
Monte Belo do Sul é conhecida pelas raízes italianas, mas, com certeza, o Polentaço é a marca registrada. O evento começou em 1996 e, apesar de alguns percalços, completa 30 anos em 2026. A edição deste ano ocorre de 15 a 17 de maio, na Praça Padre José Ferlin, prometendo emocionar os visitantes e homenagear quem faz parte dessa história. A entrada é gratuita.
Quem tem propriedade para falar sobre a história da criação e continuidade do Polentaço e do Tombo da Polenta é um dos incentivadores, Alvaro Manzoni. O ex-vereador e ex-secretário municipal de Turismo explicou que o evento começou com a fundação do Centro de Tradições Italianas de Monte Belo do Sul e a busca por uma identidade para a cidade recém emancipada. Com isso, surgiu o tema da polenta.
— Há 30 anos, era muito difícil falar de polenta. O termo ainda era usado de forma pejorativa, mas, naquela época, resolvemos criar um evento que reverenciasse o alimento que sempre representou nossa maior herança culinária e de sobrevivência. Dei a sugestão do nome. Inicialmente, ele não soou bem, mas, como eu tenho o grupo (a banda Ragazzi Dei Monti) e viajava bastante, pela experiência em outros lugares acreditava que “polentaço” iria “pegar”. E, bom, agora é algo só nosso: uma marca registrada — contou Manzoni.

A primeira edição foi realizada juntamente com a abertura da colheita da uva, a vindima, em 1996. Porém, a comunidade sentiu que mudariam o "foco" da cidade, desvalorizando o fator econômico — a venda de uvas — e não aprovou.
— O pessoal confundiu a festa de abertura da vindima com o polentaço, e aí veio uma avalanche de críticas, porque acharam que estávamos trocando a uva, que é o que sustenta o município, pela polenta. Não, a gente não troca a cultura, a gente acrescenta — salientou.

Depois disso, foram vários testes de formatos, incluindo a criação da competição das Esculturas de Polenta, os desfile temáticos, os jogos coloniais, até chegarem no conceito do evento bienal e da realização em maio, mês que celebra a imigração italiana no Rio Grande do Sul.
Tombo de 800 quilos da polenta surgiu em 2007

Apesar de ser o principal atrativo do "Polentaço", o famoso tombo da polenta, com aproximadamente 1,6 mil quilos do alimento distribuído gratuitamente nos dois dias do evento, só surgiu na edição de 2007. Para Manzoni, esse foi o momento que a atividade se consagrou.
— Acho que isso foi uma mudança de chave. A escultura de polenta, ela é um atrativo bem característico, bem local, mas o tombo da polenta no Rio Grande do Sul, só nós que fizemos. Porque teve vídeos que a gente publicou nas redes sociais que deram três milhões de visualizações. Então, a gente percebe que realmente foi o divisor de águas — destacou.
O organizador da atividade é Nelson Uliana e ele explica que o equipamento para produzir a polenta começa a ser montado na quinta-feira.
— Começamos a montar o forno, com cerca de 400 tijolos, mais barro, mais um pouco de cimento... No sábado, então, é feito o primeiro tombo. Esse ano vai ser no dia 16, às 16h — disse.

E a receita é grande e claro, não recomendada para produção em casa, conforme frisou Nelson.
— Em cada tombo, são em torno de 650 litros de água, quatro quilos de sal, seis litros de azeite e em torno de uns 110 quilos de farinha. Para cozimento, são cerca de quatro horas. A primeira hora de fogo é mais alto, mas a água não pode ferver. Depois vai adicionando a farinha pouco a pouco e vai mexendo, são equipes que vão se revezando nessa parte — comentou Nelson.
Envolvimento de gerações

Nas 12 edições concretizadas, o apoio da comunidade foi essencial. Contudo, segundo Manzoni, esse processo deve ser dividido em dois períodos: quando somente os mais velhos participavam e agora, com os mais jovens envolvidos.
— Os primeiros eram só os de mais idade que se envolviam. A partir dos últimos eventos, temos muito mais jovens participando. Hoje, os mais novos entendem a importância do alimento na tradição e do porquê ele ser um ícone da nossa cultura. Eu vejo que é um legado que a gente está deixando — destacou.
E para expandir essa paixão pela cultura local, o trabalho nas escolas municipais e estaduais de Monte Belo do Sul está sendo imprescindível. Na 8ª edição, em 2011, surgiu o projeto literário "Histórias de Nossa História", com contos escritos por alunos que resgataram as lembranças dos familiares.
Em 2026, será lançada, na abertura do evento, a segunda edição do livro com o mesmo organizador da primeira, o professor e ex-prefeito da cidade, Leonir Razador. Ele salientou que a obra deve ser utilizada como uma ferramenta de manutenção da história da cidade e de seus descendentes.
— Quando a gente envolve a juventude para contar a história, é uma segurança que a gente tem de que a história vai continuar. A grande maioria dos contos é originária de conversas que os alunos tiveram com os "nonos", com fatos que eles ouviram e procuraram os historiar — pontuou.

Por outro lado, há aqueles que são um "livro vivo", como a dona Eneide Maria Faccin Paludo, 75 anos. Natural de Faria Lemos, mudou-se para Monte Belo ainda na juventude com o marido, já falecido, com quem teve dois filhos. Ela participou primeira edição do Polentaço e relembrou a experiência:
— Nós estávamos numa equipe, acho que de seis. Fizemos a polenta na caliera (panela de ferro) dentro do salão da igreja e quando ficava pronta, a gente jogava ela no taier (tabuleiro) e cortava com um fio. Depois, íamos distribuindo para quem ia lá, a gente dava o copo com polenta e queijo, com um pouquinho de molho. A gente ia vestida como antigamente também, com o lenço na cabeça, de avental. Nos divertíamos muito.
Eneide também comentou como o evento sempre foi marcante na vida e diz participar até hoje.
— O polentaço me marcou bastante, a gente sempre lembra daquilo que a gente fez. Agora é diferente (a realização do evento), mas temos saudades daquelas lá (primeiras edições). Hoje participo da abertura do Polentaço, cantando no coral da cidade — disse.

Você lembra?
Em 2024, o Centro de Tradições Italianas de Monte Belo do Sul notificou à Festa da Uva de Caxias do Sul sobre o uso indevido do termo "polentaço" na edição daquele ano.
Isso ocorreu devido a entidade ter o registro da marca junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços desde 10 de julho de 2007, com validade até 10 de julho de 2027.
— Foi uma questão mesmo de a gente colocar o certo, no momento certo. A Festa da Uva, ninguém discute que é uma festa que pertence a toda a região, então não cabe usar "Polentaço" lá. São coisas diferentes, por isso que o pessoal confundiu. A gente levou de boa, não ajuizou, não fez nada. Teve essa polêmica porque dá ibope — esclareceu Manzoni.
Agende-se

- O quê: 13º Polentaço
- Quando: dias 15, 16 e 17 de maio
- Onde: Monte Belo do Sul, na Praça Padre José Ferlin
- Quanto: entrada franca
- Horários: dia 15 (sexta-feira), das 18h à 0h; dia 16 (sábado), das 11h à 0h; e dia 17 (domingo), das 11h às 19h
Programação
Dia 15 (sexta-feira)
- 18h – Caroline Rasador – Show Inclusivo
- 19h – Lançamento do Livro “Polentaço - Histórias de Nossa História” e apresentação do Pacto de Amizade entre o Polentaço (Monte Belo do Sul/BR) e Fiera Della Polenta (Vigásio – Verona/IT)
- 20h – Roba da Ciodi e o Carnevale di Venezia
- 22h – Baitaca
Dia 16 (sábado)
- 12h – Projeto Monte Belo: Música, Canto e Dança (corais Musicando Melodias, Alegria de Cantar e Vozes em Sintonia)
- 13h – Família Almeida
- 14h30min – Interações Culturais com Josefa
- 15h30min – Orquestra de Sopros de Faria Lemos
- 16h – Tombo da Polenta Gigante
- 17h – Ragazzi Dei Monti
- 18h30min – Grupo de Danças Ballo D’Italia e Piccoli Ballerini
- 19h30min – Délcio Tavares e Banda
- 21h – Projeção Mapeada na Igreja Matriz
- 22h – Bodo & Jaque
Dia 17 (domingo)
- 12h – Grupo Sogni D’Italia
- 13h45min – Grupo Vicentino
- 14h – Tombo da Polenta Gigante
- 15h – Tchê Guri
- 16h30min – Invernada Artística CTG Giuseppe Garibaldi de Encantado
- 17h30min – Banda Nova Emoção
Como chegar
- O acesso é simples e faz parte do passeio. Saindo de Porto Alegre via BR-116, o trajeto mais comum segue via RS-240 e RS-122 e pela BR-470, indo em direção a Bento Gonçalves. Pouco antes do acesso ao município, basta entrar na RS-444, no mesmo acesso ao Vale dos Vinhedos. A partir dali, são cerca de 20 minutos por estrada asfaltada até Monte Belo do Sul, em meio a vinhedos e paisagens típicas da Serra.
Onde se hospedar
- Por ser uma cidade pequena, a oferta de hospedagem é limitada, mas única. Pousadas são a principal opção, contemplando desde cabanas a hospedagens em formato de pipas de vinho, além de experiências com vistas a vinhedos ou que levam o visitante a viver como no interior, em paisagens pastoris. Uma alternativa é ficar em Bento Gonçalves, que conta com uma rede mais ampla de hotéis e fica a poucos minutos de distância.





