
— Eu acho que poderiam ter mais eventos culturais em Caxias, porque, às vezes, as pessoas não têm acesso para ir num evento, porque é muito caro. Então, quanto mais, melhor. Assim as pessoas vão começar a ir e vão se divertir.
Essa é a constatação do caxiense José Arthur Portela, 13 anos. Ele representa um grupo de 20% dos adolescentes ouvidos pela Fundação Marcopolo, em Caxias do Sul, que declaram ter uma vida cultural saudável. Ou seja, que frequentam cinemas, CTGs e consomem música, por exemplo, em atividades presenciais.
A estudo foi realizado neste ano ouvindo 1.044 jovens nascidos entre 1995 e 2010 e que vivem em Caxias. Os dados revelam que 44% dos jovens caxienses entrevistados não leem, enquanto que 36% leem um livro por ano. Apenas 20% respondeu ler mais de cinco livros anualmente.
Os hábitos culturais dos jovens caxienses também apresentam dados que acendem um alerta: 56% deles afirmam viver em escassez de cultura. O que significa que participam apenas de uma ou duas atividades durante o mês — seja ler um livro, assistir a um filme ou ir a um show, enquanto que 25% disseram não ter vida cultural e apenas 20% afirmaram ter uma vida cultural mais assídua.
Parte do grupo que costuma frequentar eventos culturais, José Arthur, morador do bairro Cidade Nova, considera que eventos que representam a identidade da cidade, como a Festa da Uva, são boas opções de programas culturais para frequentar em Caxias. Além de ir à Festa, ele também costuma ler, em casa, e diz que gosta de ir ao cinema com os amigos.
— A minha família não tem uma condição tão boa. Às vezes, preferimos não ir para, quando precisar de algo mais importante, a gente vai ter aquele dinheiro guardado. Mas, normalmente saímos de casa, porque gostamos de guardar memórias em família — conta o adolescente.
Barreira financeira afasta jovens de atividades culturais
O estudo da Fundação Marcopolo revela que apenas 20% dos jovens declararam participar de atividades culturais com mais assiduidade. Uma das explicações desse baixo percentual pode ser depurado a partir de uma pesquisa realizada pela Fundação Itaú, entrevistando habitantes de todos os Estados do Brasil. Entre diversos apontamentos, um deles chama mais a atenção: a barreira financeira é uma das principais razões que afastam os brasileiros de atividades culturais presenciais no país.
A 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha, revelou que o custo que mais afeta o acesso é o preço dos ingressos, de acordo com 22% dos entrevistados, seguido pela despesa com transporte, apontada por 19%.
Para a adolescente caxiense Camila Pedroso da Silva, 14 anos, moradora do bairro Kayser, a barreira financeira é um dos motivos que impede a ela e seus amigos de manterem hábitos culturais mais frequentes. Contudo, ela também considera que a falta de informação é um ponto importante a ser considerado.
— Às vezes, as pessoas não vão porque não têm condições e, às vezes, porque não conhecem. Então, se tivesse mais divulgação e mais eventos gratuitos, mais pessoas poderiam ficar sabendo e ir. Ia ser muito legal. E a gente também teria mais eventos para aproveitar com os nossos amigos. Porque, normalmente, quando saímos, podemos escolher ir no cinema, mas ficar no shopping é caro — diz Camila.
No caso dos dois jovens caxienses, que moram em bairros das zonas Sul e Oeste, mais distantes da área central, um simples deslocamento de ônibus de casa até um evento cultural no Centro pode levar cerca de uma hora.
— Caxias está se tornando uma cidade com mais atrações turísticas. Porque antes era uma cidade mais para o comércio. Agora, está se tornando uma cidade mais bonita, com mais pontos turísticos. Eu também gosto de ir, por exemplo, nos shows gratuitos, como agora, que teve o show de Natal (com a Família Lima) —conta Camila.
Para ela, no entanto, faltam opções culturais no bairro onde mora. Camila afirma que ela e os amigos, que moram no mesmo bairro, gostam de frequentar atividades culturais. Mas caso tivessem mais atrações perto de casa, facilitaria o acesso deles.
— Se tivesse um evento ou coisas um pouquinho mais próximas, que não tivessem um custo tão alto, a gente poderia ir. Porque todo mundo mora meio perto. E nossos pais não teriam tanto medo de deixar a gente sair, como se fosse vir para o Centro, que é mais perigoso. Então, se tivessem mais eventos assim, no bairro, a gente poderia sair mais com os nossos amigos. Seria interessante pra gente não ficar só dentro de casa no final de semana, quando nossos pais não podem levar a gente — analisa.

"Falta esse engajamento de entenderem que a cidade é feita para eles"
A exemplo do que ocorre em Medellín, na Colômbia, inspiração para os projetos da Fundação Marcopolo, a ideia desse estudo é identificar o que pode ser melhorado em Caxias para torná-la melhor para quem vive aqui.
— Desde a primeira vez que a gente chegou em Medellín, ficamos chocados, porque é uma cidade onde as pessoas são leitoras ativas e têm hábitos culturais. Para entender os nossos jovens daqui, a gente perguntou para eles como fizeram (em Medellín). E foi por pesquisa. Então, nasceu a nossa. Os números foram surpreendentes. Tanto para coisas boas, como para coisas assustadoras — analisa o gerente da Fundação Marcopolo, Luciano Balen.
A cidade é para nós. Mas eles, muitas vezes, não sabem que podem.
DAIANE LUZA
Especialista de Cultura e Educação da Fundação Marcopolo
Apesar desse estudo não elencar os motivos pelos quais os jovens frequentam ou deixam de frequentar eventos culturais, Balen afirma que o Rio Grande do Sul é privilegiado por ter a cultura tradicionalista presente em quase todas as classes sociais, o que pode favorecer o acesso e a manutenção dos hábitos culturais.
— Nós sabemos que o Rio Grande do Sul é um Estado privilegiado por conta da tradição gaúcha, que é muito forte, inclusive, nas faixas D e E. Eu acho que há mais oportunidades para as classes A e B, mas não necessariamente estão aproveitando. O meu entendimento pessoal é que existe um preconceito, também, com o que é considerado cultura. Tem gente que não considera, por exemplo, o funk uma cultura — pontua Balen.
– Talvez as classes D e E não saibam que elas podem ter essas oportunidades. Porque a gente veio de um período de pandemia, no entendimento que a gente tem, conversando com os jovens, em que eles pararam tudo e ficaram trancados em casa com o celular. Eles não sabem o que é o mundo aqui fora. Falta esse engajamento de entenderem que, sim, a cidade é feita para eles. A cidade é para todos nós. Mas eles muitas vezes não sabem. Falta incentivo para que eles conheçam os equipamentos públicos que podem usufruir — analisa Daiane Luza, especialista de Cultura e Educação da Fundação Marcopolo.

De olho nos dados
Veja a seguir o diagnóstico de um estudo realizado pela Fundação Marcopolo que nesse ano ouviu 1.044 jovens nascidos entre 1995 e 2010 e que vivem em Caxias do Sul:
Livros e leitura:
44% dos jovens não leem livros
36% lê pouco (de um a cinco livros no ano)
20% têm o hábito da leitura (mais de cinco livros no ano)
Vida Cultural:
25% não têm vida cultural
56% vive em escassez de cultura (uma a duas atividades culturais por mês — seja ler um livro, assistir a um filme ou frequentar um evento)
20% têm vida cultural saudável (mais do que cinco atividades culturais por mês)
Hábitos esportivos e de lazer:
36% não têm o hábito do esporte
42% não têm o hábito de frequentar praças e parques
Menos de 10% têm o hábito de frequentar praças e parques
E a seguir, veja alguns dos pontos mais importantes da pesquisa Hábitos Culturais da Fundação Itaú:
- Foram realizadas 2.432 entrevistas, com pessoas de 16 a 65 anos.
- 84% dos entrevistados afirmou ter realizado alguma atividade cultural presencial nos últimos 12 meses;
- As atividades culturais presenciais são mais realizadas em regiões metropolitanas, entre pessoas autodeclaradas brancas e à medida que aumenta a escolaridade e a classe econômica. São menos realizadas entre quem têm 45 a 65 anos e em municípios de pequeno porte (Caxias do Sul se enquadra como cidade de médio porte na metodologia da pesquisa).
- 34% dos entrevistados apontam barreira financeira para acesso a atividades culturais fora de casa (valor do ingresso, alimentação, deslocamento...)
- 60% dos entrevistados dizem ter gastos mensais com atividades presenciais, 31% dizem despender mais que R$100 por mês.
- Quando questionados sobre o valor que pagariam para realizar a atividade cultural que faz de forma gratuita, os entrevistados responderam principalmente mais que 50 reais (31%), entre 31 e 50 reais (22%) e entre 11 e 30 reais (18%). 17% não pagaria nada.
- Dentre as atividades que mais pessoas estariam dispostas a pagar, estão teatro/stand-up (90%), aniversário da cidade (89%), shows de música (85%), exposições (83%) e festa junina (82%).
- 31% citam insegurança e violência como motivo para evitar eventos presenciais; Dessa parcela, 47% dizem temer assaltos e furtos, e 21% mencionam violência contra as mulheres nos espaços culturais ou arredores (essa porcentagem aumenta entre as mulheres, chegando a 28%).
- Do grupo de entrevistados que participam de atividades culturais presenciais, 61% costumam frequentá-las pelo menos uma vez por mês. Dentro desse grupo, aproximadamente um terço mantém o hábito de participar semanalmente.
- Locais onde as pessoas mais acessam cultura são praças, ruas, parques e igrejas. Entre as atividades presenciais mapeadas pela pesquisa, todos os espaços são mais acessados por pessoas com maior escolaridade e classes com maior renda.
- O que mais leva as pessoas a buscarem atividades culturais presenciais é "relaxar e diminuir o estresse" e "conhecer novos lugares".


