
Há oito décadas, o prédio que hoje abriga o Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi é parte fundamental para contar a história de Flores da Cunha. Agora, após passar por um processo de restauro, está com as portas abertas para receber a comunidade e segue com a mesma missão: preservar e passar adiante a memória local.
Construída entre os anos de 1943 e 1945, a edificação foi inaugurada em 1946 como sede da prefeitura de Flores da Cunha. Em 1986, após a administração municipal trocar de sede, o prédio passou a receber o Museu e Arquivo Histórico Municipal, que havia sido criado em 1976 e fechado em 1978 por não ter um local próprio.
Ao longo dos anos, o prédio foi recebendo trabalhos de manutenção pontuais, até que em 2023 se iniciou o processo de restauro. Naquele mesmo ano, começou a construção de um prédio ao lado para abrigar os documentos do Arquivo Histórico, que compreendeu a primeira etapa do projeto de restauro. Outra ação foi a transferência da Biblioteca Pública para a Casa da Cultura, iniciada em 2020.
Já a segunda etapa, entregue à comunidade no final de agosto, contemplou cerca de 475 m², com intervenções na estrutura, cobertura, fachadas, esquadrias, instalações elétricas e hidráulicas, além de melhorias de acessibilidade, segurança e conforto. O trabalho preservou as características originais da edificação e recuperou elementos históricos, como pisos e materiais construtivos.
— Eu acho que o restauro é desvendar as camadas do tempo. À medida que você vai pesquisando, não são só camadas de tinta, são camadas de história — diz Sayonara Guaresi, arquiteta responsável pelo projeto de restauro.
Em 2003, o local passou a se chamar Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi, em homenagem ao professor de História e Geografia que foi o primeiro prefeito eleito democraticamente no município. E em 2018 o prédio foi tombado como patrimônio histórico e cultural de Flores da Cunha.
— É de fato um lugar afetivo para a população. Gerações de florenses vieram para cá no museu ou se apropriaram de alguma forma da prefeitura, buscando algum serviço. Além de estar no centro histórico de Flores, fazendo cenário com a nossa praça principal, o campanário e a igreja, ele está em um ponto estratégico de memória da população. E isso que eu acho que foi a principal pauta do restauro também: tentar trazer as memórias dessa população refletidas no projeto.
Obra revela aspectos históricos
Durante as obras, foram revelados elementos que antes estavam escondidos, como um antigo piso de tijolos no subsolo. Um poço, também no subsolo, foi encontrado e, após a instalação de um piso de vidro, passou a integrar o roteiro de visitação e conta a história da água na cidade. Inclusive, em dias de chuva, tem recebido visitantes curiosos com a elevação do nível.
Em meio ao processo de restauro, foi possível desvendar o mistério sobre a cor da parte externa do prédio. Conforme a arquiteta Sayonara Guaresi, muitos tinham a ideia de que era rosa; no entanto, foi possível identificar que era verde.
— Quisemos buscar o verde também, que era dessa memória a partir da década de 1970. Temos imagens, e o laudo também mostra que ele tinha essa coloração verde. As janelas verdes também foram pintadas quando o museu veio para cá, em 1986.
O segundo andar do prédio guarda algumas das memórias de quando foi sede de serviços públicos. Além da prefeitura, recebeu ao mesmo tempo a Câmara de Vereadores e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
E foi justamente na sala que abrigou o legislativo florense que as pesquisas históricas apontaram para outro achado: a pintura de uma parede que estava escondida por uma tinta branca e pelas estantes que antes recebiam a Biblioteca Pública. Em um trabalho utilizando estêncil e feito à mão com pincel, foi possível recuperá-la.
— As pessoas se surpreendem porque era outra coisa que a gente não enxergava, porque recentemente ali era a Biblioteca Pública e era cheia de estantes, a gente não via as paredes.
A acessibilidade foi um dos eixos do projeto, com a implantação de rampas, sanitários adaptados, elevador e recursos como maquete tátil e audiodescrição. Os conteúdos também foram ampliados, com informações em português, inglês e italiano, além de recursos digitais acessíveis.
Uma nova proposta
O restauro foi acompanhado por uma nova proposta de museologia e expografia, que transforma a visita em uma experiência mais participativa, com sons, cenografias e diferentes recursos. O circuito aborda aspectos da história de Flores da Cunha, como a imigração italiana, o patrimônio, as manifestações culturais e a memória da comunidade.
O projeto também contempla sala para exposições temporárias, espaço educativo e área para comercialização de souvenirs produzidos por artesãos locais, além de ações de educação patrimonial e melhorias na organização, conservação e exposição do acervo. Todo esse processo foi feito pela museóloga Caroline Zuchetti.
Entre os itens que estão expostos no museu, há peças que contam a história e resgatam a cultura e a memória da imigração italiana que se fundiu com a gaúcha, além dos achados arqueológicos. Muitos dos itens foram doados pela comunidade florense ao longo de mais de 60 anos. Antes da reinauguração, todo o acervo recebeu atenção especial.
Entre as exposições estão algumas novidades, como a sala que ajuda a contar como era utilizar uma patente e os documentos relacionados à mudança do nome de Nova Trento para Flores da Cunha, de 21 de dezembro de 1935.
Além disso, uma janela no subsolo foi adaptada e agora conta a história do Sanguanel, um personagem originário do folclore italiano e muito presente na cultura ítalo-gaúcha da Serra.
— Dos três pavimentos, hoje o porão, que é o nosso subsolo, é o local que mais atrai o olhar do visitante, tanto o adulto quanto o infantil, por motivos diferentes. Na parte infantil, nós temos a lenda do Sanguanel e temos o poço, porque as crianças e os adultos gostam muito de ver o prédio respirando, transpirando água. Então, conforme as chuvas acontecem, esse poço sobe a água; conforme a chuva cessa, esse poço vai diminuindo a água — revela Thais Creolezio, museóloga responsável pelo espaço.
Para manter a história viva
Ao longo dos anos, manter a história de Flores da Cunha viva foi uma das missões de quem esteve à frente do museu, como no caso da historiadora Gissely Lovatto Vailatti, que coordenou o local entre 1999 e 2007. Ela recorda que uma das missões foi se inserir nas regras da museologia, mas também criar projetos voltados à educação patrimonial.
— Começamos a coleta de depoimentos, foi comprada uma câmera para filmagem. Tínhamos ciclos de palestras, a associação dos amigos do museu. Tinha o dia da visita animada, e encenávamos, por exemplo, o Sanguanel. O dia que o museu visitava a escola, íamos com um acervo representativo, pedíamos para algumas pessoas fazerem peças, e levávamos dentro de um baú, e fazíamos palestrar. E os cursos de história do município, que eram importantes e deram origem a alguns livros — recorda Gissely.

A historiadora é enfática ao dizer qual a principal funcionalidade do museu: “se não existem referências de memória, com imagens, escritas, tudo se torna um pouco lenda”. Para ela, é fundamental registrar o imaterial, como as lembranças.
— Principalmente por ser um elo de memória, para entendermos que somos passagem no tempo. Temos quem nos antecedeu e muito do que está aqui é de quem já partiu. Fazemos história nesse momento, mas também deixaremos para pessoas que hoje até desconhecemos, que virão depois de nós.
A volta no tempo
Para Maurício Pauletti, 80 anos, voltar ao prédio que hoje abriga o museu é uma forma de recordar o seu passado. Entre agosto de 1968 e janeiro de 1980, trabalhou na edificação como chefe do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde fazia os cadastros rurais dos produtores.
Pauletti também se formou em Direito com Ângelo Araldi, que era prefeito na época em que a prefeitura foi transferida para o atual Centro Administrativo e o prédio passou a abrigar o museu. Inclusive, ele está em uma foto exposta com a turma da época.
O morador de Flores diz guardar boas recordações, principalmente ao ingressar na sala que remete ao gabinete de Araldi:
— A gente passava o dia inteiro aqui. Quando não tinha muita gente, sentava aqui com o prefeito, com o secretário e nós conversávamos das coisas do nosso dia a dia, dos trabalhos — conta Pauletti.

Em meados de 1976, Pauletti participou do período em que começaram a ser arrecadadas com a comunidade as primeiras peças que dariam origem ao acervo do museu.
— O Incra foi transferido, e então nós começamos a fazer campanha através da rádio, pois tínhamos um programa semanal que noticiava todas as coisas da semana do município e se chamava A Voz de Flores da Cunha. Então se começou a arrecadar as peças para formar um museu. Mas naquela época não se tinha muita ideia de para que guardar essas coisas. Essas peças que eram arrecadadas eram depositadas lá no escritório do Incra, que tinha um espaço grande.
Museu aberto à visitação
- Com a conclusão do restauro, o Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi já está aberto à comunidade, com novos horários de funcionamento e visitação também aos fins de semana e entrada gratuita.
- O espaço funciona às segundas, quartas, quintas e sextas-feiras, das 8h30min às 17h, e aos sábados e domingos, das 9h às 12h e das 13h às 17h.
- Além da visita individual, também é possível agendar visitas para escolas, excursões e grupos, assim como pesquisas.
- Os agendamentos e demais informações estão disponíveis no site oficial do museu.
