
No Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado neste 29 de janeiro, sete pessoas trans naturais ou moradoras de Caxias do Sul falam sobre os desafios e as conquistas da comunidade que ainda sofre com preconceito no dia a dia, mas a cada ano avança na garantia de direitos e na luta por espaços no mercado de trabalho. Os depoimentos são trechos de episódios da série documental 7 Dias Por Semana, idealizada pela artista visual Guigo Dedecek e que está disponível no YouTube. Confira:
NAOMI LU, 25 anos, DJ, atriz e cantora

"Em todo momento tem um monte de gente me mostrando, direta ou indiretamente, que eu não posso fazer alguma coisa, que não sou capaz de algo. Tanto porque não acreditam em mim, quanto por não acreditarem na sociedade. Vejo muitos homens cis, brancos, héteros ocupando espaços incríveis em pouquíssimo tempo de atuação. São espaços que eu tenho de batalhar muito para ocupar, ou que não consigo ocupar na maioria das vezes, e sei que não é pelo meu talento".
MARIA LILITH, 29 anos, bailarina e educadora social

"Eu enfrento os mesmos dilemas de todas as pessoas trans, que são a invisibilidade, ter de provar a própria identidade o tempo todo e a minha capacidade profissional o tempo todo. Eu fui expulsa de casa aos 14 anos e fui salva pela arte, quando fui morar com uma professora de balé. Mesmo na dança, porém, era o corpo masculino que era aceito e eu tinha de me portar como homem. O início da minha transição foi como entrar numa caverna. Poder entrar dentro de si e se curar, antes de ir pro mundo, acho que é uma das melhores coisas".
MERI MOREIRA, 33 anos, cabeleireira e empreendedora

"Os desafios que eu enfrento são todos os dias. Acho que existe um pré-conceito, quando as clientes fazem agendamento pelo WhatsApp, tendo a visão de uma mulher cisgênera, e quando deparam com uma mulher trans, ficam um pouco assustadas, não sabem como lidar. É um desafio pra mim fazer com que elas criem essa confiança comigo. Eu já sofri preconceito dentro do meu próprio salão. Quem cala é conveniente. Não concordar com uma transfobia, porém não ter a atitude de ir contra a transfobia. Para mim, ser uma pessoa trans e ser reconhecida e estar num lugar de admiração é um sentimento que me marca muito e me traz muita gratidão e recompensa".
MARINA LUÍSA ALMEIDA, 33 anos, artista visual

"As pessoas não querem ver a arte de uma pessoa trans num museu, numa galeria, não procuram tanto a gente para projetos, não convidam para fazer exposições coletivas. A gente está cansada de saber que lugar de trans é nas esquinas, é viajando para se prostituir, não tendo um mínimo de dignidade. Quando tu rompes essa barreira, é afrontoso. Principalmente para os homens. Espero muito que a gente possa inspirar as gerações futuras de pessoas trans e que a sociedade mude, que nos respeitem mais".
BERNARDO DAL PUBEL, 35 anos, fotógrafo e licenciado em História e Filosofia

"Uma vez, quando tu pensavas em pessoas trans, tu só pensavas em formas marginalizadas delas viverem. Quando nos mostram pessoas trans que chegaram a lugares antes inacessíveis, como um professor numa escola, um artista reconhecido, um fotógrafo, acho que isso significa esperança. De que a gente tem futuro, que a gente tem espaço para viver, trabalhar, ganhar dinheiro. Não apenas para existir escondido, invisível. Tu não precisar ser forte o tempo todo, mas não deixe ninguém te dizer até onde tu podes ir".
CLÉO ARAÚJO, 46 anos, bacharel em Direito e ativista social

"Vai haver vários preconceitos, mas quero que você (pessoa trans) não desista. Seu corpo vai ser objeto de olhares, mas não desista de nada, principalmente da vida. Viva a vida. Sou a primeira mulher trans bacharel em Direito em Caxias do Sul e tenho certeza que não serei a única. Dentro desta área temos como transformar realidades, garantir o cumprimento de leis e administrar projetos. Isso é muito importante para o nosso andar enquanto pessoas".
AYAN FEMME, 31 anos, atriz, cerimonialista e supervisora comercial

"Os desafios que a gente enfrenta como pessoa trans são para sair e comprar pão, são dentro da família, são para fazer novas amizades, são de existência. Eu saio de casa meu vizinho me olha, pego o ônibus e as pessoas me olham. Meu atual emprego, que me sustenta hoje, foi o primeiro em que não fui questionada, nem comentada a situação de eu ser uma pessoa trans. Estar no mercado de trabalho é um ato revolucionário e de empoderamento. Às vezes a gente nem sabe o quanto está impactando na vida de outras pessoas".




