
Tanto as 300 pessoas que pularam na primeira edição do Bloco da Velha, em 2011, quanto as 60 mil que participaram da 13ª edição, no ano passado, se acostumaram a frequentar o evento que nasceu gratuito e aberto a toda a população, como não deixará de ser. Não poder arcar com o custo desta decisão, porém, é o motivo que levou ao irreversível cancelamento da edição deste ano, anunciada pelos organizadores no último dia 15.
— Desde o anúncio do cancelamento neste ano por inviabilidade financeira, recebemos diversas sugestões, como a cobrança de ingresso. Mas, dentro do que a gente entende, o bloco de Carnaval de rua é uma manifestação popular da cultura brasileira e que precisa ser gratuito para todo mundo poder ir. A gente não aceitaria deixar de ser assim, da mesma forma que não aceitamos diminuir o tamanho do evento — comenta Guilherme Martinato, um dos idealizadores do Bloco da Velha.
O custo para colocar o bloco na rua parte de R$ 500 mil. Mesmo com os recursos captados através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o teto de R$ 80 mil por projeto torna o fomento insuficiente. Por isso, seria igualmente necessário contar com a aprovação do projeto também em edital da LIC estadual, cujo teto é de R$ 200 mil por proposta. Com a soma destes recursos, contando ainda com valores da comercialização de camarotes e a locação de espaços para venda de bebidas e alimentação, seria viável realizar o Carnaval. Sem ter conseguido a verba estadual, porém, não teria como fechar a conta.

— Infelizmente, no mesmo edital em que ficamos em primeiro lugar no ano passado, neste ano ficamos em oitavo. E apenas seis propostas foram aceitas na primeira chamada. Na segunda chamada, não foi contemplado nenhum evento de Carnaval, apenas festas temáticas. Tentamos, então, a Lei Rouanet (do Ministério da Cultura), mas quando recebemos a aprovação, em meados de dezembro, chegamos tarde. As empresas que procuramos para tentar a captação já estavam com os seus recursos direcionados para outros projetos e eventos, muitos deles para a Festa da Uva — afirma Martinato.
Sendo o maior bloco de rua do Estado, reunindo o dobro de foliões do segundo maior, o Bloco da Laje, que em sua última edição levou cerca de 30 mil foliões às ruas em Porto Alegre, o Bloco da Velha gerou em sua última edição cerca de 350 empregos diretos e mais de mil indiretos. Atraiu visitantes a Caxias e manteve na cidade moradores que poderiam ter optado por curtir o feriado em outra cidade. Fez a economia girar, proporcionando lazer e cultura. Por estas e outras razões, Martinato considera que o momento é propício para discutir a criação de um edital específico para blocos de Carnaval de rua, como existe em diversas outras cidades brasileiras.

— Os blocos de Carnaval estão crescendo exponencialmente no Brasil, e, em diversas cidades, o poder público já passou a enxergá-los como um movimento que transcende a cultura popular, mas que também é turístico e muito potente para movimentar a economia. Já foram criadas entidades específicas, mecanismo de fomento direto, por premiação, até mesmo Porto Alegre tem o seu edital específico para os blocos de rua. Em Caxias, infelizmente, os blocos nunca foram chamados sequer para uma reunião com a prefeitura para tratar de parcerias, apenas para tratar do cumprimento de obrigações.
Avançar neste tema, contudo, é assunto para o Carnaval de 2027. Neste ano, não só está cancelada a folia na Rua Dom José Barea, como o bloco também não irá se associar a outros eventos no período. Formações artísticas como a Banda da Velha ou a bateria do bloco ainda podem aparecer em alguma festa, mas não há nada decidido até o momento.
LINHA DO TEMPO
2011

Um grupo de amigos frequentadores da livraria Do Arco da Velha cria o Bloco da Velha, que no dia 6 de março, domingo de Carnaval, saiu em cortejo pela área central de Caxias e pelo bairro Panazzolo. Cerca de 300 pessoas participaram.
2014
Crescendo a cada ano, em sua quarta edição o bloco juntou cerca de 5 mil pessoas, saindo em cortejo do centro e tendo sua última participação no bar Kerwald como ponto de parada, passando Centro de Cultura Ordovás, e finalizando a apoteose na Estação Férrea.
2015

Neste ano, o bloco apresentou o maior caminhão de trio elétrico do Estado, carregando uma banda formada por 13 músicos. O cortejo com 10.000 pessoas saiu do centro e teve concentração no Centro de Cultura Ordovás, seguindo até a Estação Férrea.
2018

Motivado pelo crescimento, neste ano o bloco deixa de fazer um cortejo e se torna estático, na Rua Dom José Barea, com palco e banda para animar a festa, reunindo cerca de 40 mil foliões.
2019
Único ano em que o Bloco da Velha teve duas datas, saindo às ruas no domingo, seu dia mais tradicional, e também na terça-feira.
2023

Na retomada após dois anos de hiato por conta da covid-19, o bloco levou cerca de 50 mil foliões à Rua Dom José Barea, com o sugestivo tema pós-pandêmico Baile de Máscaras.
2025
A novidade para a 13ª edição foi a criação da bateria do Bloco da Velha, liderada pelo músico Guy Ribeiro e formada por 15 instrumentistas que participam de oficinas oferecidas pelo bloco. Com o tema Batucada Brasileira, neste ano, o bloco reuniu cerca de 60 mil pessoas, sendo 1,4 mil no camarote.

