
Uma das duplas mais criativas e premiadas da literatura para crianças e jovens no Brasil, Blandina Franco e José Carlos Lollo têm uma parceria que também é conjugal. E isso ajuda a explicar, segundo eles, como nascem tantas e tão boas histórias, que já renderam mais de 40 livros publicados juntos, em 15 anos. Destaque para a série Quem Soltou o PUM, que surgiu como homenagem para um cachorro que cheirava mal.
Neste domingo (28), os paulistas estarão em Caxias do Sul para participar do bate-papo Literatura infantil: o que e como falamos com as crianças, às 15h, no Palco da Feira. Ao longo da semana, também irão participar de atividades do Passaporte da Leitura, voltadas para escolas da rede municipal.
A seguir, confira entrevista concedida por telefone ao Pioneiro.
Como foi iniciar uma carreira literária já beirando os 40 anos, que viria a ser tão prolífica? Afinal, são mais de 40 livros já publicados...
Blandina Franco: Eu relutei muito tempo em ser escritora. Eu não sabia que era. Mas, quando descobri, foi muito natural. E, por ser casada com um ilustrador, isso também torna mais fácil. É algo que faz bem para os livros e para a gente, que se diverte muito criando histórias.
José Carlos Lollo: É importantíssimo se divertir junto com a história. Mesmo que seja uma narrativa mais triste ou que trate de um tema sério, como o bullying, é fundamental estar com o espírito leve.
Blandina Franco: A gente gosta muito de inventar histórias, então acaba sendo sempre prazeroso.
Muitos autores demoram para encontrar o ilustrador certo para suas histórias. Para você foi mais fácil, pela relação conjugal?
José Carlos Lollo: As histórias sempre nascem em conjunto. Dificilmente a gente sabe quem começou uma ideia. É mais como se elas fossem surgindo junto com a gente.
Blandina Franco: Temos 15 anos de carreira juntos e um pouco mais de casados. Acho que já estamos na 20ª edição do casamento (risos). Mas também acredito que tem um pouco de sorte e de acaso nisso. Não posso sair dizendo para toda escritora casar com seu ilustrador, porque provavelmente não vai dar certo.
José Carlos Lollo: É algo que a gente vive, além de ser o nosso trabalho. Contar uma história engraçada um para o outro, rir das situações do dia a dia… isso faz parte das nossas personalidades.

E já aconteceu de um de vocês “escorregar” para fora do casamento literário?
Blandina Franco: O Lollo vive escorregando para fora do casamento, costurando pra fora (risos). Brincadeiras à parte, a gente já fez outras parcerias, mas sempre algo passageiro. Não sobra muito tempo, porque um livro demanda muito. Mais até para ilustrar do que para escrever, pelo menos no nosso caso. Trabalhamos juntos, mas não necessariamente ao mesmo tempo.
José Carlos Lollo: Tem livro que eu ilustro em cinco dias, outros em um mês. Já o texto, às vezes, fica anos “encravado” até sair da cabeça da Blandina. São dois trabalhos diferentes, sendo que o de ilustrar tem um tempo mais visível.
Como vocês pensam a linguagem quando escrevem para crianças?
Blandina Franco: É muito importante ter a voz o mais próxima possível da voz da criança. Não falar empolado, nem tentar passar uma lição. Eu acho que isso não funciona, pelo menos na minha experiência. Claro que não é regra. Mas, para mim, o humor é essencial. Uma pessoa bem-humorada, que te faz rir, tem muito mais chance de conquistar a criança.
José Carlos Lollo: Um exemplo é um livro que produzimos em parceria com o padre Júlio Lancellotti, sobre aporofobia — o sentimento de repulsa contra pobres. Nele, há várias figuras que falam coisas horríveis para moradores de rua, mas foram ilustradas de forma caricata. Isso facilita abrir a “portinha” na cabeça da criança de um jeito que ela goste e entenda.
Blandina Franco: As crianças não são bobas. Não podem ser tratada como alguém com menos inteligência. Elas não são burras, só são crianças. São espertas, têm inteligência — o que precisa é ajudá-las a colocar a cabeça para funcionar.
José Carlos Lollo: Linguagem infantil e linguagem infantilizada são coisas bem diferentes. A gente não vê crianças falando de maneira bobinha, então não faz sentido escrever para elas dessa forma.


