
Vilso Strapazzon demorou a acreditar que a história sofrida de seus antepassados pudesse interessar a alguém, até que o primeiro ônibus lotado de turistas desembarcou na sua propriedade, em maio de 1992. O fato está registrado em uma placa em bronze fixada a uma rocha, simbolizando o marco inicial do roteiro turístico Caminhos de Pedra, no interior de Bento Gonçalves. Surpresa maior, porém, foi quando Strapazzon descobriu que o resto do mundo viria a se encantar pela vida dos descendentes de italianos na serra gaúcha, quando O Quatrilho recebeu a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Lançado em outubro de 1995, o longa dirigido por Fábio Barreto, baseado no romance homônimo escrito por José Clemente Pozenato e lançado 10 anos antes, teve algumas de suas cenas gravadas na antiga casa dos Strapazzon. A propriedade foi construída em 1880 por Santo Strapazzon e pelo seu filho Giovanni, trisavô e bisavô de Vilso, que já comandava a propriedade da família naquele início dos anos 1990, então com pouco mais de 30 anos.


Foi naquela locação que se deu o primeiro encontro entre os dois casais que protagonizam a história, Angelo e Teresa Gardone e Massimo e Pierina Boschini, reunidos para um almoço familiar na casa da carinhosa Tia Gema e do desbocado Tio Cósimo.
Passados 30 anos da estreia de O Quatrilho nos cinemas, os turistas ainda chegam às dezenas nos finais de semana para conhecer a casa da família Strapazzon, interessados não apenas em saborear os vinhos e os sucos servidos e comercializados na cantina, mas também por conhecer um pedaço da história do cinema brasileiro.

— “O Quatrilho” mudou tudo por aqui. Antes a gente tinha vergonha do nosso jeito de falar, da vida simples, das casas velhas dos nossos antepassados. Quando a produção visitou as casas para escolher onde ia filmar, todo mundo achava que eles iam escolher as mais novas, mas foi justamente o contrário. E depois do filme, nunca mais se pensou em derrubar uma casa velha por aqui. Pelo contrário, foi quando a gente viu que precisava resgatar nossa história e preservar todo este patrimônio — conta Strapazzon.
Além do interior de Bento Gonçalves, O Quatrilho foi rodado em diversas outras cidades da região. O centro de Antônio Prado foi transformado na Caxias do Sul do primeiro terço do século passado; a cascata do Salto Ventoso, em Farroupilha, serviu de locação para o romance proibido entre Massimo e Teresa, a antiga Estação Férrea de Caxias do Sul reviveu seus dias de vai e vem de trens e passageiros para permitir a fuga de Teresa e Massimo.
Bem como algumas das paisagens da região, atores e atrizes locais serviram à história, não só como figurantes, mas também elencados papéis de destaque. Arcângelo Zorzi Neto, o Maneco, deu vida ao bodegueiro Stchopa; Pedro Parenti encarnou o anarquista Scariot; Gonçalo Mascia representou o atrevido Agostinho; Elaine Braghirolli cativou como Tia Gema. Hoje morando em Florianópolis, aos 81 anos, Elaine recorda do alvoroço que as gravações causavam nas comunidades por onde a produção passava.

— Foi algo muito diferente para nós todos, que estávamos acostumados a fazer teatro, somente. Teve alguma dose de sacrifício, porque era janeiro, fazia muito calor e a gente tinha de usar roupas de inverno, gravar próximo à lareira acesa. Mas também foi muito divertido. Lembro que vinha muita criança pedir autógrafo e eu dizia: ‘olha, eu não sou carioca, sou aqui de Caxias, não sou famosa”. Aí eles diziam “ahh, então não precisa”, e corriam para o próximo ator que viam — diverte-se Elaine, cujo trabalho mais recente foi a minissérie Roca Sales, de 2024, disponível no Prime Video.
A atriz, que também é psicóloga e professora aposentada da UCS, também ri ao lembrar de um momento inusitado ocorrido durante a gravação do almoço na casa da sua personagem:
— Eu fui fazer um gesto muito enfático em algum momento, bem característico da Tia Gema, mas acabei virando uma concha cheia de sopa de feijão em cima da Patrícia Pillar. Sujou todo o vestido branco dela. Mas a produção era tão rápida que logo saltaram umas três mulheres que a despiram, lavaram e secaram o vestido, e no outro dia já estava ela de volta com a mesma roupa para refazer a cena. Mas quase que eu estrago tudo!
Caxiense ensinou o sotaque da imigração às estrelas globais e a Caetano Veloso

Enquanto o elenco local, recrutado em grupos de teatro como o Miseri Coloni e o Kaleidoscópio, já carregava consigo o sotaque e os trejeitos da imigração italiana, coube ao maestro caxiense Renato Filippini ensinar o modo de falar dos colonos a um elenco que tinha a brasiliense Patrícia Pillar e a carioca Glória Pires como atrizes principais, além do também carioca Bruno Campos e do paulista Alexandre Paternost. Filippini recorda o quão intenso foram aqueles dias.
— Eu tinha todas as falas do roteiro decoradas e estava ao lado do (Fábio) Barreto em cada cena filmada. Além dele, eu era a única pessoa no set autorizada a mandar parar a gravação a qualquer momento, o que ocorria sempre que alguém escorregava no sotaque. Mas foi mais fácil do que eu pensava, porque o elenco era muito bom e estava muito engajado com o filme — conta o atual regente do Coro da UCS, que também fez uma breve ponta no filme, como o personagem Nane Mondo.

Antes mesmo das gravações terem início, Filippini já havia passado uma temporada percorrendo as colônias e escutando as pessoas idosas, a fim de criar um padrão de fala para as personagens. Também passou um período no Rio de Janeiro trabalhando com o elenco, a fim de que todos já estivessem afiados quando as filmagens começassem. O convívio fez surgir uma amizade, especialmente com a atriz Glória Pires, a quem visitou por mais de uma vez ao retornar ao Rio de Janeiro. Mais desafiador do que preparar os atores, no entanto, foi orientar o cantor Caetano Veloso a dar a entonação correta a Mérica, Mérica, canção-tema do filme:
— Caetano me mostrou uma versão que já estava gravada, mas que não condizia com a letra e com a história da música, além de estar num andamento de baile. Quando eu cantei a música pra ele, ele achou lindo e disse que eu é quem deveria cantar no filme. Então eu disse: ‘mas tu que és o Caetano Veloso, não eu” (risos). Mas na mesma hora ele ligou para o maestro Jaques Morelenbaum dizendo que queria regravar cantando em Ré maior e mais lenta. Eu ainda tive a empáfia de dizer que aquela versão mais alegre até podia ser usada no meio do filme, mas jamais na abertura.
"Ele mergulhou na escrita de tal forma, que mal conversava comigo", recorda Kenia Pozenato

No apartamento onde João Clemente Pozenato viveu até sua morte, em novembro do ano passado, aos 86 anos, os dias da produção de O Quatrilho estão eternizados no mesmo álbum em que estão as fotos da cerimônia do Oscar. A viúva, Kenia Menegotto Pozenato, optou por não acompanhá-lo na solenidade, que exigia que cada convidada levasse pelo menos seis vestidos de gala.
A professora aposentada acompanhou a transmissão junto a amigos no saguão do hotel Samuara, optando por esse convite entre os diversos que recebeu, pois Caxias e a Serra pararam para torcer pelo filme naquela noite de 25 de março de 1996. A estatueta acabou ficando com a produção holandesa A Excêntrica Família de Antônia. Independentemente do mérito do concorrente, Kenia conta que O Quatrilho foi prejudicado por um atraso na dublagem para o inglês, motivo que fez com que parte dos votantes sequer tenha assistido a tempo de entregar seu voto:
— O que o Barretão (Luiz Carlos Barreto, produtor) contou ao Pozenato foi que a Academia não aceitava filmes legendados, e a dublagem demorou um pouco mais do que devia para ser feita. Quando o filme finalmente foi dublado, muitos já tinham entregue seu voto sem sequer ter assistido a O Quatrilho — conta.
Na estante de livros da sala do apartamento, estão reunidas algumas das dezenas de edições do livro que deu origem ao filme, lançadas por diferentes editoras sempre com tiragens generosas. Kenia relembra os dias em que Pozenato trabalhava no texto, a partir de uma história verídica que escutou do amigo Ary Trentin sobre seus avós paternos, que viveram no interior de Gramado:
— O Pozenato mergulhou na escrita daquele romance de tal forma que, durante o tempo em que estava escrevendo o livro, mal falava comigo. Chegava a ser irritante, mas eu sabia que ele estava pensando na história, nos diálogos, nas reviravoltas. Ele sabia que tinha a oportunidade de escrever uma obra literária que contasse a saga da imigração italiana, como Josué Guimarães já tinha feito com a imigração alemã e Luiz Antônio de Assis Brasil com a imigração portuguesa.

Kenia lembra ainda que foi a atriz caxiense Ítala Nandi quem apresentou o livro a Luiz Carlos Barreto, que logo se interessou por levar a história ao cinema. E que Pozenato fez apenas uma intervenção mais significativa no roteiro adaptado:
— O Barreto queria dar um olhar mais carioca, onde os casais trocados ficariam amigos no final e tudo terminava bem, diferentemente do final do livro. Só que isso iria muito contra a seriedade com que os imigrantes italianos tratavam a traição, que foi o que ocorreu entre os personagens. Seria impossível terminar em amizade. Pelo menos não naquela época, acho que hoje isso mudou um pouquinho (risos). Ao final se chegou a um meio termo.
O Quatrilho daria origem a uma trilogia completada por A Cocanha (2000) e A Babilônia (2006). Barreto e Pozenato chegaram a conversar sobre uma possível adaptação de A Cocanha, porém, fatores como os cortes de verba para o cinema e a pandemia impediram a ideia de ir adiante. Mas quem sabe se o futuro ainda não reserva a estes volumes uma adaptação cinematográfica, talvez até à altura da obra que as originou?




