
Nove anos de construção de roteiro, sete camadas de diferentes tipos de neve falsa para imersão e filmagem dentro do maior estúdio permanente de produção virtual da América Latina, com 1,5 mil metros quadrados. "Antártida", o novo lançamento dos Estúdios Globos, promete levar o público a uma experiência de reflexão sobre uma sociedade que "naturaliza" a violência contra a mulher.
As estrelas do filme participaram de um debate aberto ao público no hotel Serra Azul, em Gramado, na manhã deste sábado (15). A obra foi exibida pela primeira vez no 54º Festival de Cinema de Gramado na sexta-feira (14).
A trama se passa na estação de pesquisas brasileira na Antártida, onde cientistas e militares se preparam para enfrentar o inverno, isolados. Porém, um crime brutal contra a pesquisadora Inês (interpretada por Marina Ruy Barbosa) abala a todos e transforma o ambiente em uma verdadeira panela de pressão.
Os homens da estação tornam-se suspeitos, inclusive o Comandante Barros (interpretado por Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (vivido por Lázaro Ramos). A subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume a missão de investigar o ocorrido e, com o apoio das mulheres da base, enfrenta silêncio e violência em busca de justiça.
Brasileiros na Antártida
Criado por Claudia Jouvin (roteirista de Dias Perfeitos), a obra foi inspirada por um incêndio real na estação brasileira Comandante Ferraz, na Antártida, em 2012. Mas foi somente em 2017 que o projeto começou a tomar forma. A escolha do gênero, um thriller psicológico em vez de um drama, foi para mostrar a união das mulheres.
— Eu sou fã de cinema de gênero e eu acho que a gente faz pouco e deveria fazer mais. E essa história está comigo já há muito tempo, eu sempre quis fazer um filme feminino sobre personagens que se unem e se apoiam. E é um prato cheio, num suspense, você poder explorar isso. Eu falei, vou fazer uma história de crime, mas eu acho que o twist ali era exatamente como solucionar o crime — explicou.
O diretor do filme é Bruno Safadi. Para ele, a obra traz um ambiente hostil que molda o comportamento de todos os personagens.
— É um filme de personagens que estão em um espaço confinado, em um ambiente hostil, hostil pela natureza, hostil por todas as violências de gênero que acontecem, não só da macro violência que carrega a história, mas as micro violências que são feitas diariamente. O conjunto dessas coisas moldam esses personagens. São personagens que estão de uma maneira, primeiro, no seu limite. E aí também a sensibilidade nossa, de entender também dentro desse lugar que molda de uma maneira coletiva, aonde estão as subjetividades de cada um — pontou.
Debate sobre a violência contra mulher
Para Marina Ruy Barbosa, a personagem foi um desafio devido à violência que sofre e como deveria levá-la ao público, em que precisa atravessar da alegria para o medo em poucas cenas.
— A Inês realmente é uma personagem muito desafiadora e foi um desafio muito profundo para mim, porque é de uma violência, um limite ultrapassado, que muda tudo na vida dessa personagem, que ela vai da grande alegria de estar tendo essa oportunidade de estar vivendo esse encantamento sobre o trabalho para um abismo emocional brutal — explicou.
A atriz também destacou como o filme busca mostrar como o julgamento precoce está muito enraizado dentro da nossa sociedade.
— Nesse processo de construção, a gente queria trazer uma personagem que tivesse uma personalidade que poderia ser livre ali, num momento de confraternização naquela base, e que pode dançar e que pode se divertir e que pode se interessar também por alguém, mas o que aconteceu não foi consentido. Foi num momento em que ela estava completamente vulnerável. E ainda em todas essas coisas, "ah, mas ela provocou". A gente foi ensinado a já julgar dessa forma, o que é muito cruel. Acho que a gente já melhorou muito, mas que ainda tem muito a melhorar, porque é um processo não só das mulheres, mas os homens também precisam estar na mesma página para que a gente realmente, de alguma forma, evolua enquanto sociedade — refletiu.
Cenário de neve foi desafiador
Uma das responsáveis pela produção é Isabela Bellenzani. Segundo ela, foi quase um ano de estudo entre cenografia, arte e tecnologia para pensar no cenário da trama. No total, foram 18 semanas de pré-produção e cinco semanas de gravação.
— A gente tinha uma preocupação de trazer o que era possível mesmo. Teve já de cara o desafio da neve, o piso, que é composto de sete camadas diferentes para conseguir dar aquela sensação de neve mesmo, o filme 100% dentro do estúdio, como esses atores iam ter esse clima para poder interpretar com aquela sensação do frio de 10, 15 graus abaixo de zero? Tivemos que importar a máquina de neve, porque além da nossa neve tradicional, ela é diferente da exposição de toda a equipe e de todo o elenco full time, durante 11 horas, 10 horas de gravação dentro desse material. Então, foi muita pesquisa — contou.
Também em relação aos efeitos especiais, a atriz Leandra Leal (que interpreta Marina) salientou como o uso da inteligência artificial é um dos novos caminhos do cinema.
— Uma coisa que eu achei incrível no filme que ele mostrou muito, a gente está vivendo um momento de muita discussão sobre IA, sobre tecnologias, como é que o cinema vai lidar com isso, e eu falo: ontem (sexta) eu vi o filme e falei: é desse jeito. O cinema vai lidar utilizando essa tecnologia que está aí para contar histórias que a gente não conseguia contar até então e é um filme brasileiro fazendo isso — comentou Leandra.


