
Quando ingressou na secretaria da Saúde de Caxias do Sul, há duas décadas, Patrícia Versa enfrentava um dos maiores desafios da época: a desnutrição infantil. Hoje, como coordenadora do Programa Saúde nas Escolas (PSE), observa uma mudança radical no cenário. A desnutrição praticamente desapareceu das estatísticas, enquanto a obesidade passou a ocupar o centro das preocupações — agora com foco em uma faixa etária diferente, composta por adolescentes de 10 a 17 anos.
— Fomos de uma ponta para a outra — resume.
O dado alarmante revelado em relatório público em maio deste ano pela revista científica Lancet, de que até 2030 um em cada quatro adolescentes no mundo será obeso ou terá sobrepeso, já reflete a realidade em Caxias do Sul. Pelo menos de acordo com dados colhidos pelo Serviço de Atenção Primária em Saúde da prefeitura.
Embora faltem dados mais abrangentes sobre o peso da população caxiense, dados encaminhados ao Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, aponta que quatro em cada 10 caxienses de 10 a 19 anos atendidos na Atenção Primária estavam acima do peso em 2024. De um total de 3.056 jovens, 20,16% foram classificados com sobrepeso e 20,13% com obesidade. 57,59% apresentavam eutrofia (nutrição ideal) e 2,12% magreza.
Para além de uma tendência crescente, os números refletem uma geração descuidada com a alimentação e com o próprio corpo.
— Desde a amamentação, cada fase do desenvolvimento tem o seu desafio. Mas quando a criança chega à adolescência e passa a ter muito mais apetite, por estar naquele estirão de crescimento, ao mesmo tempo em que perde o interesse por fazer atividades físicas e só quer comer lanches rápidos e doces, fica muito mais difícil de manter o peso e a condição de saúde adequadas — avalia Patrícia.
Entre especialistas que atendem adolescentes interessados em iniciar processo de reeducação alimentar, está claro quais são os principais vilões da balança para esta faixa etária: o consumo exagerado de ultraprocessados, facilitado pelos aplicativos de comida, e o sedentarismo, potencializado pelo excesso de tempo em frente às telas. Quando o mau hábito é corrigido a tempo, contudo, é possível prevenir uma série de doenças que seriam irreversíveis na fase adulta.

— A obesidade provoca problemas cardiovasculares, diabetes, dores nas articulações, piora a qualidade do sono, entre outros. E a gente se acostumou a ver adolescentes que trocam o dia pela noite jogando videogame, comendo cada vez mais fora do horário, e isso é um grande problema que afeta não apenas a saúde, mas que faz piorar o desempenho escolar e a performance nas atividades físicas. Quando este jovem aprende a se alimentar melhor, não só ele irá garantir um futuro com mais qualidade de vida, como também irá conseguir levar esse bom hábito para as futuras gerações da sua família — destaca a nutricionista caxiense Sacha Orlandin, especializada em nutrição comportamental.
Na cabeça do adolescente, saúde ainda é questão secundária
Para a psicóloga clínica e pesquisadora do mestrado em Psicologia da UCS Raquel Boff, é importante pontuar que adolescentes tendem a se motivar por razões diferentes das que motivam o público adulto. Por isso é necessário calibrar a abordagem quando o assunto é controlar a alimentação.
— Como profissionais de saúde, a gente se acostuma a encher as pessoas dos motivos que fazem sentido pra nós, mas que podem não fazer sentido para um jovem de 15 anos. É preciso buscar entender quais são os prejuízos que ele identifica quanto ao seu peso e quais benefícios ele enxerga que teria ao mudar. Nisso, a imagem corporal costuma ser a principal motivação, pois tem a ver com senso de pertencimento, algo muito próprio desta fase. Para o adolescente, saúde é uma questão secundária. Dificilmente ele será tocado por um alerta sobre os seus triglicerídeos. O que ele não quer é ser chamado de feio, de gordo, nem se sentir excluído. Ele quer sentir que é aceito e que pode ser desejado — aponta.
A psicóloga destaca ainda que é normal haver, quando se fala em imagem corporal, uma confusão entre o que é padrão estético e o que é padrão de saúde:
— É muito importante que o jovem, assim como qualquer pessoa, se sinta bem com a sua própria imagem e que tenha autoestima. Porém, quando falamos de peso, existe, sim, um padrão ditado pela Organização Mundial de Saúde, que vai dizer o que é uma circunferência abdominal saudável, por exemplo, livre de riscos cardiovasculares.

Sacha, por sua vez, observa que uma reeducação alimentar bem feita pode ocasionar a perda de 2,5 quilos a 3 quilos por mês. E que não se trata, neste processo, de tirar do cardápio alimentos que o jovem gosta de comer. É sobre encontrar equilíbrio. E resultados melhores serão alcançados sempre que houver suporte da família, dando ao jovem incentivo e bons exemplos:
— É essencial que a família troque a padaria pela feira algumas vezes, oferecendo uma salada no almoço ou na janta. Somado a isso, se o jovem que pede comida pelo aplicativo quatro vezes por semana conseguir baixar para uma vez só, já vai dar um resultado muito bom. Não precisa evitar alimentos que a gente tem uma ligação afetiva, como os que remetem à casa dos avós, por exemplo. Só é preciso saber que há momentos para nutrir nosso corpo com coisas que façam bem para a saúde. Muito se fala sobre o álcool e sobre o cigarro, mas a comida também é um vício que pode ser altamente prejudicial e até matar.
Sobrepeso e obesidade para a OMS*
- Sobrepeso é uma condição de depósitos excessivos de gordura. A obesidade, por sua vez, é uma doença crônica complexa, caracterizada por depósitos excessivos de gordura que podem prejudicar a saúde.
- A obesidade pode levar ao aumento do risco de diabetes tipo 2 e doenças cardíacas, além de afetar a saúde óssea e a reprodução, além de aumentar o risco de certos tipos de câncer.
- O diagnóstico de sobrepeso e obesidade é feito pela medição do peso e da altura das pessoas e pelo cálculo do índice de massa corporal (IMC): peso (kg)/altura² (m²).
- O índice de massa corporal é um marcador substituto da gordura e medidas adicionais, como a circunferência da cintura, podem auxiliar no diagnóstico da obesidade. As categorias de IMC para definir obesidade variam de acordo com a idade e o sexo.
*Fonte: OMS. Ficha técnica completa disponível no site da Organização Mundial de Saúde.
