
Uma das mais emblemáticas e marcantes atrizes brasileiras, Vera Holtz carrega consigo a honra de interpretar papéis inesquecíveis na televisão como Querubina, em Fera Ferida (1993), Santana Gurgel, em Mulheres Apaixonadas (2003), e Mãe Lucinda, em Avenida Brasil (2012). Atualmente, aos 73 anos, tem encenado o espetáculo Ficções em teatros do Brasil e de Portugal.
A peça, que já soma mais de 350 apresentações e um público de quase 160 mil espectadores, chega à Caxias do Sul neste sábado (14), na temporada do Circuito Sesc/RS, contudo, os ingressos estão esgotados há semanas.
Na trama da peça, Vera Holtz se desdobra em diversos personagens, canta, improvisa, conversa com o autor da obra, brinca e instiga a plateia, além de interagir com o músico Federico Puppi, compositor e performer da trilha sonora original. A peça recebeu 22 indicações e ganhou os prêmios Shell e da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) de melhor atriz para Holtz, e APTR de melhor música para Federico Puppi.
Idealizado pelo produtor Felipe Heráclito Lima, o espetáculo parte do best-seller Sapiens - uma breve história da humanidade, do filósofo Yuval Noah Harari. O enredo trata da história da humanidade, percorrendo temas como deuses, dinheiro, nações e consciência e fazendo o público refletir sobre a própria existência.
Nessa entrevista, a atriz fala sobre a carreira, os novos desafios da profissão e avalia o mercado das artes cênicas nacional.
Essa é uma peça em que você atua, canta, improvisa e interpreta mais de um personagem. Com tanto tempo de carreira e tantas experiências vivenciadas, ainda é desafiante entrar em cena?
É extraordinário. A gente fica muito tempo fazendo televisão, em que se trabalha com plano americano, close, plano aberto. Aí, de repente, você entra numa caixa e o seu suporte de criação tem que atuar de forma diferente. O meu corpo tem que atuar de forma diferente. O teatro é quase um lugar atlético. Você tem que ter um tônus muscular bacana, a sua voz tem que estar preparada, o teu corpo tem que ter uma plasticidade para poder comunicar tudo aquilo...
O que diferencia um pouco, talvez, é que em Ficções eu falo através de várias personagens: "Agora você tem que acreditar que eu sou um asno. Agora, você tem que acreditar que eu sou um fóssil enterrado numa caverna. Agora você tem que acreditar que eu sou o trigo". Então, essa questão da performatividade, de você estabelecer uma cumplicidade com a plateia, que é o jogo interessante. Eu acho que o desafio de entrar em cena é permanente, em qualquer situação. Exige de você uma comunicação artística e não tem como não sentir um frio na barriga.

Você atuou por muito tempo em novelas, na televisão. Sente falta dessa rotina agora que está mais focada no teatro com a peça Ficções?
À medida que você vai avançando na idade, envelhecendo, a sensação que eu tenho é que essas multiplicidades de entidades e identidades que a gente desenvolve, parece que vão se alinhando. Porque você está fazendo novela por 30 anos, novelas brilhantes, né? Com autores, amigos, colegas, diretores. Então, eu percebo que, em sonho, eu estou sempre com eles. O que eu sonho que eu tô gravando, que eu tô com o diretor... Morreu o Denis Carvalho agora, recentemente. Foi uma dor tão grande, porque eu fiz alguns trabalhos com o Denis. Isso tudo, hoje, é uma entidade só. Então, quando a saudade não aparece verbalmente, ela aparece em sonho. Sinto saudade dos meus amigos. Aquilo era uma grande família, mas faz tempo que eu não vou na Globo.
Mudaram as novelas ou mudou o público que as assiste?
Nós tivemos muitas mudanças contratuais, mudanças de leis. E formas, também, de captação da televisão, de contar histórias. Hoje você tem um mercado mais aberto, você tem novela turca, você tem doramas, você pode assistir o que você quiser do mundo, e a qualquer hora, e do seu jeito. E mesmo o Globoplay, eu percebo, trouxe um público das novelas lá do meu tempo, que reassiste as novelas. Eles continuam assistindo na hora em que eles querem, o tempo que eles querem, a novela que eles querem ver. É muita mudança. E é sempre bom saber que as pessoas continuam prestigiando a teledramaturgia.

Você mencionou diretores com quem trabalhou na TV, como o Denis Carvalho. Hoje em dia, qual é o perfil de diretor que você admira e gosta de trabalhar?
Quando comecei minha carreira de atriz eu falei: "Vou abrir o leque o máximo que eu puder, tanto de personagens, quanto de diretores e equipes". Eu vivi isso, trabalhei com grandes diretores do teatro da década de 1980, 1990 e 2000. Quando fui para a televisão, trabalhei com a maioria dos diretores. A vida já me trouxe isso e eu, também, meio que intuitivamente abri o máximo que eu pude. Por curiosidade. O máximo de autores, papéis diversificados, diretores diversificados.
Então, hoje, eu acho que já estou bem mais tranquila. Gostaria de seguir com o trabalho que a gente se autointitula Coletivo Sapiens. É uma outra forma da sequência, né? O nosso diretor é maravilhoso, é o Rodrigo Portela. É um diretor jovem, com vários projetos. A gente segue com a nossa turma acolhedora, há quatro anos já em cartaz. E isso é muito bom. Porque essa fase de ansiedade de conhecer tudo, gente nova, já não precisamos mais passar por ela.
O teatro tem uma proximidade maior do público com o artista que está no palco. É isso que te mantém no teatro?
É uma maravilha. Essa peça é da companhia, então, a gente é que determina o ritmo, de viagens e os de convites também. E essa coisa de poder viajar o Brasil inteiro, nós já estivemos em Portugal com a nossa obra e, provavelmente, a gente faz o festival em Cabo Verde no final do ano. Fomos convidados, mas a gente ainda vai ver se consegue. Mas já fizemos em Portugal, já fizemos Norte e Nordeste, não fomos para o Centro ainda. Mas você conhece o Brasil, a diversidade, cada lugar do Brasil é um público distinto. O lugar que eles vão rir, que eles vão reagir mais ou menos. Existe uma diferença entre a capital e o interior. É sensacional. Quando você entra em cena, você olha e dá uma equalizada, um ajuste. Não é racional, é mais de sentimento mesmo. A gente percebe o público quando entra e é genial, é um aprendizado e um respeito muito grande pelo público brasileiro e português também.
E o público aqui do Rio Grande do Sul, quais são as tuas impressões?
Aqui no Rio Grande do Sul, a gente já fez duas temporadas, uma no Teatro da Opus e outra no Theatro São Pedro (ambos em Porto Alegre). Excelente, um público muito antenado, muito cabeçudo o público aqui do Sul. E eles tiveram uma reação muito, muito, muito junto com a gente.
Você parte também para o interior, tem alguma expectativa?
Eu conheço o Rio Grande do Sul, porque eu fui casada com um gaúcho. Fui casada sete anos com o Caco Coelho, que era um nativista, na década de 1990. A gente viajou bastante a Caxias, viajamos para passar a nossa viagem de núpcias. Fiz uma peça em Canela com o Caco. Eu conheço bastante o Estado, gosto muito e estou muito feliz de estar aqui.
Você sente que o mercado audiovisual negligencia as atrizes, depois dos 60 anos? Qual o espaço das veteranas na dramaturgia?
O Brasil é um país de jovens, eles adoram mudar a idade das pessoas. Eu tenho uma boa experiência disso. Fui fazer uma minissérie que era uma belíssima atriz que ia fazer, e daqui a pouco me pediram para fazer o papel.
Eu falei: "Por que vocês estão mudando tudo?", "Porque nós vamos abaixar a idade". Então quem tinha 70, passa a ter 50. Os de 50, vem a turma que vai para 30. Eu já vivi isso. E já entendi que vai afunilando dentro de uma novela. Os papéis vão se afunilando, as dinâmicas das histórias, os núcleos da novela vão ficando muito nessa geração até 50 anos.
Eu tenho 73 anos, então eu percebo que existe um afunilamento na expectativa, mas ao mesmo tempo, Sueli Franco continua trabalhando, Othon Bastos está fazendo um solo aos noventa e poucos anos. Fernanda Montenegro nunca parou, está com noventa e seis. Ari Fontoura é uma pessoa importantíssima no Instagram, ele conseguiu contar histórias de uma forma divertida e amorosa ao mesmo tempo. Nathália Timberg também está em cartaz. Ana Lúcia Torre está em cartaz em São Paulo. Então, muita gente está dando continuidade. Acontece um pouco de tudo. Os que estão seguindo e os que não estão.
No teatro, parece haver uma liberdade maior, não é?
Total. E tudo é solo. São iniciativas. Produzem, começam a produzir seus trabalhos, voltaram pro teatro. Olha o (Antonio) Fagundes, gente. Fagundes nunca parou. Christiane Torloni... tá todo mundo em cartaz. Às vezes, você diminui o mercado. E mercado é mercado. Você também pode ser esquecido na juventude. Pode ser chamado na juventude, faz uma novela e depois nunca mais faz nada, né? Às vezes, crianças também. Isso acontece em qualquer fase da idade, junto com os mercados de indústria do entertainment.





