
O Carnaval de Rua de Caxias do Sul celebrou na noite deste sábado e na madrugada de domingo - quando se encerrou por volta de 2h30min - o tão aguardado retorno ao coração da cidade. E o público compareceu em bom número às arquibancadas e calçadas da Rua Sinimbu, aproveitando o clima agradável para prestigiar os desfiles das seis escolas de samba participantes. A campeã será conhecida neste domingo, após a apuração dos votos que irá ocorrer à tarde.
A seguir, confira como foram os seis desfiles da noite:
NAÇÃO VERDE E BRANCO
Por volta de 20h15min, a Nação Verde e Branco, do bairro Cinquentenário 2, abriu o desfile com o enredo “Majestade Negra — de ilu ayê à corte pampeana”, uma exaltação à trajetória do Príncipe Custódio (Custódio Joaquim de Almeida, 1831-1895) e sua contribuição para a consolidação das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul. Exaltando a raça negra, o refrão grudou fácil no público: "A pele preta é um exemplo de virtude/ A Verde e Branco exaltando a negritude". Alas representando manifestações da cultura negra, como os Lanceiros Negros, foram alguns dos destaques apresentados.
- Nosso desfile exalta a beleza e a raça da negritude e é com essa garra que queremos ganhar o Carnaval - exaltou a presidente da escola, Rosaura Moreira Pinto.
Uma das mais animadas era a menina Alana Andrade, de apenas 4 anos, estreante na folia caxiense. Acompanhada pela mãe, Fernanda, 44, que por oito anos desfilou como rainha de bateria da Nação, a menina esbanjou simpatia e samba no pé ao longo dos dois quarteirões da Sinimbu, desde a esquina da Borges de Medeiros até a Rua Dr. Montaury.
- Ela é apaixonada por dança e cedo pelou gosto pelo samba. A gente mora perto da quadra da escola, e todo dia quando tem ensaio da bateria ela acompanha sambando em casa - conta a mãe.
ACADÊMICOS PÉROLA NEGRA
A segunda escola a passar pela Sinimbu foi a Acadêmicos Pérola Negra, do bairro Mariani, com o enredo “O Sonho de um menino se transforma em aquarela, Salve o presidente Cafu, o brilho eterno de um sambista”, homenagem ao ex-presidente Salésio Evangelista Macedo, o Tio Cafu, falecido em 2024.
Com destaque para a riqueza de cores das fantasias e alegorias, o desfile buscou transportar para a Sinimbu a alegria que era a principal característica do homenageado, segundo Wagner Macedo, intérprete do samba e filho de Salésio:
- Foi um desfile nostálgico, mas muito pra cima e muito alegre, porque meu pai era assim e ajudou a fazer o Pérola Negra ser assim.
Um dos momentos mais marcantes do desfile foi o carro alegórico repleto de crianças fantasiadas de anjos, com túnica branca e auréolas. Particularmente emocionada o longo do trajeto estava Ana Paula Dellapussa Soares, 40. Motivos para não ter como conter as lágrimas não faltaram:
- A hora em que a escola está passando pelo público vem muita coisa à cabeça, mas principalmente a luta de cada um que faz o desfile acontecer. E ainda por cima a minha filha é a rainha do Carnaval caxiense (Ana Luiza Soares). A hora em que passei por ela foi ainda mais emocionante.
UNIDOS DO É O TCHAN
Já por volta de 22h30min, a Unidos do É o Tchan, do bairro Diamantino, entregou muita irreverência com o enredo “Vou sair do seu corpo para festejar, prazer! Sou a tatuagem que vai te marcar”. A escola desfilou contagiada pela voz do sambista carioca Igor Sorriso, vencedor do Estandarte de Ouro pela Acadêmicos de Salgueiro no Carnaval do Rio de Janeiro e do Carnaval de São Paulo pela Mocidade Alegre, neste ano.
Cantando sobre transformar o corpo em arte viva, numa homenagem à arte da tatuagem, a escola apresentou alas com temas recorrentes no mundo das tattoos, como borboletas e motivos orientais. Para Joice Borges, 39, que se fantasiou de borboleta, o enredo contribuiu para que a escola fizesse um desfile fora do senso comum:
- Eu fiquei muitos anos sem participar do Carnaval e quando me convidaram para voltar fiquei muito animada com o Carnaval que faríamos. Acho que foi uma proposta diferenciada e que trouxe muita alegria pra Sinimbu.
Após o desfile, Igor Sorriso foi só elogios para a participação do público caxiense na festa popular que ele tão bem conhece e frequenta, tanto no Rio quanto em São Paulo:
_ Caxias me surpreendeu com um Carnaval muito bacana e muito vibrante, com o povo participando muito. Acho que nosso samba funcionou, a comunidade abraçou a causa e nós fizemos um grande desfile. Espero poder voltar no ano que vem e sempre que me chamarem.
FILHOS DE JARDEL
A Acadêmicos Filhos de Jardel apresentou “Tá na mesa, tá na manga, tá na mão. É no jogo da avenida, meu Jardel é campeão”, enredo que brinca com a linguagem dos jogos e da estratégia para celebrar a garra da escola, que teve entre os destaques a estética inspirada em gladiadores para sua bateria.
Ao longo do percurso a escola despertou a saudade daqueles que cresceram jogando clássicos do mundo dos games; contemplaram a paixão brasileira pelos esportes, especialmente o futebol, e não deixaram de fora as maneiras modernas de apostar na sorte, com a ala das baianas representando o jogo do "tigrinho".
Um destaque foi a comissão de frente, que colocou um ""gamer" desfilando a maior parte do tempo sentado na cadeira com um console na mão, com os demais integrantes representando personagens do Mortal Kombat, um ícone dos jogos eletrônicos, e fazendo coreografias inspiradas nos golpes dos lutadores.
_ A gente tem um grupo de dança, o Alarme Falso, que já é parceiro da escola há alguns desfiles, e neste ano surgiu essa oportunidade de fazer uma coreografia que a gente se divertiu muito e acho que quem assistiu também. A ideia principal da coreografia é passar essa diversão que os jogos nos proporcionam, nos transportando para outra realidade - comenta Marcos Robdy, 56, que interpretou o jogador de video-game.
XV DE NOVEMBRO
A Acadêmicos XV de Novembro passou com um tema ligado à vocação industrial de Caxias do Sul com “É de aço o compasso da academia, XV de Novembro canta o aço e o metal e a metalurgia”. E o samba foi o ponto alto do desfile, com a letra fácil de ser decorada e a batida empolgante que fez sambar até aqueles que já estavam mais cansados após cinco horas de desfiles.
_ A gente sentia muita falta de poder desfilar na Sinimbu, onde o Carnaval de Caxias fica mais bonito e mais alegre, e onde o samba também soa melhor. Por isso fizemos um samba pra cima, pensando em passar essa alegria que está nos nossos corações _ comenta o cavaquinista Gilberto Miguel Pereira, 56.
Com alas representando diferentes aspectos da indústria, um destaque do XV de Novembro foi a ala das baianas, que se vestiu de azul para representar a água como recurso indispensável para a indústria, espalhando bolinhas de sabão pela Sinimbu. A bateria, igualmente afinada e animada, se vestiu de cinza, a cor do aço.
SÃO VICENTE
Fechando o desfile, a Associação Cultural Esportiva São Vicente apresentou “Do amém ao Axé... A fé se une no samba”, com foco no combate à intolerância religiosa. O enredo propõs uma mensagem de união e respeito à diversidade de crenças, reforçada pela presença de uma inédita ala LGBTQIA+.
Com os versos reforçando que "O preconceito é uma praga/ ódio que se propaga/ Destrói, corrói e mata", a escola do bairro Jardelino Ramos passou sua mensagem para um público já reduzido, mas ainda participativo e disposto a aplaudir e cantar junto.
A porta-estandarte Daiane farias, que é porto-alegrense, desfilou pela primeira vez no Carnaval caxiense e quer voltar com a São Vicente para os próximos anos:
- A escola fez um desfile maravilhoso, que tocou num tema muito importante, que é a necessidade do respeito com quem pensa diferente, pois todos têm direito a ocupar o seu espaço e ser como é. Abaixo todo tipo de intolerância!
O Carnaval de Rua de Caxias do Sul 2026 é realizado pela Secretaria Municipal da Cultura/Diretoria de Arte e Cultura Popular, pelo Instituto SAMbA e pelo Instituto de Leitura Quindim e das Escolas de Samba de Caxias do Sul.



