
Enquanto algumas das vozes mais marcantes da música gauchesca reverberam pelos alto-falantes nas noites de shows e bailes do Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, durante o dia outra voz domina o Parque Nicanor Kramer da Luz. Há 40 anos, Nilson Hoffmann é o responsável por narrar as principais provas campeiras que movimentam o encontro tradicionalista, cuja 36ª edição se encerra neste domingo.
Desde 1986 já são 20 participações ininterruptas no evento, realizado a cada dois anos. Aos 76 anos, Hoffmann, que também é radialista, foi praticamente um pioneiro na narração de rodeios no Estado, sendo parte de uma transição: até o início dos anos 1980 era mais comum os rodeios contarem com animadores, mais dedicados ao engajamento do público.
Natural de Bom Jesus, Nilson Hoffmann morou parte da adolescência em São Joaquim (SC) antes de se mudar para Vacaria em meados dos anos 1970. Já era ligado a grupos de dança folclórica e tinha o sonho de ser radialista. Foi em uma viagem a Florianópolis para fazer teste em uma emissora de rádio que realizou, quase por acaso, sua primeira narração de rodeio:
— Estavam organizando na época o primeiro rodeio de Santa Catarina. Como eu era gaúcho e já conhecia alguma coisa desse meio, o chefe da rádio mandou eu e outro amigo que tinha ido comigo para ir ao rodeio fazer reportagens, mandar boletins. Chegando lá, eles estavam sem narrador e nos descobriram. Ofereceram um bom dinheiro e acabamos ficando para narrar. Quando retornei a Vacaria, já me apresentava publicamente como radialista e narrador de rodeios.

À medida em que Vacaria se consolidou entre os maiores eventos tradicionalistas do Brasil, atraindo um número cada vez maior de participantes e espectadores, cresceu também o número de narradores. São mais de 20 escalados para a atual edição. Hoffmann, que por muitos anos narrou as provas de laço, neste ano se dedica apenas às finais da gineteada internacional, que reúne os principais competidores brasileiros da modalidade atrás de prêmios vultosos:
— É a nossa Copa do Mundo. Aqui vão estar sempre os melhores, não só pela premiação, mas para ter no seu currículo a chancela de campeão do rodeio de Vacaria. Para o narrador, é também a prova que exige mais domínio e criatividade. Para ter uma ideia, só no Rio Grande do Sul tu encontras uns 200 narradores de provas de laço, que é um tipo de narração quase automática, mas de gineteadas não tem mais do que 10.
Entre histórias e memórias
Tão importante quanto conhecer profundamente as regras e as nuances de uma boa montaria é saber transmitir ao público a emoção daqueles oito segundos em que o ginete precisa se manter sobre o cavalo não domado:
— Eu narro sempre com emoção. Existe a obrigação de informar ao público quem é o ginete, qual cidade ele representa, de qual tropilha é o cavalo que ele vai montar, em qual palanque vai ocorrer a montaria. Mas se não for pra narrar com emoção, não faz sentido ter narrador.

Uma vida dedicada ao tradicionalismo rendeu ao bem-jesuense não só a alcunha de “voz oficial” do rodeio de Vacaria, mas também incontáveis amigos e histórias para contar. Uma das recordações mais marcantes, inclusive, tem a ver com amizade:
— Foi em 1992. Naquele ano eu era o patrão do CTG Porteira do Rio Grande (que organiza o rodeio) e tive a alegria de narrar a vitória do meu compadre Volmir de Paula e entregar a ele o prêmio, que era uma caminhonete Chevy 0km.
Além de Vacaria, Nilson Hoffmann também construiu sua trajetória viajando para eventos por todo o Sul do Brasil e também no Uruguai e na Argentina. Chegou a narrar uma média de 25 rodeios por ano. Hoje, por conta do implante de uma prótese no joelho que reduziu a mobilidade, limita sua participação a cerca de seis ou sete eventos por temporada. Mas ele garante que, enquanto a voz seguir forte e a visão estiver boa, o dia de parar ainda está longe de ser anunciado.



