
As paisagens bucólicas em meio aos vinhedos, a paixão pelo vinho e a gastronomia farta são algumas das características mais marcantes da Serra. Por conta disso, atualmente a região se tornou um dos destinos mais procurado por casais do Brasil e do exterior para eternizar o amor em cerimônias dignas de cinema.
A tendência chama-se Destination Wedding e consiste em realizar a festa de casamento em um local diferente da residência dos noivos. Normalmente, em um destino turístico. A cerimônia e a festa tornam-se uma experiência turística para noivos, familiares e amigos.
Foi essa a opção do casal Bruna Plutarco e Flávio Sousa, de Fortaleza, no Ceará. Apesar de morarem em um destino turístico, com praias paradisíacas, escolheram Bento Gonçalves como cenário da cerimônia de casamento em 2023.
Os dois já conheciam a região, porque fizeram uma viagem pelo Sul em 2021, quando os cânions em Cambará do Sul serviram de cenário para o pedido de noivado.
— A gente pensava em fazer um casamento que fosse uma viagem. Queríamos fazer algo que a gente gostasse, não queríamos um casamento na praia, não temos o hábito de ir. A gente já tinha feito uma viagem pro Sul e a gente gostou muito. Na época, ficamos hospedados onde, depois, fizemos a cerimônia — relembra Flávio.
A experiência foi inesquecível e fez com que os dois escolhessem o Lote 20 Hotel Boutique, no Vale dos Vinhedos, como cenário do casamento. A opção, para além das paisagens típicas da região, com parreirais, foi pelas possibilidades turísticas para os cerca de 100 convidados que, em grande maioria, vieram da região nordeste.
— As pessoas provavelmente não iriam ficar só um dia, então dava para ter uma programação de várias atividades, vários passeios diferentes — explica Flávio.
— A maioria das pessoas só tinha ido para Gramado, mesmo que já tivesse dado uma volta por Bento, não conheciam Pinto Bandeira, os Caminhos de Pedra... — complementa Bruna.
A distância não foi um problema para a organização do casamento. Em contato com a cerimonialista que planejou o evento, os dois escolheram fornecedores, vinhos e músicos da região. Apesar do apoio de uma profissional da Serra, algumas diferenças desafiaram o casal: a música, a gastronomia e as bebidas.
— A gente quis uma coisa diferente que eu acho que é bem mais comum no RS do que aqui (em Fortaleza), que é a questão de os pratos serem servidos na mesa. Aqui, em geral, é buffet, durante a festa a comida está lá e você vai a hora que quiser, não tem o momento do jantar todo mundo junto — diz Bruna.
Outro costume nos casamentos de Fortaleza é a música ao vivo com banda. Os dois contam que notaram diferença quando buscavam músicos para a festa, mas optaram por contratar uma banda com repertório que agradasse os dois e um DJ.
— A gente ficou surpreso que o pessoal gostou do DJ. Acho que todo mundo gostou, o pessoal daqui achou diferente — relembra Flávio.
Outra diferença no planejamento foram as bebidas. Por ser uma festa no Vale dos Vinhedos, os noivos queriam oferecer aos convidados vinhos com rótulos da região. Nas festas que o casal frequenta no nordeste, a maioria dos casais opta por ilhas de drinks.
— Depois que a gente decidiu o local do casamento, fomos para Bento Gonçalves uma segunda vez para degustar as opções de vinhos. Como era um jantar harmonizado, a gente escolheu as comidas, que foi muito bom, por sinal, e depois, tentou harmonizar — relembra o casal.
"Casar no Vale dos Vinhedos proporciona uma experiência diferente"

Apesar de serem gaúchos, Daniel Teixeira e Vanessa Crusius moram em São Paulo há 15 anos. Lá, construíram laços de amizade e até parte da família também se mudou. Mas foi no Rio Grande do Sul, em meio aos parreirais da Miolo Wine Garden que quiseram eternizar o amor em uma cerimônia de casamento em 2017.
— A gente estava naquele momento que você tem todos os amigos casando. Íamos em muitas festas de casamento tanto em São Paulo, quanto em Porto Alegre, em clubes tradicionais, ou na praia. Mas para nós, não fazia sentido. Eu não me imaginava casando num clube ou na praia — relembra Vanessa.
A lembrança do Vale dos Vinhedos vinha da infância, apesar de fazer muitos anos que não visitassem o local. Em 2015, antes de escolher Bento Gonçalves como cenário do sim, os dois fizeram uma viagem de carro, saindo de São Paulo, e se hospedaram no Spa do Vinho.
— Quando nós chegamos à noite, nos deparamos com uma noiva saindo. Nos olhamos e falamos "Nossa, que diferente casar aqui, né?". Quando nós fomos fazer um happy hour no final da tarde, no deck do hotel, nós víamos um entardecer de cinema. E eu, sem nenhuma habilidade com foto, tirei algumas fotos com o celular que ficaram de revista. Então, foi aquele momento que nós nos olhamos e falamos: "Vai ser aqui" — orgulha-se a noiva.
A lista de convidados teve cerca de 120 pessoas, em sua grande maioria vindas do Sudeste ou de Porto Alegre, cidade natal dos dois.
—Ter feito o casamento no Vale dos Vinhedos foi muito especial, porque o Destination Wedding estava começando. E, de uma certa forma, era um mais viável, porque aqui em São Paulo, o povo estava na onda de todo mundo fazer o casamento no Caribe. Foi muito legal, porque o pessoal de São Paulo tinha uma visão de turismo do Rio Grande do Sul só de Gramado. A gente sempre gostou muito de vinho. Casar no Vale proporciona uma experiência diferente de só uma festa — afirma.
Entre as principais diferenças entre uma cerimônia na capital paulista para o Vale dos Vinhedos estão a gastronomia e os vinhos. Para o jantar, a noiva queria uma verdadeira imersão na cultura da Serra com direito a galeto, massa e risoto.
— Quando a gente casa nos vinhedos, a gente tem que entrar no clima da região. A comida é algo que as pessoas lembram até hoje. A gente teve uma preocupação com bebida, no sentido de tentar agradar muitos públicos. Mas optamos por não fazer ilha de drinks. Eu fiz questão que fossem vinhos da região, porque são fantásticos. Não é à toa que a gente quis fazer a festa lá, não só pelo lugar. Eu queria mostrar para as pessoas a qualidade. Tanto que também muitas pessoas passaram a consumir os vinhos espumantes gaúchos, depois que estiveram por lá — pontua.
Para isso, a noiva criou um cardápio com duas opções de vinho tinto, um rosé e um branco, além de espumante brut e moscatel. Além dos vinhos e espumantes, o casal também ofereceu whisky e energético.
Entre os fornecedores, além das bebidas e alimentação, todos foram escolhidos na região. A exceção foi o doce bem-casado, que o casal optou por comprar com uma confeitaria tradicional de São Paulo.
— Eu brinco que parece que eu tinha contratado aquele dia. Foi um dia lindo. Eu não sei como deve ser casar na Toscana, mas eu acho que não deixou nada a desejar — orgulha-se.
Mercado em crescimento

Pós-pandemia, a cerimonialista Tahís Fabbro percebeu o aumento na busca do serviço de organização e cerimonial de casamentos na Serra por casais de fora da região. Hoje, os clientes de Destination Wedding representam 90% do faturamento da profissional.
— Os serviços melhoraram. Com o passar dos anos, houve uma migração da prestação de serviço dos pais, que eram os donos das vinícolas, para os seus filhos jovens, que começaram a empreender no mercado, e viram uma oportunidade nos eventos. Deu um boom aqui nessa questão de locais para evento, restaurantes, bistrô, slow food. O pessoal começou a observar que as coisas estavam melhores, e que aqui poderia, de fato, ser um Destination Wedding — afirma Tahís.
Entre o que os casais mais procuram nas cerimônias são as características típicas da região: mesa farta, bons vinhos e cenários de tirar o fôlego em meio às videiras.
— O ar livre é uma questão muito forte. Paisagens bonitas, aquela coisa mais bucólica. Mas o que os casais querem é um casamento igual o que eles fazem lá, que a gente começa com a balada. Quando me der fome, eu vou ter lá uma ilha e vou comer. Não tem o sentar e ficar ali esperando passar todas as comidas — destaca.
Como uma premissa, Tahís só indica e trabalha com fornecedores da região, desde bebidas até a infraestrutura. Com esse novo modelo de evento e de público, ela precisou adaptar o trabalho que antes consistia em apenas organizar o evento para uma consultoria completa com indicações de hotéis, transportes executivos, maquiadores e cabelereiros, por exemplo.
— Economicamente falando, esse mercado movimenta muito. Porque, normalmente, eles vêm quinta ou sexta-feira. Na sexta-feira, tem pré-wedding, que os noivos organizam por adesão, mas vão numa vinícola, fazem um piquenique. O pessoal vem cheio da ansiedade. No sábado, o casamento. E no domingo, alguns fazem um passeio até Gramado, ou ficam mais uns dias, vão até Cambará. Então, tem outras rotas que o pessoal acaba girando — explica.




