que ele tem com os EUA, o impacto é maior. Um dos nossos fornecedores já planeja férias e outros já realocaram a produção.
Planejamento anual derrubado

Empresa do setor de robótica, a Dalca Brasil abriu, no mês de abril, uma filial nos Estados Unidos. A unidade absorveu a parte comercial e o pós-venda da marca em solo americano. A fabricação continua na matriz, em Bento Gonçalves.
Na época, a meta era alcançar em três anos 50% de exportação para a América do Norte, segundo maior mercado consumidor da empresa, conforme Bruno Dal Fré, CEO da Dalca.
— Nas últimas semanas, a gente estava com várias possibilidades de fechamento para projetos nos Estados Unidos e com essa repercussão da possível taxa foram todos pausados. Porque as empresas nos Estados Unidos começaram a se questionar como ia ficar o custo disso — afirma Dal Fré.
A meta de exportações já está sendo revista, assim como o planejamento anual. Uma alternativa pode ser transferir uma parte da planta produtiva para os EUA.
— Isso pode levar de um a dois anos. Nesse meio tempo, a gente estaria praticamente fora do mercado de lá. A gente está bastante preocupado, porque temos vários clientes no Brasil, que são empresas multinacionais, que inclusive exportam para os Estados Unidos. Como a gente vende máquinas de alta tecnologia e alto valor agregado, entendemos que muitos projetos aqui no Brasil podem ser pausados também — analisa.
RS pode perder R$ 1,92 bilhão em PIB com tarifaço imposto por Trump
- Um documento de sete páginas elaborado pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) destrinchou, em números, o impacto econômico das medidas tarifárias dos Estados Unidos previstas para serem aplicadas aos produtos com origem brasileira.
- Em ordem financeira, o efeito previsto é de uma queda de R$ 1,92 bilhão na economia do Rio Grande do Sul — o segundo Estado mais afetado pelo tarifaço.
- Conforme o estudo da Fiergs, a elevação das alíquotas pode causar redução de 0,16% no PIB brasileiro, uma perda de R$ 19,2 bilhões em termos monetários.
- Quase 19% do faturamento da indústria gaúcha é decorrente do mercado externo, enquanto a média do Brasil é de 16,4%.
- Os Estados Unidos são os maiores parceiros comerciais da indústria do RS. São 1.100 empresas que exportam ao país, 10% do total do Brasil.
- Conforme o estudo, os segmentos industriais mais dependentes dos EUA empregam 145 mil pessoas no Estado. A indústria de transformação lidera, com 21,2% desses postos.





