
Metáfora é figura de linguagem. É uma das armas mais poderosas a serviço das artes. A metáfora é o que separa o concreto do abstrato. É o que separa a dureza do cotidiano de um olhar poético, mais atento à beleza da vida — sem perder de vista a aspereza das realidades sociais desse Brasil diverso.
O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos mais inventivos criadores de metáforas, escreveu que "o rio era apenas um fio de água mansa, um fio de vida que se perdia na areia." João Cabral nos leva para dentro de um rio para falar da vida, uma vida que vai se esvair logo ali à frente. Não adianta correr.
A metáfora será — por todo sempre — antídoto para esse cotidiano acelerado, frenético, que parece corroer nossos calcanhares, tentando de algum modo ceifar a vida. Como se fossemos tragados pela terra antes do fim do curso do rio, esse "fio de água mansa" como poetiza João Cabral.
Outro pernambucano, o cantor e compositor Lenine, já nos avisa há um bom tempo que "mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma / até quando o corpo pede um pouco mais de alma / a vida não para." É visível e tátil a urgência da vida, o que parece estar fugindo de controle é o tempo que nos dedicamos a viver. Daí entendemos essa disritmia como se fosse a vida que está acelerada.
O paranaense Paulo Leminski (1944-1989) no poema O atraso pontual provoca o leitor: "adianta consultar o relógio?" E prossegue: "ninguém nunca chegou atrasado / bênçãos e desgraças / vêm sempre no horário." Ou seja, como derrotar o tempo se a lógica parece ser a de Clarice Lispector (1920-1977), que embaralhou as cartas para nos tirar o chão: "como começar pelo início se as coisas acontecem antes de acontecer?"
Em Lavoura Arcaica, o escritor paulista Raduan Nassar, discorre sobre o tempo como um se fosse um ourives: "rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira".
De que favores fala Raduan? Que cada um percorra seu curso nesse rio da vida e descubra. Uma das embarcações mais propícias para encarar essa jornada é a metáfora. É desse material que a literatura, por exemplo, é feita. Por isso, a seguir, seis escritores da Serra convidam a desacelerar nesse novo ano que se inicia. Até porque a morte não deixa recado, ela vem sempre sorrateira.
Fernando Pessoa (1888-1935), um dos mais importantes autores da língua portuguesa, na véspera de sua morte deixou o seguinte recado: "não sei o que o amanhã trará."
Leminski sempre soube disso, afinal, "bênçãos e desgraças / vêm sempre no horário." Pois, então, adianta correr?

Autores da Serra escreveram microcontos como um convite aos leitores para terem uma vida menos acelerada nesse 2026 que se inicia. Inspire-se:
Slowe
Vagar no devagar do seu corpo e do seu coração. Assim seria seu destino. A vida era etcétera. Os dias sem fim, exceto nos relógios. Slowe, ventre na areia, pensou no anoitecer. Na cintilação das madrugadas quando sonhos se embaralham. Esse ano sabático lhe ensinou que o corre do mundo é enganoso. É preciso encantar-se, contemplar, comover-se. Slowe não teria mais pressa. Queria o ouro das horas impunes. Do mar vagando em si mesmo. Das liberdades escolhidas a dedo.

BIBA COELHO, é jornalista, escritora e mestre em Comunicação e Semiótica - Cinema. Autora de O Imprevisto (2008), Histórias que te conto (2015) e Rebentação (2023).
Dívida interna
Aos 46, recém-separada, ela aceitou tomar café com o charmoso do setor de vendas: vendedor de si também, a voz, a altivez, os gestos abertos. Mas daí ele deslizou num clichê. Disse que a vida estava em 1.5x e que desacelerar era o luxo da vez. Pois é, ela devolveu, polida. E num pensamento de retaliação se viu dançando sozinha, os giros, as acelerações que devia a si mesma, ela, por ela, pra ela.

MARCOS MANTOVANI é escritor e editor. Tem mestrado em Letras e Cultura pela UCS. É autor dos romances Borboleta Nua (2013) e Clandestinidades (2020).
A humana
A humana não para. Quando senta em frente àquela máquina que chama de computador, seus dedos correm para lá e para cá. "Preciso trabalhar para comprar teus sachês", ela me diz, meio brincando, meio a sério. Eu durmo, acordo, durmo de novo, acordo outra vez, e ela lá, os dedos ainda correndo. Até que eu canso: pulo no tal computador para forçá-la a parar. Ela me pega no colo, e eu ronrono. Sachê é bom, mas prefiro carinho.

MARISTELA SCHEUER DEVES é jornalista, escritora, doutora em Escrita Criativa. Venceu a categoria Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores (Ages), em 2025, por O Mistério da Dama Fantasma.
O homem mais apressado do mundo
Economista de formação, dono de empresa de transportes. Tinha tanta pressa que chegou adiantado no próprio enterro. Na entrada da capela, outro nome. Sorriu com alívio quando um anjo lhe soprou que teria mais duas décadas de vida. Ao sair, já na calçada, a Morte botou a mão no seu ombro. "Espere. Vamos aplicar aqui um preceito da economia dos transportes: com uma viagem, levo dois passageiros."

T.S. MARCON é escritor, fotógrafo e arquiteto. Já publicou Deus veste legging (2015), Diário da castração (2023) — romance ganhador do prêmio Vivita Cartier em 2024 — e Enquanto visões da rua dançam na minha cabeça (2025).
Trocar de tela
Esta é a história. Ia um menino, com as tias, passear no bosque. Era um dia inventado à moda paisagem; deram-lhe de presente um dia de pausa. Longe das telas digitais, o menino pode sentir a textura do chão, o viço das plantas e quis espiar o movimento das nuvens no céu. "Brincar desacelera preocupações e angústias, cria eternidades", pensou ele. Ao final do dia, as tias do menino reclamaram da azáfama que o tempo tem. O menino riu, um riso desacelerado e cheio de alegria.

DELCIO AGLIARDI é professor na UCS, graduado em Filosofia e Letras, mestre em Educação e doutor em Letras. Patrono da 35ª Feira do Livro de Caxias do Sul, é autor entre outros de O avô do meu avô me contou (2025) e Rotas Do Imaginário (2018).
Roedor
Dona Coisa vivia em ter e fazer coisas. Voaram muitos anos de sua vida. Lendo Valter Hugo Mãe narrando que "o tempo conta coisas, não as junta. Separa gravemente. Enumera o desaparecimento de tudo. É um roedor." Caiu dentro de si. Descoisificou-se. Adotou canto de pássaros, livros, plantas, e afetos de gente presente. Faz agora seu tempo demorar, vivendo dessas e outras pequenas grandes coisas.

JAQUE PIVOTTO, agente cultural e poeta, autora de Quando nasci Gertrudes (2016).




