
Quando recebeu a notícia de que tinha sido escolhido como patrono da 41ª Feira do Livro de Caxias do Sul, o escritor caxiense Pedro Guerra, 33 anos, confessa ter ficado surpreso. Isso porque ser um escritor jovem sempre foi uma questão que ele entendeu que poderia travar o reconhecimento de sua obra.
— Eu meio que, automaticamente, botei na minha cabeça "eu vou ter que chegar em tal idade para ser reconhecido". Fui pego de surpresa, porque eu não imaginava que tão cedo ia ter esse tipo de reconhecimento. Apesar de ter sido patrono em mais de 10 outras cidades do Estado, é diferente quando vem da cidade onde tu nasceu e cresceu — relembra.
Caxias do Sul, para além de cidade natal do escritor, é o pano de fundo da obra que o lançou na cena literária. A Rainha Está Morta, lançado em 2013, abriu a série Caxienses (que terá continuação com uma quarta obra, mas ainda sem data de lançamento ou título divulgados), e utilizou a Festa da Uva como cenário e temática para narrar um crime misterioso. Depois, em Queda Livre, foi a vez do icônico edifício Parque do Sol. Em Cabra-Cega o cenário foi a Praça Dante Alighieri.
Assim como qualquer pessoa, em qualquer profissão, houve momentos de dúvidas, incertezas e pouca motivação. No final do último ano, por exemplo, Pedro confidencia que não sabia se ainda fazia sentido seguir o caminho enquanto escritor de obras para o público juvenil.
— Eu fiquei muito feliz, não digo nem por mim, mas de a feira de Caxias do Sul reconhecer a importância da literatura juvenil, principalmente enquanto eu ainda trabalho com esse público. Eu fiquei feliz de ter esse reconhecimento e poder divulgar e dialogar sobre a importância de insistirmos com esse público. Porque senão, não teremos adultos leitores — provoca.
Foi com esse público, inclusive, que Pedro consolidou sua trajetória enquanto autor. Com circulação em escolas e feiras do livro por todo o Rio Grande do Sul, tornou-se um incentivador da literatura entre os adolescentes.
— Fazia muitos anos que eu não via esse foco na literatura juvenil e eu acho que a Feira do Livro precisa desse gás. De entendermos que o jovem de hoje é o que vai, futuramente, manter a feira existindo. Então, a gente precisa trazer esse público — avalia Pedro.
E é nessa perspectiva que o escritor trabalha seus lançamentos e também as palestras que faz com os adolescentes em escolas. É uma "bandeira" de trabalho do autor. O desafio, no entanto, se concentra em conquistar a atenção de uma nova geração, pós-pandêmica.
— A minha profissão, assim como tantas outras, tem um público que vai se renovando. Porque a pessoa faz 18 anos e, de repente, ela vai perder interesse no tipo de livro que eu faço. E tá tudo bem. É aquela coisa de reconquistar público novo o tempo todo. Veio uma pandemia e eu perdi muitas das pessoas que me acompanhavam ferrenhamente. A partir de 2022 foi um começar do zero, literalmente — confidencia.
O começo de tudo

O escritor Pedro Guerra surgiu aos doze anos, quando ainda adolescente, escrevia confissões e desabafos em um caderno de matemática. Os textos, no entanto, eram um segredo. Tão secretos que a mãe, um dia, jogou fora o caderno com os escritos.
— Coincidiu com o exato momento onde começou a ser bem forte, dentro da escola, as questões de bullying. Ali eu travei. Qualquer sonho, vontade, perspectiva, me fechei. Eu era aquela criança bem estereótipo do bullying, poucos amigos, não falava com ninguém, não sabia apresentar trabalho. Era na minha, total retraído, total introspectivo. Quando passou a escola, deu alguma virada de chave, que eu senti: "se esse é o meu sonho, não posso ficar abafando o resto da vida, agora é a hora" — relembra.
Esse momento da virada foi em 2013, com o lançamento de A Rainha Está Morta. Influenciado pelos mistérios da escritora britânica Agatha Christie, Pedro ambientou um romance policial nos Pavilhões da Festa da Uva, durante a escolha da rainha e princesas da Festa da Uva.
Naquele momento, organizou o lançamento para que fosse acessível ao público-alvo (o livro custava R$19,90 na época) e criou uma atmosfera de mistério e comoção para conquistar os leitores.
— Eu sempre digo que a gente nunca vai estar pronto pra lançar um livro. Só que no momento que eu lancei, ele era o melhor que eu podia fazer naquele momento. Hoje eu olho para os primeiros livros e penso: "bah, isso eu faria diferente". Mas tem que começar de alguma forma. A gente tem que aproveitar essa parte da juventude, que a gente não tem tanto medo de meter a cara e fazer as coisas.
Com a obra, professoras começaram a procurá-lo para palestras e atividades em escolas. A partir daí, Pedro foi descobrindo como se aproximar e conversar com adolescentes, mesmo que fosse no mesmo cenário em que, na própria adolescência, ele sofreu tanto com o bullying.
— É o ambiente onde eu trabalho mais até hoje e me traz um pouco de medo. Trabalho na terapia e é um ressignificar quase que diário. Entrar em um lugar onde tu foi tão machucado, pensar como é que vai ser, será que vai acontecer a mesma coisa. Sou mais velho, passou, mas ainda mexe comigo — revela.
Com esse ressignificar, Pedro também conseguiu contar, por meio das palavras, a história que o atormentou na adolescência na obra Todo o Bullying da Minha Vida, que também virou espetáculo de teatro (lotando o Teatro Pedro Parenti, em 2019).
— Todas as coisas que eu fiz até hoje me desafiaram em níveis que vai saber quantas coisas outras eu teria que passar para enfrentar aqueles medos. Por exemplo, subir num palco e ver o teatro da Casa da Cultura lotado pra me assistir falando da minha história de bullying... Quantas barreiras eu precisei quebrar comigo mesmo pra conseguir estar ali? Já ouvi ao longo da vida: "muito showman e a literatura?". Eu falo: "gente, para chegar na literatura eu tive que fazer tudo isso". Quanta gente reclama que não é lida, mas não faz nada? — questiona.
Quem é Pedro Guerra?
- Autor de 20 livros, a maioria deles voltado para o público jovem, Pedro Guerra é especialista em Neurociência & Comportamento (PUC) e pós-graduado em Saúde Mental (FAMEESP). Também é cronista do Pioneiro, assinando coluna quinzenal do caderno Almanaque, e palestrante.
- Nos últimos sete anos, já foi patrono nas feiras de Garibaldi (2024), Picada Café (2023), Barão (2022), Lagoa Vermelha (2021), e Bento Gonçalves e Flores da Cunha (2018).
- Entre os livros de maior sucesso de Pedro Guerra estão A Rainha Está Morta (2013), Cabra Cega (2017), Todo o Bullying da Minha Vida (2019) e Vício (2020). Sua obra mais recente é Pais Cansados, Filhos Ansiosos, lançado este ano.
- Aos 33 anos, o escritor será o mais jovem patrono da história do evento literário em Caxias (antes dele a mais jovem era Natalia Borges Polesso, com 35 anos, em 2017).
Perspectivas para a feira
Como em todos os lançamentos, Pedro já começou a criar a atmosfera da literatura antes mesmo do início da Feira do Livro de Caxias do Sul.
Quando foi escolhido para ser patrono, pediu para a organização que fosse aberto um espaço de bate-papo para escritores emergentes, que estão iniciando a trajetória na literatura, e também uma sessão de autógrafos que será uma festa de aniversário.
Essa última será no dia 11 de outubro, último sábado da feira, justamente a data do aniversário do patrono. Como neste ano não lançará nenhum livro no evento, a ideia é que se torne uma grande festa, com autógrafos em todas as 20 obras já lançadas e interação com o público.
Além disso, o patrono vem organizando a distribuição de quase mil livros para diferentes entidade e escolas caxienses. O acervo foi distribuído para a Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan), Entidade Assistência à Criança e ao Adolescente (Enca), EMEF San Genaro, EMEF Machado de Assis e Casa Anjos Voluntários — onde, aliás, existe a Biblioteca Pedro Guerra e escolas em Farroupilha.
Além disso, Pedro também fez uma rifa para conseguir ônibus para levar duas turmas de crianças (da Anjos Voluntários e da Enca) para participar da programação da Feira do Livro.
— Eu acho que isso é meu dever, minha missão e vontade enquanto escritor. Mas, eu estou vendo como quase uma coroação desse trabalho feito há quase 14 anos. Por isso que eu falo da insistência diária, porque no final das contas vale a pena saber que tu fez alguém ler um livro até o final — resume.
Veja os cinco livros que marcaram a vida do patrono
- "A Louca da Casa", de Rosa Montero
- "O assassinato de Roger Ackroyd", de Agatha Christie
- "Canibais", de David Coimbra
- "Fora de Mim", de Martha Medeiros
- "Suicidas", de Raphael Montes
Programe-se
- Falta pouco para o início da 41ª Feira do Livro de Caxias do Sul.
- A abertura oficial será no dia 26, às 18h, na Praça Dante Alighieri.
- O show de abertura fica por conta do músico Tonho Crocco, que apresenta um tributo a Tim Maia, às 19h.
- Serão 18 bancas, entre editoras e livrarias, que vão oferecer até 20% de desconto nas compras de livros. Nesta edição, a área infantil terá seis bancas.
- A Feira do Livro vai ocupar aproximadamente 2,7 mil metros quadrados na Praça Dante.
- A montagem será parecida com os últimos anos, com a ala adulta ao redor do chafariz e a infantojuvenil próximo da Casa da Cultura.
