
— As pessoas gostam daquilo que é nosso.
O segredo que Tarcísio Michelon, 76, diz ter aprendido com a mãe, Josefina, ajuda a explicar o sucesso do roteiro Caminhos de Pedra, idealizado pelo engenheiro e empresário bento-gonçalvense, em sua cidade natal. Cada vez mais procurado como destino de visitantes que chegam de todas as regiões do Brasil, a atração registrou um crescimento de 75% em 2025 na comparação com o ano anterior. Foi um salto de 276 mil para 482 mil turistas que passaram por alguns dos 30 estabelecimentos e pontos de visitação que compõem o roteiro, no distrito de São Pedro.
A pedra fundamental para despertar o interesse pela região é uma das palavras que Michelon, talvez o maior visionário do turismo na região da Uva e do Vinho, repete quase como um mantra: autenticidade. E tem a ver com o conselho que foi buscar ao consultar a mãe, quando Bento Gonçalves ainda era um destino que buscava uma identidade para explorar seu potencial turístico.
— Na década de 1950, Bento Gonçalves era o destino de veraneio preferido dos gaúchos. Tinha 20 hotéis na cidade. Quando o litoral se desenvolveu e a estrutura rodoviária tornou mais fácil ir de Porto Alegre até a praia, muitos destes hotéis fecharam, sobrando apenas quatro. Quando eu retornei para Bento após me formar engenheiro, perguntei à minha mãe o que as pessoas gostavam quando vinham aqui e ela, na sua simplicidade, me explicou que elas queriam saber como era a nossa cultura e o nosso modo de viver nestas terras. E sempre será sobre esta autenticidade - reflete.

De nada bastaria, contudo, a intenção de recolocar Bento Gonçalves no mapa turístico se não fosse o despertar da vocação para bem receber os visitantes também entre os moradores do interior. Tão importante quanto o valor arquitetônico das construções em pedra, afinal, é a hospitalidade das famílias que abrem suas portas e compartilham seu modo de viver com pessoas que nunca viram antes.
— Gosto de dizer que nós cuidamos dos primeiros estabelecimentos aqui do roteiro como se fossem crianças. Quando estas crianças cresceram e prosperaram, o que veio depois foi um caminho natural, mas sempre com a valorização da cultura vindo antes de qualquer interesse comercial. Ainda hoje, para qualquer pessoa interessada em vir para somar ao roteiro, eu sugiro procurar antes a nossa Associação Caminhos de Pedra, onde arquitetos irão orientá-las sobre como se manter dentro dos princípios básicos da cultural local - destaca Michelon.
Novas ofertas para um novo público

O incremento expressivo no número de visitantes passa também por decisões acertadas na gestão do roteiro. Especialmente após períodos críticos, como a pandemia e a enchente, unir esforços para reposicionar o atrativo diante de mudanças de comportamento, impulsionadas também pelas redes sociais, foi fundamental. E o resultado não demorou a aparecer.
— A gente passou a abordar nossa comunicação de uma forma diferente, divulgando mais como roteiro e não somente os estabelecimentos. Foi preciso entender que o público mudou. Após a pandemia e após a enchente, as pessoas querem cada vez mais ter contato com as nossas paisagens e conhecer nossa história e originalidade, algo que a fazer desligar do seu dia a dia — destaca Arlete De Cesaro, secretária executiva da Associação Caminhos de Pedra.
Arlete aponta ainda que a diversidade cada vez maior de atrativos dentro do roteiro, que em seu início tinha opções mais restritas a restaurantes, vinícolas e artesanato, também contribui para que o público tenha passado a enxergar o passeio como uma opção para toda a família e para qualquer época.
— A gente fica muito satisfeito em ver que uma família chega aqui e todos aproveitam e saem felizes, desde a criança até o idoso. Somos cada vez mais um roteiro para famílias.
Para 2026, há otimismo quanto às oportunidades de crescer ainda mais, principalmente por conta do calendário repleto de feriados prolongados distribuídos por quase todo o ano. Para o futuro mais distante, ainda que não se possa revelar detalhes, existem planos da associação de agregar ao roteiro mais propriedades distribuídas ao longo da histórica Linha Palmeiro, incluindo um trecho no interior de Farroupilha.
Mistura de legados e tradições

Um dos atrativos que contribuíram para ampliar o catálogo de experiências disponíveis aos visitantes do Caminho de Pedra é o Gaita & Assado, evento idealizado pelo músico e assador Jeve Carelli. Aos sábados, domingos e feriados, a propriedade da família, ao lado da tradicional Cantina Strapazzon, recebe as pessoas para comer um churrasco feito à moda tradicional gaúcha, tendo o costelão como prato principal a ser saboreado ao som da música nativista que sai do acordeom de Carelli.
A oportunidade surgiu da necessidade. Carelli se apresentava com seu acordeom no tradicional passeio da Maria Fumaça e mantinha uma escola de música. Com a pandemia, teve de suspender ambas as atividades e precisou se reinventar, assumindo uma vaga como gerente em um frigorífico. Com a liberação gradual para realizar eventos ao ar livre, já na fase mais branda da pandemia, teve junto com a esposa, Kelen, a ideia de unir música e churrasco numa experiência que pudesse agradar não só aos turistas, mas também aos moradores de Bento e da região.

— Nosso turista é muito disposto a desfrutar da nossa cultura e a aprender. Gosta de voltar para casa com novas experiências, mas também com mais conhecimento na bagagem. Por isso, não abro mão de utilizar o microfone para contar um pouco da história da cultura gaúcha, desde o preparo da carne até o do café de cambona, que é oferecido ao final. Ao mesmo tempo, a gente preza muito pelo público local, que sempre sentiu falta de poder levar a sua família para comer um bom churrasco em meio à natureza — conta o assador e músico.
Além de celebrar a consolidação do Gaita & Assado, Carelli vibra com o momento de afirmação do Caminhos de Pedra no cenário turístico, atribuindo como fator essencial para isso a união entre os empreendedores em prol do bem comum:
— É um trabalho muito bem feito, porque são muitos estabelecimentos e, mesmo assim, se consegue construir uma identidade harmônica, onde prevalece o interesse por preservar a cultura.
União que inclui a todos

Com previsão para inauguração oficial em março, mas já atendendo de forma experimental, o Vilarejo de Integração Anjos Unidos será o primeiro parque totalmente adaptado para pessoas com deficiência e idosos no Brasil. Construído em uma área de quatro hectares nos Caminhos de Pedra, em frente ao antigo Moinho Bertarello, o parque é uma exceção dentro do roteiro, pois todas as pedras foram transportadas para o terreno: foram 2,3 mil cargas para fazer cerca de três quilômetros de muros de taipa.
— É, literalmente, um caminho de pedra — brinca um dos administradores do espaço, Alcindo Riviera.
A iniciativa partiu da Associação Anjos Unidos, que atua em Bento Gonçalves no sentido de oferecer bem-estar a pessoas com necessidades especiais. O espaço conta com 16 cabanas de madeira para hospedagem, restaurante, sala de fisioterapia, sede para um clube de mães onde serão vendidos produtos coloniais e peças em artesanato, capela, casa na árvore a seis metros de altura, brinquedos diversos, passeios de rio e trilhas na natureza.

— Uma das atrações mais bacanas é a trilha sensorial, guiada por fios ao longo de 600 metros, que todos podem fazer com os olhos vendados ou à noite, para dar a noção da experiência que a pessoa com deficiência visual tem — antecipa Alcindo.
A inauguração irá concretizar um trabalho iniciado em 2019, mas que foi interrompido por conta da enchente de maio de 2024, quando uma ponte levada pela água teve de ser reconstruída. Além de acessibilidade, o parque irá oferecer entrada livre para pessoas com deficiência, que também terão acesso gratuito aos passeios e aos demais atrativos. Construído a muitas mãos, com a mobilização de benfeitores e o apoio de diversas empresas locais, o Vilarejo de Integração Anjos Unidos também é uma síntese da força que caracteriza o legado daqueles primeiros construtores que desbravaram a região.


