
Morto nesta quarta-feira, aos 98 anos, o produtor e cineasta Luiz Carlos Barreto foi um dos responsáveis por projetar a Serra Gaúcha e a saga da imigração italiana ao mundo. Barretão, como era conhecido, foi o produtor por trás de O Quatrilho, filme baseado no livro homônimo do escritor serrano José Clemente Pozenato (1938-2024) e que levou o Brasil à disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1996.
Sendo considerado um dos principais expoentes do movimento Cinema Novo, atuando como diretor de fotografia em produções clássicas como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe, de Glauber Rocha, Barreto já era um nome consagrado quando a atriz caxiense Ítala Nandi fez chegar às suas mãos o livro de Pozenato, publicado em 1986. Mas não foi por acaso: antes disso, Ítala já havia pedido ao escritor autorização para tentar buscar um produtor que adaptasse sua obra para as telas.
O capítulo seguinte se deu quando Barretão, já tendo assumido o interesse em produzir o filme, procurou Pozenato para tratar da adaptação, que teria como diretor um dos seus filhos cineastas, Fábio Barreto (1957-2019). Aquele movimento estreitaria a relação entre ambos e também a do produtor com a Serra Gaúcha. Por diversas vezes, entre 1994 e 1996, Barreto visitou a região, tanto para explorar locações em Caxias e cidades vizinhas, como para tentar angariar mais recursos para realizar o filme. Chegou a palestrar em uma reunião-almoço da Câmara da Indústria e Comércio (CIC Caxias), conseguindo, se não todo o apoio financeiro que buscava junto aos empresários, ajuda com logística e serviços.
O Quatrilho acabou sendo um dos primeiros filmes brasileiros beneficiados pela chamada Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993), que permite a pessoas físicas e jurídicas investir ou patrocinar projetos aprovados pela Ancine, abatendo esses valores do Imposto de Renda devido. O resto é história: além da consagração em Hollywood, a obra foi ovacionada no Festival de Cinema de Gramado, tendo de ser exibida com sessões extras madrugada adentro, cabendo ao próprio produtor organizar o público para evitar superlotação.
Antes mesmo que o tempo se encarregasse de mostrar a contribuição que o filme teria para completar a ideia de Pozenato de representar, através da ficção, a identidade do colono da Serra Gaúcha, Luiz Carlos Barreto parecia saber que a obra alcançaria o objetivo de ser, como ele mesmo classificou, um “filme-monumento”.
- O Quatrilho é mais que uma homenagem à imigração italiana na Serra Gaúcha. É uma espécie de monumento aos colonizadores. Um monumento móvel, que será levado a todo o Brasil e a ao exterior, comemorando os 120 anos desta colonização - disse o produtor, em entrevista ao Pioneiro ainda em 1994, meses antes do início das filmagens, que ocorreram no verão de 1995.

Projeto de filmar "A Cocanha" interrompido pela pandemia
Outro legado deixado por O Quatrilho foi a amizade entre as famílias Barreto e Pozenato. A professora e pesquisadora Kenia Pozenato, viúva do escritor, comenta que Barretão tinha também o projeto de adaptar para o cinema o romance épico de Pozenato sobre a chegada dos italianos à Serra, A Cocanha (2000).
- Ele já tinha tratativas com a RAI para rodar parte do filme na Itália, mas em seguida veio a pandemia e o projeto esfriou. E depois vieram os problemas de saúde que o deixaram mais fragilizado _ conta.
Kenia comenta que o último encontro entre os amigos ocorreu em 2017, ano em que Barreto e a esposa, a também produtora Lucy Barreto, foram homenageados pelo Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto da obra. Naquela ocasião, os homenageados pediram à organização para que os Pozenato estivessem presentes na recepção e na cerimônia:
- Barretão foi um amigo muito querido e leal, que deixa um vazio na vida daqueles que o conheceram e também no cinema brasileiro, com o qual ele tinha um compromisso inegociável com a qualidade. Ele sempre quis fazer o próximo filme melhor que o anterior, e isso explica a razão pela qual deixou uma obra tão significativa.
De sobral para o mundo
Como produtor, área em que mais se destacou, Luiz Carlos Barreto participou de mais de 80 obras. Além de O Quatrilho, atuou em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), que levou cerca de 11 milhões de pessoas aos cinemas,e também esteve à frente de títulos importantes como Garrincha — Alegria do Povo (1963) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969).
Nascido em Sobral, no Ceará, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947. Iniciou a carreira no jornalismo e no fotojornalismo antes de migrar para o cinema. Em 1963, fundou a produtora LC Barreto, responsável por diversos clássicos do audiovisual nacional.
Com a produtora e companheira de vida, Lucy Barreto, formou uma das famílias mais influentes do cinema brasileiro, com filhos e netos atuando na área. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decretou luto oficial de três dias pela morte do produtor e cineasta.




