
Aos 86 anos, Pedro Renau Cardoso aguarda por este sábado com a ansiedade de um guri. A partir das 9h30min, o participante mais antigo da Festa das Cavalhadas de Cazuza Ferreira irá reviver a emoção do evento seis anos após a última edição, juntando-se a outros 43 cavaleiros na encenação da batalha medieval entre cristãos e mouros - tradição trazida ao Brasil por missionários jesuítas portugueses, no século 17.
A 120 quilômetros da sede, Cazuza Ferreira é o distrito mais distante da cidade de São Francisco de Paula. Está mais próximo de Caxias do Sul, que fica a 80 quilômetros. Em tempo de Cavalhadas, porém, as distâncias parecem se encurtar para os filhos desgarrados da localidade, que retornam ao berço para participar ou prestigiar o evento, cuja primeira edição foi realizada em 1885.
Trajando, desde 1950, o uniforme azul dos cristãos, Renau viu a festa acompanhar as transformações culturais ao longo das décadas. Recorda de tempos em que a participação feminina era rara, e em que vigorava a segregação social e racial: negros e os chamados “amarelos” – denominação dada aos brancos pobres – precisavam organizar suas próprias celebrações em datas paralelas. Herdeiro do entusiasmo do pai, Renau transmitiu a mesma paixão aos filhos e à neta de 17 anos, encarnando o compromisso tácito que faz com que diferentes gerações mantenham o legado vivo.
— Ousam dizer que eu sou o esteio das Cavalhadas. Para mim é uma honra. Eu aprendi com o meu pai não só a gostar, mas também a correr na frente, como guia (cavaleiros que dominam todos os atos da encenação). Ele pediu para que eu ensinasse também aos meus filhos, porque é assim que se mantém a tradição viva — comenta.
Sem as barreiras sociais e raciais do passado, os moradores estão unidos para fazer mais uma festa que renove o orgulho da comunidade. Célia Terres Basso, 72, uma das organizadoras do evento, comemora o apoio da prefeitura à retomada do evento, por meio da garantia de recursos que irão permitir realizar a programação ao longo de todo o dia (confira no final da matéria).

— É um evento sem fins lucrativos, organizado por voluntários. Houve anos em que deu até prejuízo. É difícil cobrir os custos só com a venda de ingressos para o almoço e para o baile. Neste ano, como tivemos um apoio importante da prefeitura, foi possível caprichar nas atrações e na estrutura, que terá até arquibancadas, pela primeira vez — destaca.
A professora aposentada, que por décadas participou como narradora, traduzindo para o público o significado de cada cena, dessa vez estará nos bastidores, conduzindo as visitas ao Memorial das Cavalhadas. Será uma espécie de museu, instalado em uma sala na Casa Paroquial, reunindo registros históricos, como fotos e reportagens, e apetrechos utilizados na encenação, como trajes, chapéus, cartucheiras, lanças, espadas e garruchas:
— Por ser um evento que atravessa gerações, muitas famílias guardam em casa objetos que pertenceram aos antepassados, além de fotos antigas. Fizemos um trabalho de pesquisa e algumas pessoas vão trazer seus itens no dia para a gente montar a exposição e ter essa atração a mais para o público apreciar.
CAVALOS RECEBEM PREPARO ESPECIAL

Enquanto o horário da manhã é dedicado à encenação - que tem no ato final a rendição dos soldados mouros e o batizado da princesa moura Floripa, raptada pelos cristãos – pela tarde é a vez dos jogos equestres, no qual os cavaleiros demonstram sua destreza em provas como o tiro das cabeças e tiro das argolinhas.
Para que os cavalos estejam impecáveis para a apresentação, além de banho e tosa os animais recebem um preparo especial para suportar o dia atípico, como explica Marcelo Cardoso, 50, filho de Renau:
— Tem uma diferença entre cavalos utilizados em rodeios e os que são criados soltos no campo, como a maioria dos que utilizamos nas Cavalhadas. Eles podem ser bonitos, mas são mais fracos. Por isso, um mês antes a gente começa a pegá-los todo dia para correr um pouco, e reforça a alimentação. É como uma pessoa que vai participar de uma prova…se não treinar, vai dar problema.
Corredores como Cardoso estão acostumados a representar a Festa das Cavalhadas também em municípios vizinhos, em festas populares, religiosas ou em feiras do livro. É bem diferente, contudo, a satisfação de receber as pessoas na própria comunidade. Aos 17 anos, Caio Araújo Basso já viajou com o grupo para apresentações pela região, mas vive a expectativa de estrear “em casa” com o traje vermelho do exército mouro:
— Na última edição eu carreguei o estandarte, desta vez vou correr na fileira pela primeira vez. Todos estão ansiosos, porque a mobilização está muito grande em torno da festa e a gente quer fazer uma apresentação à altura do título de Terra das Cavalhadas.

ORIGEM RELIGIOSA
O espetáculo das Cavalhadas surge inspirado no poema épico francês A Canção de Rolando, escrito no século 12 e que tem como pano de fundo a morte em batalha de Rolando (fato ocorrido mais de 300 anos antes), sobrinho do imperador Carlos Magno e um dos cavaleiros que formavam os 12 Pares de França. Embora a luta original retratada tenha sido contra os bascos, a narrativa foi adaptada e transformou-os em mouros, em sintonia com o espírito das Cruzadas e o combate travado pela Igreja Católica contra os muçulmanos na Península Ibérica.

A encenação das Cavalhadas no Brasil surge como um tipo de catequese, trazida pelos evangelizadores portugueses, simbolizando a vitória do cristianismo e a conversão dos mouros. Em alguns estados onde a tradição é mantida, como Goiás e Rio Grande do Sul, o enredo costuma incluir episódios como a morte de um espião cristão, o rapto de uma princesa moura e diversas escaramuças, que representam os combates menores dentro de uma batalha.
SERVIÇO
O quê: Festa das Cavalhadas
Quando: sábado (4), a partir das 9h30min
Onde: Praça Central de Cazuza Ferreira, distrito de São Francisco de Paula
Programação
Corridas e jogos esportivos (das 10h às 12h e das 15h às 17h), com animação da banda Real Madrid. Evento gratuito
Memorial Cavalhadas - visitação gratuita ao longo do dia (Casa paroquial)
Almoço festivo (12h30min) Salão Paroquial. Cardápio: churrasco, galeto, arroz branco, saladas e pão.
Jantar (20h) Salão Paroquial. Cardápio: churrasco, galeto, macarrão, salada e pão.
Show Os Carquejas (22h30min) Salão Paroquial
Baile Os Bertussi (23h50min) Salão Paroquial
INGRESSOS
R$ 40 almoço. (crianças de 7 a 10 anos pagam R$ 20); R$ 80 (jantar, show e baile) e R$ 50 (show e baile).
Onde comprar: antecipados pelo (54) 99997-2850 (Marcelo), 99910-6342 (Célia) ou 99696-6150 (Alex), ou no local.

