
Por cerca de 1h45min, o Teatro Murialdo se transformou em um templo sagrado. É que no centro do palco estava o cantor e compositor paraibano Chico César, uma das vozes mais potentes de sua geração na Música Popular Brasileira.
Chico César veio a Caxias como a principal atração da 12ª edição da Aldeia Sesc, nesta quarta-feira (12). A programação do festival segue até domingo (16), encerrando-se com show da banda porto-alegrense Nenhum de Nós, no Parque dos Macaquinhos (Veja a programação completa neste link).
O prometido foi entregue em forma de poesia
Chico César disse que tocaria todo o disco Aos Vivos, sua estreia no mercado fonográfico, lançado em 1995. Logo de cara, o cantor estabeleceu o manto sagrado sobre o teatro entoando a canção-reza Beradêro:
"Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do Equador
E a voz da Santa dizendo
O que é que eu tô fazendo
Cá em cima desse andor"
Respeitando a ordem das músicas no disco Aos Vivos, veio a seguir Mama África, no mesmo tom de denúncia social da canção de abertura. Nem é preciso dizer que a plateia respondeu verso a verso, cantando junto, até porque é a canção mais conhecida de Chico César.
Incorporado como uma entidade adornada de música — mesmo quando em silêncio — cada gesto de Chico revelava o sagrado, porque há algo de ritualístico na sua performance no palco.
Mesmo quando canta uma música de amor, como À Primeira Vista, tema de casais apaixonados que ainda preservam um olhar atento à poesia (e uma certa ingenuidade), Chico empresta seu corpo e voz ao sagrado. Suave e sereno, cantou, quase como se sussurrasse:
"Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei"
Além de um baita compositor, em seus shows Chico César gosta de contar uns causos. Diverte a plateia antes de cantar a canção que ele mesmo julga ser a mais triste de seu repertório: Sharienne. Ou seja, tem um tempero aí de uma alma espirituosa, mas também de sagrado, de saber preparar a plateia para o que está por vir.
Na plateia, meninos e meninas, ali, atentos, entre moços e velhos, Chico nos ensinou:
— O convívio com a arte nos deixa sem idade e soltos no tempo.
Profético, não? Poético também.
Assim que dedilhou no violão os acordes de Mulher Eu Sei, entoando seu potente verso de abertura "Eu sei como é pisar no coração de uma mulher", Chico César mudou a atmosfera do lugar. E seguiu: "Já fui mulher eu sei, já fui mulher eu sei". Imbuído dessa convicção, ensinou a plateia a rezar a mesma canção, como se quisesse extrair de nós não só a confissão, mas o arrependimento de nossos atos profanos.
Debaixo dessa aura sagrada, estendeu seu manto em forma de oração para celebrar a vida de dois compositores importantes da MPB: Lô Borges e Milton Nascimento.
Ao fim e ao cabo — que, em se tratando de arte, não tem começo e não tem fim — Chico César manteve-se incorporado para atravessar o tradicional bis. Já abriu com uma canção que poderia ser seu segundo nome Estado de Poesia.
"É belo vês o amor sem anestesia
Dói de bom, arde de doce
Queima, acalma
Mata, cria
Chega tem vez que a pessoa que enamora
Se pega e chora do que ontem mesmo ria
Chega tem hora que ri de dentro pra fora
Não fica nem vai embora
É o estado de poesia"
E teve até espaço para uma nova parceria entre Chico César e Humberto Gessinger, canção chamada Paraibah.
"Bah!
Eu canto para a bolha estourar
Imagina a pampa nordestina, alucinação"
Aqui e ali, o cantor e compositor paraibano, que nunca escondeu suas convicções políticas, deixou evidente para todos que estiveram sob o mesmo manto sagrado que ele ergueu no Teatro Murialdo, nesta quarta-feira, de que lado da história ele está. Inclusive, fez coro com parte da plateia cantando o lema da esquerda brasileira: "sem anistia, sem anistia".
Agende-se
A 12ª edição da Aldeia Sesc segue até domingo (16). Veja aqui neste link a programação completa.





