
Quando a banda Fresno lançou o último álbum Eu Nunca Fui Embora, em 2024, o título pode ter soado como uma provocação às bandas que retornavam aos palcos num momento em que o emo voltava a explodir nacionalmente. No entanto, a frase diz mais sobre o sentimento dos fãs que, desde os anos 2000, seguem firmes acompanhando e ouvindo os grupos brasileiros e internacionais.
De volta a Caxias do Sul depois de 10 anos desde o último show na cidade, a banda gaúcha Fresno foi uma das poucas que nunca entrou em hiato. Para este sábado (6), o grupo trará à Serra um repertório que mescla os maiores sucessos, como Quebre as Correntes e Redenção, e as novidades com sonoridade diferente, como Me and You (Foda Eu e Você).
Mas para quem acompanha a banda desde o início, como a caxiense Bruna de Matos, 26 anos, a mudança na sonoridade tem relação com a perenidade da banda, que vem conquistando novos públicos com os lançamentos.
— Eu gosto mais das antigas, até pela nostalgia, porque foi onde tudo começou. As pessoas que gostam mais das músicas atuais chegaram nessa nova fase. A gente tem que entender que eles estão agradando um público novo e temos que agradecer esse público novo, porque senão a Fresno acaba. A Fresno não é nada sem fã. Nenhuma banda é nada sem fã — analisa Bruna.
Ela é uma das muitas fãs que começaram a acompanhar a cena emo desde o início, quando surgiam bandas como a própria Fresno, NX Zero, Hevo84 e Cine, por exemplo. Agora adulta, consegue acompanhar shows e festivais pelo Rio Grande do Sul e em outros Estados, como o I Wanna Be Tour em 2024, em Curitiba.
Fico feliz em ser uma mulher adulta que conseguiu cultivar o amor por algo que nasceu quando eu era uma menina.
BRUNA DE MATOS
fã da banda Fresno
— Fico feliz em ser uma mulher adulta que conseguiu cultivar o amor por algo que nasceu quando eu era uma menina. Eu sempre gostei muito das músicas da Fresno, porque eu acho que tem músicas para cada coisa da vida. Cada um interpreta de um jeito, inclusive eu tenho tatuado a frase do livro do Lucas Silveira (vocalista da Fresno), que diz: "música é minha religião, pois eu acredito no seu poder de cura". Eu não sinto depressão e tristeza. Muito pelo contrário, fico feliz, me dá vontade de cantar — conta.
Sensação de estar em casa

Ao observar que existia público, mas ninguém promovia eventos voltados para ele, o produtor cultural Gabriel Tisott, ou Tizo, como é conhecido, criou a Wunder Produtora. Com a empresa, promove festas e eventos com bandas tributo apenas de bandas da cena emo, seja nacional ou mundial.
Entre eles, o CarnaEMO, superEMO e assustEMO, com tributos a Bring Me The Horizon, Fresno, Paramore, My Chemical Romance e outros grupos. Com a produtora, foi responsável pela organização da Global Listening Party do último álbum da banda Fresno, um evento que reuniu fãs ao redor do mundo para ouvir, em primeira mão, as novas músicas.
— Um pouco antes da pandemia, eu fiz um grupo de amigos e com eles vieram as músicas emo. Então, com My Chemical Romance e Paramore, eu tive aquela sensação de estar em casa. No carnaval de 2020, eu fui pra uma festa emo com meus amigos, mas a festa não aconteceu. A gente chegou lá e não tinha nem música e estava cheio. Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha e me chamou muito a atenção pela quantidade de gente que tinha ido — relembra.
A produtora surgiu, de fato, com o afrouxamento das regras de isolamento do período da pandemia de covid-19, no início de 2022, quando Gabriel montou um cover de My Chemical Romance e tocou no primeiro evento que ele mesmo promoveu.
— No início de 2022, a gente fez o primeiro CarnaEMO, com cover de My Chemical e Paramore. A gente vendeu 150 ingressos em uma semana. E era o limite máximo, porque era a pandemia. Ficamos com uma lista de espera de 200 pessoas — conta.
Desde o início, as festas são feitas exclusivamente com bandas tocando ao vivo, com tributos a diferentes grupos, como Green Day e Twenty One Pilots.
— A produtora também serviu para eu poder também tocar. Porque eu toco em praticamente todos os meus eventos. Muito porque também tem uma falta de bandas em Caxias para a quantidade de público que tem. Então, eu acabo fazendo assim para valorizar essa cena.
"O emo segue vivo e pulsante"
Para a analista de TI, Monique Homem, a cena emo em Caxias, assim como em outras cidades, percorre um caminho de altos e baixos. Em alguns momentos, teve mais fãs, em outros, foi considerada underground. Mesmo assim, ela nunca deixou de acompanhar as bandas que é fã.

— Mesmo nos momentos de menor visibilidade, nunca deixou de existir. Sempre teve gente acompanhando, ouvindo, vivendo esse estilo, ainda que de uma forma mais discreta. Nos últimos anos, com o movimento nacional de resgate e valorização do emo, sinto que Caxias também entrou nesse fluxo, ganhando novo fôlego e mostrando que o emo segue vivo e pulsante — analisa.
Hoje com 28 anos, já acumula, pelo menos, "15 anos de vida de fã". Monique lembra que o primeiro contato foi durante a adolescência, quando comprava CDs e assistia aos shows pela TV.
O emo sempre foi pra mim um espaço de conexão e pertencimento.
MONIQUE HOMEM
fã
— Sempre me identifiquei muito com as letras, a forma intensa de cantar e a maneira como as bandas transmitiam acolhimento através da música. O emo sempre foi pra mim um espaço de conexão e pertencimento — explica.
Desde o primeiro show que teve a oportunidade de ir, que inclusive foi da banda gaúcha Fresno, faz questão de estar presente em todos que pode, até mais de uma vez por ano.
— Nos últimos anos, tive a oportunidade incrível de ir no I Wanna Be Tour e também no 2000 Rock Festival, em Belo Horizonte, que reuniu a maioria das bandas que sou fã, como Fresno, Pitty e NX Zero. Foram experiências inesquecíveis, daquelas que ficam guardadas pra sempre na memória de fã — orgulha-se.
O que é o emo?
- O emotional hardcore, ou simplesmente emo, surgiu no final dos anos 1980, nos Estados Unidos. Mas foi há 20 anos que o conceito enquanto subcultura entrou em evidência.
- Por isso, mais do que vestir calças justas, roupas pretas, franjas e lápis de olho, as músicas que representam o emo são caracterizadas por letras confessionais e uma sonoridade pesada e melódica.
- O ano de 2005 pode ser considerado o ponto de virada da popularização do subgênero musical como movimento cultural e estético, com a ascensão de bandas como Fall Out Boy, Paramore, Panic! At The Disco, My Chemical Romance, Simple Plan e até com a "redenção" do Green Day na fase do álbum American Idiot.
- No Brasil, além da banda Fresno, que se apresenta neste sábado (6) em Caxias do Sul, grupos como NX Zero, Rancore e Glória fizeram parte da cena que teve seu auge na metade final dos anos 2000.
- Atualmente, há grupos gaúchos como Bella e Olmo da Bruxa, ou os paulistas da Chococorn and the Sugarcanes que têm conquistado o novo público emo.



