
Ao longo dos últimos anos, Chico César estreitou laços com o Rio Grande do Sul, compondo e gravando ao lado de Humberto Gessinger e voltando a se apresentar ao lado do amigo Vitor Ramil. A ligação do paraibano com artistas gaúchos, porém, é bem mais antiga, conforme o cantor e compositor contou ao Pioneiro. Na entrevista, o artista antecipou detalhes do show que trará a Caxias do Sul na próxima quarta-feira (12), dentro da programação do 12º Aldeia Sesc. Os ingressos estão à venda no site da entidade, a partir de R$ 30.
Celebrando três décadas do lançamento de Aos Vivos, álbum que o revelou para o Brasil, Chico César irá tocar na íntegra as músicas daquele trabalho gravado ao vivo. Com uma proposta intimista, irá retornar também ao formato voz e violão para apresentar sucessos como Mama África e À Primeira Vista. Confira a seguir a entrevista com o cantor.
PIONEIRO: Ao celebrar os 30 anos de "Aos Vivos", você revisita o formato voz e violão. Como este formato te permite explorar nuances diferentes das composições em relação aos arranjos para banda?
CHICO CÉSAR: Voz e violão é o formato original das canções. É como elas nascem. E eu tive a felicidade de ter gravado o meu primeiro disco assim, e ao vivo, o que dá muita verdade ao disco e também à forma como eu apareci na cena. Há muita inteireza neste jeito de surgir, sem outros aparatos que não os essenciais para a existência da canção. Depois vieram os arranjos para banda, para orquestra, e retornar ao formato original permite um reencontro com essa intimidade e com essa essência, que considero algo muito potente na minha relação com o público.
O que te chama mais a atenção ao comparar o cenário musical que propiciou o sucesso de Aos Vivos, em meados dos anos 1990, para a cena atual da música brasileira?
O que mais me chama a atenção, pensando nestes 30 anos, é a consolidação de uma geração de música popular brasileira, que é a minha geração. É também a de Lenine, de Zeca Baleiro, de Paulinho Moska, de Vitor Ramil…isso pra mim é muito marcante, por eu ter vivido de dentro este processo. Outra coisa são as tecnologias de gravação e de distribuição, que foi uma revolução. Aos Vivos, por exemplo, foi gravado com um sistema que já está obsoleto, além de ter sido lançado em CD, que na época era o que tinha de mais moderno como plataforma. E que também já está obsoleto. Temos hoje, de volta, o bom e velho vinil, lado a lado com todas estas plataformas digitais indomáveis, insondáveis e incompreensíveis existentes.
Estes aspectos tecnológicos todos propiciaram um acesso maior, até inimaginável, a um grande número de pessoas que puderam gravar e distribuir suas músicas. Isso é bom por um lado, porque democratiza, permitindo que qualquer pessoa lance o seu álbum. Ela pode até lançar um álbum hoje e outro amanhã, se ela quiser. Por outro lado, isso banaliza os aspectos artísticos e dificulta para que possamos apreender tudo o que é produzido. Muito se vai sem que sequer tomemos conhecimento.

Ao mesmo tempo em que tem traços muito singulares, tua música representa diversas tradições de diferentes lugares e tempos da cultura brasileira. De alguma maneira, tiveste a intenção de colocar no show atual um pouco das referências que formam o artista Chico César?
Não tive a intenção de colocar todas estas referências, para além do que elas já estão de modo implícito, sub-reptício, nas minhas canções. O nordeste, a África, a literatura, o zelo pela palavra está todo ali. Eu toco o Aos Vivos inteiro, na sequência que está no CD, e depois mais algumas canções, no bis, que são um pouco aleatórias. Depende do que vem na cabeça, dentro daquilo que levo sempre na manga. Mas é claro que não dá para tocar tudo o que tenho vontade, senão seria um segundo show emendado no primeiro.
Recentemente, você assinou uma canção em parceria com o gaúcho Humberto Gessinger (Paraibah, de 2025), além de fazer show em Porto Alegre ao lado de Vitor Ramil. Alguma música ou algum artista gaúcho, incluindo os dois citados, te influencia ou te inspira de alguma maneira?
Dos 8 aos 15 anos de idade, ou seja, de 1972 até 1979, eu trabalhei em uma loja de discos na minha cidade, Catolé do Rocha, e lá eu vendia muitos discos de Teixeirinha e Mary Terezinha. Posso dizer, sem medo de errar, que Teixeirinha é uma das minhas influências musicais, principalmente pelo aspecto rural e pelo lado sentimental da música dele. Considero Teixeirinha um artista icônico, pela maneira como ele traz as representações de uma regionalidade, em que pese todos os clichês envolvidos nisso. Está no mesmo patamar de Luiz Gonzaga representando o Nordeste; de Tonico & Tinoco ou Pena Branca & Xavantinho, representando os interiores do sudeste; ou de Pinduca, trazendo o Norte do Brasil.
Acho que não haveria Mama África se não tivesse havido antes Coração de Luto (de Teixeirinha, de 1960). Essa relação profunda da figura da mãe sofrida, da família explorada, que está em Teixeirinha, abriu um caminho para que se chegasse até Mama África. Eu me sinto muito ligado à cena mais contemporânea de músicos gaúchos, como Humberto Gessinger, Adriana Calcanhotto, Os Almôndegas, toda a cena rocker, mas esse aspecto trazido lá atrás, por Teixeirinha, é muito marcante não apenas para mim, mas, sociologicamente falando, para toda a música brasileira.


