
Diz um famoso ditado, sem autoria comprovada, que escolher trabalhar com o que se ama é a melhor maneira de nunca ter de trabalhar. Ao poder dedicar seu talento não só a uma, mas a duas de suas paixões, o caxiense Gabriel Zuccoloto Ramos é prova de que a máxima pode significar mais do que um mero clichê. Por mais trabalho que dê.
Morador de Forqueta, Gabriel, de 28 anos, recebeu o primeiro acordeon quando ainda estava na maternidade. O instrumento de brinquedo foi dado pelo pai, Carlos, músico tradicionalista. Quando tinha três anos, os pais o levaram para conhecer a Maria Fumaça, ocasião em que tirou a primeira foto naquele que, duas décadas depois, viria a ser o seu local de trabalho, unindo então suas duas paixões: a música e os trens (e o ferreomodelismo).

Como atração residente do trem turístico que percorre Garibaldi, Carlos Barbosa e Bento Gonçalves, Gabriel apresenta, aos finais de semana, um repertório de tarantelas e outros ritmos populares europeus, como as valsas francesas. A afinidade com a tradição também levou o caxiense a realizar dois mochilões pelo Velho Continente, onde se apresentou em diversas cidades da Itália, Suíça, Bélgica e França. Na segunda viagem, residiu por um ano em Turim.
— Como a minha influência é mais da música europeia, eu tinha essa curiosidade de mostrar meu trabalho para um público mais acostumado com esse estilo. Eu chegava nas cidades, tocava uma ou duas horas à noite na rua e o dinheiro que ganhava usava para alimentação, deslocamentos e hospedagem. Quando morei em Turim, também tocava em feiras de antiguidades e de hortaliças, aproveitando que as pessoas sempre saíam com um troquinho na mão — conta.

Instrumento com "cicatrizes" do tempo
O mesmo Todeschini que o acompanhou nas duas jornadas é também o instrumento que Gabriel saca da coleção (da qual se falará mais adiante) para utilizar no dia a dia. Não é somente pela ligação sentimental com o fiel companheiro de viagem, mas também pela característica de fabricação dos instrumentos da icônica empresa bento-gonçalvense:
— Na Maria Fumaça, os únicos acordeons com volume suficiente são os Todeschini, que também oferecem resistência pelo esforço maior que é preciso fazer para tocar. Eu uso um modelo menor, que também é mais leve e prático. Como já comprei ele menos conservado, sabia que iria utilizá-lo para enfrentar a fuligem do trem, que castiga o fole, além dos efeitos do sol, da chuva e até das manchas de vinho e de uva de tocar na vindima. Já precisei trocar o fole, mas faz parte. São cicatrizes do tempo.
Além do trabalho regular na Maria Fumaça, Gabriel se dedica a projetos solo, como o show Música às Cegas, espetáculo que convida o público a viver a música de uma forma diferente, vendando os olhos para valorizar a escuta e as sensações despertadas. O músico também estreou, recentemente, o recital poético Há Resquícios de Mar em Mim, em parceria com a poeta Simone Giehl e o violonista Elvio Pizzi, que tem no programa algumas de suas composições instrumentais.
Carinho especial por fabricante caxiense

No cômodo de casa em que reúne miniaturas de trens e também sua coleção de acordeões, há espaço para dois instrumentos produzidos em Caxias do Sul pela extinta marca Universal, que fabricou gaitas até o início dos anos 1990, antes de redirecionar seu parque fabril para a produção de componentes elétricos e magnéticos, sob o nome Universal Preletri.
Ainda que a marca tenha alcançado um volume expressivo de vendas no seu auge, um dos fatores que explicam a relativa raridade dos acordeões Universal tem a ver com sua construção mais delicada.
— Pelo fato da gaita Universal ser um pouco mais frágil, menos unidades sobreviveram. Antigamente era ainda mais difícil encontrar luthiers para a manutenção do que é hoje, então os acordeões eram condenados muito cedo, às vezes com as peças sendo utilizadas em outros instrumentos — explica.
Para o músico e colecionador, outro fator que contribuiu para a escassez dos acordeões da marca foi o reconhecimento desigual em relação à fabricante bento-gonçalvense.
— Enquanto a Todeschini se tornou uma marca lendária, muito ligada a diversos artistas que utilizaram ou ainda utilizam seus instrumentos, a Universal sofre um pouco de preconceito. Tem menos valor comercial, inclusive, por conta disso — avalia.
Ainda assim, Gabriel fez questão de restaurar dois exemplares da fabricante caxiense. Um deles é de 1962. O outro foi produzido em 1985, quando a Universal completou 40 anos de atividade.

— Restaurá-los custou bem mais do que o valor dos próprios acordeões e mais do que eu conseguiria se fosse vendê-los. O exemplar de 1985, em particular, é um instrumento interessante porque já traz algumas tentativas de modernização, com elementos que lembram o design da Todeschini, que já havia encerrado a fabricação — conta.
Enquanto os nacionais ocupam um lugar destacado na coleção, os instrumentos mais utilizados por Gabriel em apresentações de palco (não na Maria Fumaça) são os italianos: um Da Vinci de 1956, um Scandalli da década de 1960 e um Sonola dos anos 1950. A proximidade com esses modelos acompanha a própria trajetória musical em busca de timbres e designs:
— Nunca comprei instrumentos pensando em ter uma coleção, mas sim em ter modelos mais confortáveis, com timbre melhor. Como sou muito apegado a coisas antigas, sempre que encontro um instrumento especial eu tento dar um jeito de adquiri-lo, algumas vezes deixando de comprar outras coisas.


