
A Orquestra de Sopros, o Coro Municipal e a Cia. de Dança de Caxias do Sul estão com as atividades paralisadas. Os artistas que compõem os grupos receberam a notícia nesta quinta-feira (9), em reunião online convocada pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC), que alegou falta de recursos para cumprir com os pagamentos dos jetons (remuneração que os profissionais recebem pela participação em ensaios e apresentações).
De acordo com a SMC, a medida é temporária e irá acompanhar o período de vigência do decreto de contenção de despesas do município, assinado no dia 27 de abril pelo prefeito Adiló Didomenico.
— Na Cultura, por ser uma pasta que não tem uma lei que assegure um percentual da arrecadação do município para o seu orçamento, é preciso negociar diariamente, vivendo um dia de cada vez. E as dificuldades se acentuaram desde a publicação do decreto de contenção de despesas. Estamos mantendo a secretaria praticamente sem dinheiro. Ontem (quarta-feira, dia 8), numa reunião mais aprofundada com a comissão de gestão financeira instalada pelo município, chegou-se a essa conclusão de que não havia mais como manter as atividades dos nossos grupos artísticos neste momento, por não termos garantia de quando a situação irá se normalizar — destaca o secretário-adjunto de Cultura, Elvino Santos.
Também de acordo com o secretário-adjunto, o custo mensal com a remuneração dos artistas do Coro, Orquestra e Cia. de Dança gira em torno de R$ 140 a R$ 150 mil, variando de acordo com a quantidade de ensaios e apresentações no período. Até o final do ano, o gasto total seria de cerca de R$ 1,1 milhão.
Também nesta quinta-feira (9), a SMC anunciou que o edital do Financiarte 2026 está mantido, com valor aproximado de R$ 800 mil, assim como também está assegurada a realização da 42ª Feira do Livro, evento cultural mais importante do segundo semestre.
Maestro pede desligamento

Entre as apresentações previstas para o segundo semestre e que serão canceladas está um concerto temático que reuniria os três grupos no UCS Teatro, em agosto, com cerca de 70 artistas no palco. Somente a Orquestra de Sopros, que reúne 35 instrumentistas e o maestro, teria até o fim do ano pelo menos cinco apresentações confirmadas, todas com arranjos já elaborados e ensaios em andamento.
O regente, Gilberto Salvagni, solicitou desligamento do cargo. Para o maestro, mesmo sabendo que havia uma crise financeira, a notícia do cancelamento abrupto das atividades gerou surpresa. Salvagni lamenta não somente pelos músicos, que perdem uma fonte de renda importante, mas também pelo público que tem negado o acesso gratuito a atividades culturais.
— O sentimento é de impotência e de pesar, porque a cidade perde um patrimônio cultural. Alguns músicos vão abandonar a carreira profissional, outros seguirão outros caminhos, e a recomposição desse trabalho leva tempo. A prefeitura pode tratar como uma pausa, mas é uma perda que não se recupera em curto prazo — afirma.
Salvagni pontua ainda que o trabalho já vinha sendo realizado com dificuldade, devido a cortes pontuais de orçamento que impactavam, por fim, na qualidade da entrega para a comunidade:
— Para ter uma comparação, em 2016 a Orquestra era composta por 53 músicos que faziam nove atividades por mês, nos 12 meses do ano. No ano passado, tínhamos um grupo de 35 músicos, fazendo sete atividades por mês, em 10 meses do ano. Apesar de todos os esforços da Secretaria da Cultura, e acredito que também do prefeito, vinha sendo difícil entregar o trabalho que a gente queria e que o cidadão merece, com todo o potencial que o grupo tem a oferecer.
Dificuldade maior ainda será atravessada pelos bailarinos da Cia. Municipal de Dança. Enquanto coristas e músicos da orquestra recebem para ensaiar até duas vezes por semana, os dançarinos cumprem carga horária de cinco horas diárias, razão pela qual tinham o grupo como fonte de renda principal.
_ É um baque muito grande para nós, que já vínhamos com dificuldades e déficit de bailarinos (são seis atualmente, quando o mínimo sempre foi 10. A audição para novos componentes estava prevista, mas foi cancelada também devido ao decreto). Não estávamos preparados para ser desligados, até porque nos foi dada a garantia de que os jetons não seriam afetados, o que não se revelou verdadeiro _ destaca a diretora administrativa da Cia. de Dança, Uyara Camargo.
Uyara também coordena a Escola Preparatória de Dança, que, por ser custeada com recursos de emenda parlamentar, deverá manter as atividades.
O maestro do Coro Municipal, João Paulo Sefrin, que assumiu o cargo em fevereiro deste ano, lamenta o cancelamento no momento em que o grupo preparava uma programação especial para comemorar os seus 50 anos.
- Mesmo acompanhando as dificuldades que o município enfrenta, foi com muita surpresa e frustração que recebi essa notícia. Cultura e Educação são o caminho para tornar a vida de todos melhor e retomar a humanidade da sociedade. Mesmo que isso pareça retórica, é a pura realidade. É lamentável que trabalhos de tanta qualidade sofram cortes, interrupções e descontinuidades por conta de questões administrativas - pontua.
RELEMBRE O CASO
:: No dia 27 de abril deste ano, a Prefeitura de Caxias do Sul publicou um decreto municipal determinando a redução em contratos, suspensão de licitações e restrições para horas extras.
:: A partir de então, um grupo, liderado pelo secretário de Gestão e Finanças e da Receita Municipal, Micael Meurer, ficaria responsável pela análise, deliberação e autorização de medidas excepcionais.
:: O decreto foi publicado em um momento delicado da administração, pois uma semana antes havia sido divulgado o balanço de 2025 da Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca) registrando um déficit de cerca de R$ 10,7 milhões.
:: Em meio a esse contexto, foi definida a saída da secretária adjunta Cristina Nora Calcagnotto, que viria a ser substituída pelo líder comunitário e produtor cultural Elvino de Oliveira Santos.
:: Por causa do decreto, o Conselho Municipal de Política Cultural emitiu nota criticando a posição da prefeitura, salientando que isso ocorria no pior momento, pois, na semana seguinte, ocorreria em Caxias do Sul uma reunião do Conselho Nacional de Incentivo à Cultura Itinerante e do Fórum de Incentivo à Cultura, com membros do Ministério da Cultura.
:: Enquanto a Secretaria da Cultura justificava que estava fazendo uma avaliação criteriosa do impacto nas atividades da pasta, o perfil da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul, no Instagram, anunciava a suspensão da audição de novos bailarinos, justamente por causa dos cortes de gastos. A audição ainda não tem data para ocorrer.
:: Em entrevista ao jornal Pioneiro no dia 8 de maio, a secretária da Cultura Tatiane Frizzo rebateu especulações de que seriam interrompidas atividades da pasta como a Feira do Livro de Caxias, bem como os ensaios e apresentações da Cia. de Dança, Coro Municipal e Orquestra de Sopros.
:: Na semana seguinte, no dia 12, um grupo de artistas realizou uma manifestação chamada de Enterro da Cultura, em frente à prefeitura, ocupando ainda o plenário da Câmara de Vereadores.
:: Após a entrevista de Tatiane Frizzo, a Secretaria da Cultura interrompeu o projeto Sexta Cultural, realizado uma vez por mês no palco do Zarabatana Café, no Centro de Cultura Ordovás. Os artistas foram selecionados por meio de edital. Não ocorreram as edições de maio e junho.
:: No dia 9 de junho, atendendo à convocação dos vereadores, a secretária Tatiane Frizzo esteve na Câmara para esclarecer os impactos do decreto. Entre as declarações, a titular da Cultura disse que a administração estava comprometida com a realização da Feira do Livro e que lutaria por um valor maior de aporte ao Financiarte até o final de seu mandato.
:: Nesta quinta-feira (9), a secretária Tatiane Frizzo informava, por meio da assessoria de imprensa, que a Secretaria de Gestão Estratégica e Finanças não garantiria o pagamento dos jetons, forma de remuneração dos integrantes dos corpos artísticos.
:: Sendo assim, a Secretaria da Cultura informou a suspensão temporária dos ensaios e das apresentações da Cia. Municipal de Dança, do Coro Municipal e da Orquestra Municipal de Sopros enquanto estiver em vigor o decreto de contenção de despesas do município.




