
Vestindo camiseta preta, estampada com o rosto de Milton Nascimento, e calçando tênis All-Star amarelo, Mousés Stumpf chega para a entrevista. Sem que fosse combinado, Mousas chega também vestido com camiseta de Milton Nascimento e um par de tênis idêntico. A coincidência diverte, mas não chega a surpreender os irmãos caxienses. Gêmeos univitelinos, os Mous, como são conhecidos, já estão acostumados com a sintonia fina que, por vezes, os faz parecer duas partes de uma pessoa só.
— A gente é parecido em tudo, mas nunca atribui a isso nada metafísico, e sim a uma vida compartilhando as mesmas vivências, buscando as mesmas referências e sem nunca ter vivido longe do outro. É um vínculo forte que leva a uma sintonia fina — pontua Mousés.
No Dia do Irmão, que o Brasil comemora em 5 de setembro, além de Mousés e Mousas, de 48 anos, Isis e Sofia Fachinelli, 18, e Raphaele e Karoline Colferai, 25, foram convidadas a falar sobre como é passar por cada fase da vida tendo alguém para compartilhar mais do que a própria aparência, mas também gostos, traços de personalidade e de comportamento, claro, muitas histórias sobre ocasiões em que foram confundidos.
— A melhor parte de ter um irmão gêmeo é aprender muito cedo que a vida é compartilhada, e que o ser humano não vive individualmente. Isso é algo que as pessoas podem levar tempo para aprender, mas que talvez, para quem tem um irmão gêmeo, seja mais fácil. Não só porque a gente compartilha tudo, desde a nossa gestação, mas também porque, desde a infância, nós fomos reconhecidos antes como dupla do que como indivíduos — reflete Mousas.
Se não bastasse serem idênticos para quem os vê tanto à distância quanto de perto, os gêmeos Stumpf escolheram a mesma profissão: ambos são advogados e professores universitários. A afinidade, contudo, vai além. Os gêmeos compartilham o mesmo círculo de amizade, a paixão pelo Juventude, as preferências musicais. Se é para citar algo que os diferencia, não tem resposta que venha de bate-pronto.
— O Mousas toca violão, eu toco clarinete — diz Mousés, depois de remexer na memória atrás de um exemplo.
Mousas complementa, exemplificando o quanto ambos se parecem para além da fisionomia:
— Quando não estamos juntos, se eu vou num lugar que eu chego e vejo algo legal, já ligo pra ele e conto, porque sei que ele vai curtir também. Pode ser a música, pode ser a comida… se eu gostar, sei que ele vai gostar.
Uma vida dividida entre reações de surpresa e encantamento

Tal qual os Stumpf, Isis e Sofia são gêmeas univitelinas, termo que designa irmãos que se desenvolvem a partir de um único óvulo fecundado por um único espermatozoide. Por conta disso, são do mesmo sexo e apresentam características físicas muito semelhantes. Os laços que unem as caxienses, porém, ultrapassam a questão genética e familiar, sendo reforçados pela paixão pela dança.
Bailarinas desde os três anos, Isis e Sofia participam do mesmo grupo, o Ballet Margô, e são ambas professoras de dança. Compartilhar a mesma profissão proporciona algumas situações inusitadas, por vezes embaraçosas, mas que a dupla tira de letra.
— Às vezes acontece de uma criança, em qualquer lugar, chegar até uma de nós e correr para abraçar, achando que é a profe dela. Mesmo que a gente retribua o carinho, a criança percebe que não é a reação que ela esperava, então a gente pergunta se ela sabe que a profe tem uma irmã gêmea, explica o que é, e algumas até se assustam — diverte-se Isis.
Para a mãe, a professora e escritora Fabiana Fachinelli, criar gêmeas idênticas a fez criar algumas estratégias para aprender a identificar uma e outra. A principal foi aprender a olhar para a roupa, antes do rosto. Mas nem sempre é possível, especialmente quando se trata de assistir a alguma apresentação das gêmeas no palco.
— Sempre tenho de perguntar antes qual cor cada uma vai estar vestindo, ou de qual lado do palco cada uma vai estar. Mesmo assim, às vezes não tem como saber quem é quem. Mas acho que é muito bom para elas ter uma irmã gêmea, assim como para a nossa família. O irmão mais velho delas, Heitor, tem Síndrome de Down, e depois que elas nasceram, conforme ele pôde ajudar na criação delas, isso ajudou demais no desenvolvimento dele. E, até hoje, ele é o que melhor sabe identificar qual é a Isis, e qual é a Sofia — comenta a mãe.

Entre momentos de infância e adolescência em que as irmãs tiveram de aprender a se diferenciar para formar a própria personalidade, ser gêmea se tornou parte indissociável do próprio jeito de ser, ao ponto de ter um só perfil profissional no Instagram (@isisesofiaoficial).
— Quem convive conosco sabe que cada uma tem seu jeito de ser, que existem diferenças entre nós. Para as outras pessoas, muitas vezes, a reação é de surpresa e encantamento. Quando fazemos trabalhos como modelos para lojas, por exemplo, usando as mesmas peças e estampas, já aconteceu até de pessoas famosas se interessarem e virem falar com a gente, curiosas para nos conhecer. É uma semelhança que, ao mesmo tempo, acabou se tornando um diferencial — comenta Sofia.
"É a certeza de ter um vínculo seguro"

Ao contrário de Mousas e Mousés e de Isis e Sofia, Raphaele e Karoline Colferai são gêmeas bivitelinas (quando irmãos são gerados a partir de dois zigotos, formados quando dois óvulos são fecundados por dois espermatozoides diferentes). As caxienses não são idênticas, mas são bastante parecidas e mantêm um vínculo forte. Consideram, porém, ter sido fundamental experimentar, ao longo da vida, momentos em que trilharam caminhos diferentes, até voltarem a morar juntas e compartilhar a maior parte da rotina.
Raphaele é psicóloga, enquanto Karoline é engenheira. A rotina juntas, desde a infância, envolveu os jogos de vôlei e outras atividades físicas, além de frequentar a mesma escola, ainda que em turmas separadas. Foi a partir da adolescência que as irmãs sentiram a necessidade de ter vivências diferentes, que viriam a ajudar na formação da própria personalidade.
— A gente sentia que havia algo como o fato de uma deixar algo de lado porque a outra pode fazer no lugar, como socializar mais, por exemplo. É como num casal que cria uma codependência, quando um tem uma habilidade para cozinhar e o outro para arrumar a casa. Por isso foi importante quando a gente passou a fazer algumas coisas separadas — comenta Karoline.
Para Raphaele, houve fases em que ser irmã gêmea pode ter afetado a autoestima, principalmente por conta da comparação excessiva. Por outro lado, o amadurecimento trouxe também a noção de que uma poderia ajudar a complementar a outra naquilo que as diferenciava.
— É natural que haja comparação entre irmãos, mas no nosso caso havia muito forte a questão do contraste. Como se, cada virtude que uma tivesse e a outra não, isso se acentuava ainda mais pela comparação inevitável. Por outro lado, ter um convívio tão intenso ajudou a desenvolver uma personalidade que se complementa com aquilo que uma tem de melhor e ajuda a reforçar em si, e vice-versa — exemplifica.
Enquanto Raphaele avalia que a melhor parte de ter uma irmã gêmea é ter a certeza de que, ao lado dela, haverá sempre uma pessoa pronta para compreender e acolher, por ter crescido junto e passado junto por todas as fases da vida, Karoline diz ver, na irmã, a certeza de um vínculo seguro:
— É um privilégio. Muitas vezes se coloca a expectativa de ter esse vínculo num relacionamento, sem que isso se confirme. E ter a certeza dessa ligação tão sólida com alguém dá mais confiança para buscar outros vínculos importantes na vida.
ENTREVISTA: desenvolver autonomia não significa afastamento do irmão, diz psicóloga

Ser gêmeo significa compartilhar desde muito cedo uma história, experiências e, muitas vezes, até a forma como os outros enxergam cada indivíduo. Essa proximidade pode ser uma importante fonte de segurança e afeto, mas também traz desafios para a construção da identidade, especialmente quando a dupla é constantemente tratada como se fosse uma só. Para a psicóloga Lenira Sgorla Pavan, diretora da Lepsi - Clínica de Psicologia Integrada, de Caxias do Sul, embora gêmeos possam desenvolver vínculos muito estreitos, isso não impede que cada um construa sua própria personalidade, interesses, escolhas e formas de estar no mundo.
Até que ponto a relação entre irmãos gêmeos influencia a construção da identidade de cada um?
A relação entre irmãos gêmeos pode influenciar a forma como cada um vai construindo a sua identidade. Eles crescem juntos, vivem muitas experiências ao mesmo tempo e, muitas vezes, as próprias pessoas acabam tratando os dois como uma dupla. É comum, por exemplo, ouvirmos "os gêmeos", em vez do nome de cada um.
Mas isso não significa que eles não consigam desenvolver a própria individualidade. Eles podem ser muito próximos, gostar dessa condição de serem gêmeos e, ao mesmo tempo, saber quem cada um é, o que gosta, o que pensa e o que quer para si.
A família tem um papel importante nisso. É saudável que cada um seja chamado pelo nome e tenha espaço para seus próprios interesses, amizades e escolhas, sem que um seja sempre comparado ao outro.
A semelhança física e, no caso dos gêmeos univitelinos, a proximidade genética significam necessariamente personalidades semelhantes?
Gêmeos idênticos podem ter muitas características semelhantes, mas isso não significa que terão a mesma personalidade. Os estudos com gêmeos foram fundamentais justamente para entendermos melhor o quanto genética e ambiente participam daquilo que somos.
A genética tem uma influência importante na personalidade, mas não determina quem uma pessoa será. Nossa personalidade vai sendo construída a partir de uma interação muito complexa entre características genéticas e o ambiente em que nos desenvolvemos. Quando falamos em ambiente, precisamos considerar desde as condições vividas durante a gestação até, depois do nascimento, a família, os vínculos, os valores, a cultura, a escola, as relações sociais e todas as experiências que cada pessoa vai vivendo.
Somos resultado de uma interação contínua entre aquilo que trazemos geneticamente, o ambiente em que nos desenvolvemos e as experiências que vamos vivendo ao longo da vida. Essa combinação ajuda a compreender por que mesmo gêmeos monozigóticos, que compartilham praticamente todo o seu material genético, podem desenvolver personalidades diferentes.
Como a comparação constante, por familiares, amigos ou até desconhecidos, pode afetar a autoestima e a percepção de individualidade dos gêmeos? Há situações em que essa comparação pode ser prejudicial?
A comparação pode se tornar prejudicial quando deixa de ser apenas uma percepção das diferenças e começa a definir quem cada um é. Por exemplo: "este é o mais inteligente", "aquele é o mais tímido", "um é o responsável", "o outro é o bagunceiro". Quando essas comparações se repetem, existe o risco de essas características se transformarem em rótulos e de cada um começar a se perceber a partir do lugar que lhe foi atribuído.
Isso não acontece apenas com gêmeos, mas entre eles a comparação pode ser ainda mais frequente porque têm a mesma idade e passam pelas mesmas fases da vida ao mesmo tempo. Comparam-se notas, comportamento, aparência, habilidades e até a maneira de se relacionar. E, muitas vezes, essa comparação não parte deles, mas das pessoas ao redor.
É muito diferente dizer "vocês têm habilidades diferentes" e dizer "por que você não consegue se o seu irmão consegue?". Cada um precisa ter a possibilidade de reconhecer suas próprias qualidades, sem precisar se comparar o tempo todo com o irmão.
Existe uma fase da vida em que os gêmeos costumam sentir uma necessidade maior de se diferenciar um do outro? Como essa busca por individualidade costuma aparecer?
A adolescência e o início da vida adulta são períodos especialmente importantes para a construção da identidade de qualquer pessoa. Nos gêmeos, essa fase pode trazer uma questão a mais: além de descobrir "quem sou eu?", pode surgir também a necessidade de descobrir "quem sou eu além de ser irmão gêmeo?".
Essa busca pela individualidade pode aparecer de várias formas: nas amizades, na maneira de se vestir, nos interesses, nos esportes, na escolha dos estudos, da profissão e, mais tarde, nos relacionamentos. Às vezes, um começa a procurar atividades ou grupos diferentes justamente porque quer ter experiências que sejam só suas.
Mas isso não acontece da mesma forma nem na mesma idade para todos. Alguns começam a mostrar suas diferenças ainda na infância; para outros, isso fica mais evidente na adolescência ou no início da vida adulta. E buscar a própria identidade não significa precisar se afastar do irmão. O importante é que cada um tenha liberdade para descobrir quem é e fazer suas próprias escolhas.
A proximidade entre gêmeos pode ser uma fonte de segurança emocional, mas também pode dificultar a autonomia? Como estabelecer uma relação em que exista vínculo forte sem que um dependa excessivamente do outro?
Sim. A proximidade entre gêmeos pode ser uma importante fonte de segurança emocional. Eles podem encontrar um no outro apoio, compreensão, companhia e uma sensação de segurança que vem de uma história construída juntos. E essa proximidade, por si só, não é um problema.
A atenção é necessária quando essa proximidade começa a limitar a vida de um ou dos dois. Por exemplo, quando um não consegue tomar decisões, fazer atividades, estabelecer outras relações ou enfrentar situações novas sem a presença ou a aprovação do irmão. Nesse caso, já não estamos falando apenas de um vínculo próximo, mas de uma relação que pode estar dificultando a autonomia.
E autonomia não significa afastamento. Uma relação saudável permite que os dois sejam muito próximos e, ao mesmo tempo, tenham amizades próprias, interesses diferentes, façam escolhas individuais e vivam experiências separadamente. A família pode favorecer isso desde cedo, reconhecendo as características de cada um e criando oportunidades para que também tenham experiências individuais.



