
Há 30 anos, desde a edição de 1996, os temas da Festa da Uva passaram a ganhar destaque explícito nos cartazes oficiais do evento, ajudando a conduzir desfiles, a exposição agroindustrial e a narrativa simbólica de uma das maiores celebrações do Brasil. Mas, como lembram pesquisadores e protagonistas da própria festa, a ideia de tematizar a Festa da Uva é mais antiga do que parece — e está impressa em cartazes e discursos muito antes dos anos 1990.
Esse olhar mais amplo sobre a relação entre temas, cartazes e memória histórica é o fio condutor das reflexões do historiador Anthony Beux Tessari, 37 anos, diretor do Instituto Memória Histórica e Cultural (IMHC) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), e do artista plástico Valdir dos Santos, 74, que participa da Festa da Uva desde 1969, criando carros alegóricos e contribuindo diretamente para a construção visual do evento.
Conforme Tessari, a consolidação dos temas nos cartazes a partir de 1996 marca uma nova fase visual e comunicacional da festa, mas não o nascimento da ideia de tematização. Segundo ele, já na década de 1980 havia uma preocupação clara em orientar a Festa da Uva por conceitos centrais.
— A gente tem a referência de que um primeiro tema já foi pensado na festa de 1984, que marcou esse período de tentativa, ou até necessidade, de voltar às origens. Naquele ano, o conceito Volta às Origens não chegou a ser estampado no cartaz, mas apareceu no discurso oficial do então presidente da festa, Mário Vanin, e ajudou a conduzir o desfile — explica.
A ideia do tema surgia, portanto, como uma forma de reconectar a festa à sua dimensão comunitária e histórica, segundo o historiador.

É em 1996 que os temas passam, de forma sistemática, a aparecer também nos cartazes. A edição daquele ano marcou os 120 anos da imigração italiana e trouxe como tema A América que nós fizemos, diretamente relacionado ao impacto do filme O Quatrilho, lançado em 1995 e indicado ao Oscar. O autor do romance, José Clemente Pozenato (falecido em 2024), professor e pesquisador da UCS, foi homenageado naquela edição.
A partir daí, segundo Tessari, o cartaz passa a se consolidar como um documento histórico da cidade.
— O tema ajuda a conduzir o corso alegórico, a exposição e também aquele espaço de memória que tradicionalmente existe na entrada dos Pavilhões, contando a história da cidade e da própria festa — afirma.

Para explicar esse papel simbólico, Tessari recorre ao conceito de “lugares de memória”, do historiador francês Pierre Nora:
— Não são apenas lugares físicos, mas manifestações simbólicas que representam desejos de celebração e lembrança de acontecimentos com forte relação afetiva com a memória coletiva — destaca.
Temas que respondem ao seu tempo
Ao longo das últimas décadas, os temas da Festa da Uva passaram a dialogar diretamente com marcos históricos, culturais e sociais de Caxias do Sul e do Brasil.
Tessari lembra, por exemplo, que em 2010 o tema Nos trilhos da história, a estação da colheita celebrou os cem anos da chegada do trem ao município e também o centenário da elevação de Caxias do Sul à condição de cidade. Já em 2012, a edição Uva, Cor, Ação fez referência aos 40 anos da primeira transmissão da televisão em cores no Brasil.
Em 2019, a Festa da Uva adotou pela primeira vez um tema no idioma talian, com Viva una bela giornada, enquanto em 2022 o tema Juntos outra vez ficou marcado pela emoção do reencontro do público após o período da pandemia. Na edição de 2024, o tema Caminhos e Lugares voltou o olhar para a valorização dos espaços urbanos e rurais do município, reforçando o viés turístico da cidade.
— Cada tema responde às demandas do seu momento. Alguns celebram datas, outros destacam setores da sociedade ou sentimentos coletivos. Todos acabam se tornando documentos históricos — resume Tessari, que participou diretamente da escolha dos temas de 2022, 2024 e 2026 como representante do IMHC.
Outro exemplo emblemático vem ainda antes: em 1950, ano em que foi apresentado o primeiro pôster do evento, ou seja, 19 anos depois da primeira edição da celebração. O tema abordado no cartaz da Festa da Uva era os 75 anos da Imigração Itálica. A edição da festa deste ano contou com dois cartazes de divulgação.
Conforme Tessari, entre temas, cartazes e contextos históricos, a Festa da Uva se consolida como muito mais do que um evento festivo. Para ele, ela exerce um papel pedagógico fundamental.
— Essa é inclusive a ideia que a professora Cleodes Piazza desenvolve na tese dela, que vai resultar no livro sobre a Festa da Uva: que a festa, como um todo, tem esse caráter de disseminar também a história da cidade e, por consequência, tem um caráter pedagógico, de ajudar a difundir a história regional, explicar para as pessoas também como o nosso município se formou ao longo do tempo — sintetiza.
Cartazes como fragmentos históricos
Se para o historiador o tema organiza a narrativa da festa, para Valdir dos Santos o cartaz precisa cumprir, acima de tudo, uma função essencial: comunicar de forma direta, simples e positiva.
— O cartaz é uma imagem imediata. Ele não pode ser confuso — afirma o artista.
Ao contextualizar a origem histórica do cartaz no mundo, Santos destaca que o conceito moderno de afiche (cartaz, em francês) surgiu na França, no final do século 19, com o pintor Henri de Toulouse-Lautrec, que criou cartazes para divulgar os espetáculos do famoso cabaré Moulin Rouge.
— Funcionou porque a comunicação era direta. Depois vieram os cartazes de "procurado" no Texas, nos Estados Unidos. Sempre com essa ideia de impacto imediato — explica.
Na avaliação do artista, os temas nem sempre foram plenamente traduzidos em toda a complexidade da Festa da Uva.
— Às vezes, o tema aparecia só no desfile, não como um todo. A festa é muito complexa: envolve valores visuais, estéticos, emocionais. Mas ela é muito rica, porque a nossa história é complexa e, ao mesmo tempo, simples: é trabalho, respeito e comprometimento — reflete.
O artista também destaca cartazes históricos que, para ele, sintetizam o seu tempo. Um exemplo é o cartaz de 1958, criado pelo artista Darwin Gazzana, que retrata um casal de imigrantes de forma estilizada, com fundo cinza. Assim como em 1950, a edição de 1958 também contou com dois cartazes empregados na divulgação da Festa da Uva.
— É de uma leveza e elegância impressionantes. O cartaz é um fragmento real de uma época que passou — define.

Na maior parte dos anos os cartazes foram escolhidos por meio de concurso aberto ao público ou produzidos por artistas plásticos. A história mudou em 1996, quando o cartaz oficial passou a ser pensado por agências publicitárias.
Um cartaz que virou história
O próprio Valdir dos Santos também deixou sua marca definitiva na história visual da festa ao assinar o cartaz da edição de 1986, inspirado em um fragmento do painel Do Itálico Berço à Nova Pátria Brasileira, pintado por Aldo Locatelli em 1954 e localizado no atual prédio da prefeitura de Caxias do Sul.
— Eu simplesmente sonhei com o cartaz — relembra.

A ideia foi apresentada ao então presidente da festa, Mário Vanin, e executada com a colaboração do fotógrafo e professor da UCS Ary Trentin, ao lado de Joel Jordani. À época, o painel estava praticamente escondido, coberto de poeira e caixas, quando o espaço ainda era usado como depósito pela Câmara de Vereadores.
O resultado foi um sucesso: 200 mil cartazes distribuídos pelo Brasil ao longo de seis meses.
— É um cartaz que me marca muito. Ali, naquele painel do Locatelli, ainda existem cinco ou seis cartazes da Festa da Uva possíveis — sugere o artista.
Veja todos os cartazes da Festa da Uva:
Festa se inicia nesta semana
Celebrando a cultura, a gastronomia e as tradições da imigração italiana, a 35ª edição da Festa Nacional da Uva será realizada entre os dias 19 de fevereiro e 8 de março de 2026, em Caxias do Sul.
O tema dessa edição é Fruto de um sonho imigrante, em homenagem aos 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, destacando ainda os 135 anos de emancipação de Caxias do Sul e os 95 anos da própria festa. A proposta é reforçar a participação popular como essência do evento, valorizando a diversidade e o sentimento de pertencimento.


