
Dos 62 anos dedicados à fabricação e ao conserto de acordeões, só restam lembranças. Ainda bem que, prestes a completar 90 anos de vida, neste sábado (16), Valdemar Barbosa ostenta uma memória de dar inveja a muito guri.
Um dos mais reconhecidos afinadores de gaita do Estado, Barbosa se desfez em 2019 das peças, das ferramentas e da mobília da oficina que mantinha em sua residência no bairro Santa Catarina, em Caxias do Sul. Todo o acervo foi adquirido pelo músico Renato Borghetti, que precisou de três caminhonetes para transportar tudo até Barra do Ribeiro, na região metropolitana.
Nascido em Timbé do Sul-SC, Valdemar se mudou com a família para Caxias na década de 1940, aos 14 anos. Serra Gaúcha vivia o início da era dourada da fabricação de acordeões, e foi numa das fábricas que marcaram aquela época, a Universal, que arrumou seu primeiro emprego formal, em 1956. Foi um dos primeiros funcionários da empresa, com a matrícula 16.

Além da labuta diária na construção das gaitas, por 15 anos Valdemar esteve à frente do sindicato que representava os trabalhadores das fábricas de instrumentos musicais, função que o fez conhecer os pavilhões das dezenas de empresas que produziam acordeões para todo o Brasil. Pelo domínio que tinha de todas as fases da confecção do instrumento (uma única gaita chega a ter 4 mil peças), tornou-se também um mestre para aprendizes que chegavam à fábrica apenas com a vontade de aprender, mas sem o conhecimento necessário. Curioso é que o luthier sequer aprender a tocar o acordeon.
- Sei fazer só algum barulhinho, brinco um pouco, mas nunca aprendi a tocar. A afinação é eletrônica, mas mesmo assim tem de ter um bom ouvido para identificar quando o instrumento está com o brilho que vai deixar a música bonita _ recorda.

Quando a Universal encerrou a produção, em 1991, Valdemar passou a se dedicar ao conserto e à afinação de gaitas, adquirindo peças da antiga empregadora e também de outra fábrica extinta, a Scala, de Bento. À época, já era pai das duas filhas, Adriana e Viviane, que viriam a dar a ele e à sua esposa, Amélia (falecida em 2024), os netos Nathalia, Lorenzo e Nicolas.
Até se desfazer da oficina, foram mais 17 anos de dedicação à luthieria, num trabalho que na maioria dos dias adentrava a noite. Ao seu endereço chegavam acordeões de músicos de conjuntos tradicionalistas; de artistas consagrados, como João Luiz Corrêa e Adelar Bertussi; além de lotes com diversas gaitas de estudantes de música, que eram enviadas pelos seus professores para ajustes e consertos.
- Foram tantas gaitas que passaram pela minha mão, que até enjoei. Mas agora, que já passou um tempo desde que me desfiz da oficina, sinto saudade. Me arrependo de não ter ficado com nenhuma _ comenta.

Como a tesoura e a navalha, as mãos seguem afiadas
Se é verdade que foi no meio musical que fez seu nome mais conhecido, é em outro ofício, aprendido com o pai, que o nonagenário se mantém ativo. Na garagem adaptada em sua residência, o conhecido afinador cede sua vez ao barbeiro Valdemar Barbosa. Habilidoso com a tesoura e com a navalha, faz barba, cabelo e bigode de clientes que são, em sua maioria, vizinhos e amigos de velha data. O negócio resiste não somente ao tempo, como também à inflação: cabelo é R$15, barba é R$10.
_ Quando meu pai trabalhava como barbeiro eu era criança e ajudava ele no salão. Ele cortava o cabelo dos adultos, eu o das crianças Já faz mais de 60 anos que mantenho a barbearia e fiz muitos amigos, que ainda vêm aqui cortar comigo. Tem amigos que gostam de se encontrar no boteco, mas tem os que preferem se reunir na barbearia _ brinca o idoso, que com passos firmes sobe e desce, diversas vezes por dia, as escadas da garagem até seu apartamento.
No dia seguinte ao nonagésimo aniversário, neste domingo Valdemar Barbosa irá receber o carinho da família e dos amigos em uma reunião intimista no espaço gourmet do hotel Blue Tree Towers, em Caxias. Na hora de soprar as velinhas, ele garante que estará passando por sua cabeça sentimentos de alegria e gratidão:
_ Não achei que fosse viver tanto, porque meu pai morreu aos 56 anos e tenho irmão e uma irmã que faleceram antes de completar 60 anos. Mas estou chegando aos 90 com boa saúde e ainda trabalhando. Não tenho nada do que me queixar.




