
Turma da Mônica, Mafalda, Batman, Superman, Homem-Aranha, Tex, Zé Carioca, entre tantos outros. As páginas de quadrinhos eternizaram universos que parecem infinitos. Os mesmos personagens não só fidelizaram leitores, como inspiraram novos quadrinistas.
Dos clássicos, surge uma mídia que permite as mais variadas histórias, inspiradas na fantasia ou na vida real. Em Caxias do Sul, esse é o ponto de partida do quadrinista e professor Josias Silveira, 39 anos. Ele transformou a vida do avô, e a experiência pessoal de quando perdeu completamente a visão, em HQ.
Nascido em Bom Jesus, o interesse nos quadrinhos vem da infância, quando conheceu o clássico italiano Tex, publicado desde 1948. O faroeste, os desenhos em preto em branco, e a história do seu avô, Bento, o inspiraram para lançar em 2014 o primeiro título, O Último dos Tropeiros.
— Nos últimos anos de vida, ele enfrentou o Alzheimer, mas lembrava da época em que era adolescente e convivia com as tropas. Surgiu daí a ideia da HQ — conta.

Antes disso, entre os 18 e 20 anos, Silveira perdeu a visão por conta da ceratocone, uma doença ocular progressiva e não inflamatória que afeta a córnea. Ele recuperou a visão após realizar cirurgia de transplantes de córnea. O episódio, que assim como o Demolidor (justiceiro da Marvel que perde a visão na infância) o fez desenvolver outras habilidades, inspirou uma história que já tem três volumes, a Print Self.
— Conto um pouco da minha trajetória, a importância da doação dos órgãos, e porque eu sempre trabalhei muito os olhos nos meus trabalhos. Achei que seria interessante compartilhar essa história de superação — descreve Silveira.

Além de trabalhos autorais, que tem ainda o título Desumanos (em que o Velho do Saco com a fisionomia inspirada em Lima Duarte vira um justiceiro), o quadrinista atua também em títulos infantis, parcerias e produções artísticas variadas. Silveira também faz parte dos Desenheiros da Serra, grupo de artistas que proporciona apoio e troca de experiências para as publicações.
"Relação de uma vida"

Quando criança, Cristiano Bartz Gomes, 50, achava graça das fotonovelas que a mãe, Ieda, lia. Por isso, ela decidiu presenteá-lo com quadrinhos da Mônica, do Tio Patinhas, do Mickey, entre outros clássicos. A partir dessa curiosidade, ela alfabetizou o filho por meio dos quadrinhos:
— Tive a felicidade de ela ter tido paciência, de ter me dado o maior presente que me deu na vida: me alfabetizar antes de eu entrar na escola para poder ler.
Foi o ponto de partida da "relação de uma vida" como descreve Bartz, que foi livreiro por 30 anos e atualmente é servidor da Secretaria Municipal da Cultura de Caxias. Hoje, tem uma coleção de oito mil títulos, com clássicos como V de Vingança, de Alan Moore, com o autógrafo do desenhista David Lloyd.
De leituras na infância e adolescência de heróis, passou a descobrir gêneros como o terror ou títulos como a Epopéia Tri, da Ebal, que contava a história da colonização do oeste americano. Atualmente, são essas histórias que Bartz costuma ler em HQs, de fatos históricos com personagens fictícios. Uma delas é Face Oculta, do italiano Gianfranco Manfredi, que traz a história colonial italiana na Etiópia, no século 19.

— Uma outra coisa que devo aos quadrinhos é que eles me levaram para os livros. Muita gente tem uma história similar, claro, mas para mim foi muito significativo. Por exemplo, através de uma adaptação em quadrinhos do conto A Queda da Casa de Usher eu descobri a obra do Edgar Allan Poe.
Assim como a mãe, Bartz também incentiva amigos e familiares a lerem. Hoje em dia, além de fãs dos quadrinhos, os filhos dele, Nicolas, 21, e Isadora, 14, também são desenhistas.
Entre clássicos e adaptações

O Batman, criado por Bob Kane e Bill Finger, em 1939 — que fisgou Bartz — ainda é um dos títulos mais procurados. Junto dele está o Homem-Aranha, outro clássico. Na livraria Colecionador, há mais de 35 anos no mercado caxiense, esta é a percepção. O vendedor Vitor Gil, 23, nota que há leitores de todas as idades.
— Tenho percebido que tem aumentado a procura. Eu acho que isso acontece por causa da influência das adaptações das histórias em quadrinhos em séries e filmes — avalia Gil.
Além dos títulos de heróis, o vendedor conta que há uma procura grande pelos mangás, os quadrinhos japoneses. Alguns dos títulos mais populares são Jujutsu Kaisen e Demon Slayer.
Já na seção de HQs da Livreiríssima, a mais recente livraria da cidade, não são os títulos famosos que saltam aos olhos e, sim, adaptações de obras clássicas, de autores como Machado de Assis (1835-1903), Franz Kafka (1883-1924) e Erico Verissimo (1905-1975).

O proprietário da Livreiríssima, Elvio Gonçalves, 67, percebe que o leitor não vai à livraria especificamente pelas HQs, porém quando descobre esses títulos, decide comprá-los.
— É um mercado bom, tem uma boa aceitação, embora não perceba uma procura específica por ele — analisa Gonçalves, que assina as tirinhas da Celeste, a Ovelha Azul, ao lado de Ernani Carraro, publicadas aos sábados no caderno Almanaque.
Machado de Assis inspira histórias em quadrinhos

A ideia de adaptar contos clássicos de Machado de Assis partiu do coletivo independente Tesla Studio, de Caxias. O escritor brasileiro é uma das referências do quadrinista Frank Tartarus, 41, que, ao lado dos parceiros Adan Marini e Wagner Carsten, selecionou histórias do Machado para criar as releituras.
— Escolhemos contos que achamos que daria uma boa narrativa em quadrinhos. Alguns contos do Machado de Assis têm muita conversa ou é o autor relembrando uma coisa de um final de semana, e aí não tem uma cadência adequada para quadrinhos — explica Tartarus.
Mesmo em seis mãos, a HQ levou cerca de nove meses para ser finalizada. Para publicar, Tartarus costuma recorer às leis de incentivo à cultura. O quadrinista vê como "fundamental" o modelo de apoio às produções.
— Produzir um quadrinho é relativamente barato, só que é demorado. Fazemos em média uma página por dia.

O processo é minucioso. Geralmente, a história começa com um esboço e depois esse roteiro é passado para um colorista. Junto disso, os famosos balõezinhos precisam ser colocados e deve haver uma arte final. Para fechar títulos, geralmente é necessário roteirista, desenhista e letrista. O desenho pode começar no papel e depois ir para o digital, ou pode ser criado totalmente no digital.
Além de Machado de Assis: Contos Adaptados, o mais recente lançamento de Tartarus, Rei dos Ratos, adapta o conto A Causa Secreta como uma versão sombria com referência ao horror cósmico do escritor norte-americano H.P. Lovecraft (1890–1937). Rei dos Ratos foi lançado em maio deste ano, em evento na livraria Livreiríssima.
Profissão: quadrinista

Criar fanzines, produzir para a internet, desenhar para jornais ou revistas, participar de eventos voltados aos quadrinhos e criar conexões. As trajetórias dos quadrinistas compartilham alguns desses momentos.
O interesse por HQs, geralmente, vem desde cedo. Assim como Josias Silveira e Frank Tartarus, o gosto por desenhar surgiu ainda na infância para o catarinense Luan Zuchi, 30, que mora em Caxias. Por volta dos oito anos, em uma viagem à casa dos tios em Santa Catarina, descobriu a coleção dos gibis do Tex. Os traços realistas e as histórias "mais sérias" chamaram atenção.
— Ali eu decidi: vou focar em desenhar para contar história. Quero chegar nesse patamar, nesse tipo de história. Desde os meus oito anos até agora, eu estou nessa direção — destaca.
Até mesmo a formação em design foi pensada para adquirir novos conhecimentos a fim de trabalhar com quadrinhos. Em meio à formação, o ilustrador passou a frequentar eventos, como a ComicCon RS. A partir daí, novas parcerias foram surgindo. Zuchi conta que sua caminhada na profissão tem sido como "entrar numa mata fechada, abrindo uma trilha".
Hoje, Zuchi atua de forma independente e como desenhista contratado, como em trabalhos recentes para editora norte-americana Ruminant Brood ou a HQ nacional Céu Rosa-Poeira. Em outra frente, também dá aulas de desenho em Flores da Cunha.
De títulos autorais, um dos trabalhos recentes destacados é o Bueno Milonga, criado ao lado do roteirista Rossano Segabinazzi. A HQ é descrita como uma comédia policial com elementos sobrenaturais ambientada em uma cidade fictícia gaúcha. Neste momento, o quadrinista começou a desenhar a segunda edição.

— Nesse quadrinho decidi me desafiar a desenhar as páginas sem esboços. Normalmente, fazemos um esboço e depois trabalhamos com a tinta nanquim. Decidi fazer isso por uma questão de exercício cognitivo, para me forçar a estar mais concentrado, mais atento, uma coisa até mais meditativa — descreve.
O título foi lançado por meio de financiamento coletivo pela plataforma Catarse — formato que Zuchi vê como uma boa opção. Pelas redes sociais, ele divulga seu trabalho, gravando vídeos e mostrando seu processo de criação.
Encontre os artistas
Os títulos de HQs podem ser encontrados em livrarias de Caxias e região ou diretamente com os autores no Instagram:




