
Há igrejas que ultrapassam o sentido religioso e se transformam em marcos afetivos de uma cidade. A Igreja Santo Sepulcro, no bairro Nossa Senhora de Lourdes, em Caxias do Sul, é uma delas. Entre vitrais que narram a Via Sacra, esculturas que impressionam pelo realismo e a pintura mural da ressurreição obra de Aldo Locatelli, o templo guarda mais do que obras de arte sacra: preserva memórias de fé, devoção e pertencimento que atravessam gerações.
É justamente esse universo que o livro Igreja Santo Sepulcro: memórias de fé e arte revela ao público. A obra, escrita pelo jornalista Rodrigo Lopes e a historiadora Elenira Prux, e que será lançada neste domingo (17), nasce de um longo trabalho de pesquisa documental, investigação histórica e resgate de lembranças ligadas ao templo, reaberto em abril de 2025 após um amplo projeto de restauração.
Mais do que contar a cronologia da igreja, o livro mergulha nas histórias de pessoas que ajudaram a construir um dos espaços religiosos mais emblemáticos de Caxias. O projeto gráfico, a capa e a diagramação da obra são criação do designer Marco Verdi.
Declarada Patrimônio Histórico Municipal, a Igreja Santo Sepulcro foi inaugurada em 31 de janeiro de 1937. O templo surgiu a partir do ideal do imigrante italiano Benvenuto Conte, que ainda no final do século 19 construiu no local uma pequena capela de madeira e chão batido, inspirado no Santo Sepulcro de Jerusalém.
A atual igreja de alvenaria, porém, é resultado de décadas de envolvimento comunitário, campanhas de arrecadação, doações e trabalho coletivo, história preservada graças a documentos guardados por famílias e antigas moradoras da comunidade.
Foi esse material que despertou o interesse de Elenira Prux.
— Tudo começou com o trabalho voluntário que eu estava fazendo na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes. Lá tinham documentos preservados. O Benvenuto Conte faleceu antes de conhecer a igreja de alvenaria, mas a filha dele e todas as pessoas que se envolveram no projeto preservaram uma documentação fantástica. Quando me deparei com esse material, achei tudo muito rico e comecei a classificar e descrever os documentos. A partir daí percebi que nós tínhamos muita história para contar — relata.
A pesquisa começou ainda em 2021, quando Elenira iniciou o processo de higienização e catalogação do acervo documental. Mais tarde, o projeto foi inscrito em um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), possibilitando a publicação.
— O trabalho de escrita começou efetivamente em 2025. Foi um processo muito intenso de pesquisa e de organização dessas memórias para transformar tudo em uma narrativa — explica Elenira.
O jornalista Rodrigo Lopes, que assina a coluna Memória, no jornal Pioneiro, destaca que a relação dos caxienses com a Igreja Santo Sepulcro vai além da religiosidade.
— Todo mundo tem alguma lembrança da igreja. Muita gente vinha aqui ainda criança com os pais ou avós. A igreja desperta curiosidade por causa do espaço da cripta, pelas esculturas, pela atmosfera do lugar. Existe um vínculo muito afetivo das pessoas com essa igreja. Ela foge um pouco do eixo das grandes igrejas, mas é muito procurada, inclusive para casamentos, justamente por ter essa identidade mais intimista e essa história tão rica — explica.

A igreja do mistério, da devoção e das memórias
Durante a pesquisa, os autores encontraram documentos e relatos que ajudaram a reconstruir episódios pouco conhecidos da trajetória do templo — alguns cercados pelo imaginário popular.
Um dos achados mais impactantes foi uma reportagem de 1904 sobre o antigo oratório de madeira construído por Benvenuto Conte.
— Resgatar a história do Benvenuto foi muito difícil, porque já não existiam pessoas que conviveram com ele. Mas essa reportagem descrevia o subterrâneo iluminado apenas por uma lamparina, com as esculturas do Senhor Morto, dos fariseus, da Virgem Maria, de Maria Madalena e do anjo. E o repórter contava também que o Benvenuto mostrava o próprio caixão mortuário, dizendo que já estava preparado para sua morte — conta Elenira.
O episódio alimenta uma antiga narrativa segundo a qual Benvenuto teria idealizado o espaço também como um possível mausoléu pessoal.
Outro conjunto de documentos relevantes envolvem o pintor italiano Aldo Locatelli, responsável pela pintura mural da Ressurreição de Cristo, em 1952. Foram descobertas cartas em que ele falava sobre orçamento, custos e detalhes da pintura. Contudo, apesar dos avanços da pesquisa, algumas lacunas permanecem.
— O que mais nos frustrou foi não encontrar o livro de atas da igreja. Talvez ali estivessem as respostas sobre várias intervenções realizadas ao longo das décadas. Também não conseguimos imagens das antigas procissões da Trasladação e do Encontro, que aconteciam aqui nos anos 1940 e que, segundo os relatos, reuniam multidões — lamenta Elenira.

Um patrimônio artístico dentro da cidade
Se a história da Igreja Santo Sepulcro impressiona, o patrimônio artístico guardado no templo ajuda a explicar por que o local é considerado uma das mais importantes referências de arte sacra da região.
As paredes laterais da igreja são ornamentadas por 14 vitrais produzidos pela tradicional Casa Hans Veit & Cia., de Porto Alegre, representando cenas da Via Sacra. Na cripta, permanecem as esculturas em madeira confeccionadas por Benvenuto Conte com auxílio do escultor Pietro Stangherlin.
Já no interior do templo estão duas imagens esculpidas em gesso por Michelangelo Zambelli em 1938: Nossa Senhora das Dores e Nosso Senhor dos Passos.
Mas talvez a obra mais emblemática sejaa pintura mural Ressurreição, pintado por Aldo Locatelli. A pintura ocupa o fundo do altar e cria uma ligação simbólica entre o Cristo morto na cripta e a ressurreição representada na parte superior do templo.
Concebido em formato triangular, acompanhando a arquitetura gótica da igreja, a pintura retrata Jesus Cristo, um anjo e três soldados romanos.
— Visitar igrejas não é apenas um momento de oração e devoção. Também é um momento de contemplação artística. Aqui na Santo Sepulcro existe um acervo extraordinário. A arte caxiense dos primórdios da imigração está reunida aqui — afirma Rodrigo Lopes.
Segundo ele, um dos aspectos mais fascinantes da pesquisa foi descobrir relatos de pessoas que acompanharam Locatelli trabalhando dentro da igreja.
— Existem depoimentos de antigas moradoras contando que lembravam do Locatelli pintando aqui. Diziam que ele fumava muito, assobiava músicas brasileiras enquanto trabalhava e convivia com o pessoal da comunidade. Infelizmente, não encontramos fotografias desse momento, o que seria algo riquíssimo — comenta.

Punhal de madeira da imagem de Nossa Senhora das Dores resistiu a incêndio
O livro recupera ainda episódios curiosos e pouco conhecidos, como um incêndio ocorrido na sacristia em 1983.
— A dona Julieta Neves, que cuidava da igreja, contou que o punhal (de madeira) da imagem de Nossa Senhora das Dores costumava ser retirado e guardado na sacristia. Quando houve o incêndio, praticamente tudo foi destruído, mas o punhal permaneceu intacto. Ela acreditava que aquilo tinha sido uma intervenção divina — relata Lopes.
Além de resgatar o passado, o livro também nasce como um esforço de preservação da memória para as próximas gerações. Os autores ressaltam que muitas informações só puderam ser recuperadas graças ao cuidado de antigas moradoras da comunidade que preservaram documentos durante décadas.
— Se isso não tivesse sido feito, talvez essa história tivesse se perdido completamente. Registrar essas memórias é fundamental. Daqui a 50 ou 100 anos, esse livro vai continuar contando essa história — diz.
Memória material e imaterial da igreja
Para o pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, padre Jocimar Romio, o lançamento do livro representa mais do que um registro histórico. É, segundo ele, uma oportunidade coletiva de preservar lembranças, compreender o significado do templo e transmitir esse legado às próximas gerações.
Responsável pela paróquia à qual pertence a Igreja Santo Sepulcro, o sacerdote afirma que a publicação ajuda a eternizar não apenas a trajetória física do espaço religioso, mas também as experiências humanas e espirituais vividas ali ao longo das décadas.
— Não é apenas a obra física da Igreja Santo Sepulcro que está registrada, mas também essa obra espiritual, imaterial, de pessoas que passaram por aqui, refletiram sobre a vida, encontraram sentido para viver ou mudaram de vida a partir dessa experiência de fé. Então, o livro preserva tanto a memória material quanto a imaterial da igreja — afirma.

Padre Jocimar acompanhou de perto o processo de restauração do templo, concluído em 2025, após anos de fechamento. Segundo ele, a reabertura devolveu à comunidade um espaço profundamente simbólico para a fé e para o turismo religioso da região.
— A igreja ficou fechada durante a pandemia e, depois disso, aproveitou-se esse período para iniciar o projeto de restauro. Existia uma necessidade urgente de reforma, principalmente no piso, que estava cedendo. Mas o projeto acabou sendo ampliado e se decidiu restaurar o máximo possível da igreja. As pessoas aguardavam ansiosamente por essa reabertura, porque a Igreja Santo Sepulcro sempre foi muito frequentada — relata.
Ao falar sobre o significado do templo, padre Jocimar afirma que a experiência da Igreja Santo Sepulcro une fé, razão e contemplação.
— Existe a fé, claro, mas também existe a razão, a busca pelo entendimento. O livro ajuda nisso, ajuda a compreender como a igreja foi construída, quais eram os significados daquele espaço, o contexto histórico. E junto da fé e da razão existe também a contemplação, que acontece de modo muito especial pela liturgia e pela experiência de estar dentro da igreja — observa.

Programe-se
- O quê: lançamento do livro Igreja Santo Sepulcro: memórias de fé e arte, de Elenira Prux e Rodrigo Lopes.
- Quando: domingo (17), às 15h30min.
- Onde: Igreja Santo Sepulcro (Av. Júlio de Castilhos, 672 - bairro Nossa Sra. de Lourdes - Caxias do Sul).
- Quanto: entrada gratuita. O livro também conta com versão em PDF acessível com audiodescrição. Clique aqui para acessar o livro online.

