
Aos 26 anos, Mikaella Amaral conquistou um reconhecimento que considera coletivo: ganhou o troféu de melhor atriz no Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra de Curtas Gaúchos, no Festival de Cinema de Gramado. A premiação do chamado “Gaúchão”, ocorreu no dia 17. A entrega dos Kikitos aos destaques nacionais, contudo, ocorre neste sábado (23) à noite no Palácio dos Festivais.
Mikaella diz que o troféu é um “reconhecimento coletivo” porque representa, para ela, o poder e a força de um sonho cultivado desde a infância, na esteira de artistas que vieram antes dela, abrindo caminho.
— Esse é um espaço que eu não ocupo sozinha, porque se eu cheguei até aqui e pude receber esse prêmio, enquanto uma mulher trans, como melhor atriz, foi porque muitas lutaram para abrir essas portas — resume Mikaella.
Nascida em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, veio morar em Caxias do Sul com 15 dias de vida e por isso, se considera caxiense. Hoje, divide o tempo entre a carreira de atriz, roteirista e costureira no próprio ateliê.
Atriz profissional, formada pela escola de atores da Tem Gente Teatrando, Mikaella quer transformar o olhar audiovisual a respeito de pessoas trans e negras, assim como ela.
— Quando se trata de pessoas trans e pretas, é sempre nesse viés de guerrilha e que sempre acaba com sofrimento. A minha vontade é contar essas histórias a partir do viés que a gente não é só isso — defende Mikaella.
Em Bom Dia, Maika!, filme produzido por jovens do curso de produção audiovisual do projeto LABmais, do Sesc Caxias do Sul, ao longo de 2024, Mikaella interpretou uma jovem que vive entre dois mundos: durante o dia, trabalha catalogando artistas em um cenário de calor extremo que limita a vida ao ar livre, enquanto, à noite, encontra refúgio na música como DJ. Uma personagem que gerou identificação desde o início pela vontade de viver de arte.
— Eu me propus a ser a atriz e eu acho que o filme me chamou muito por eu estar atuando realmente como eu gostaria. Foi meu primeiro trabalho de fato, no audiovisual como atriz, e a história da Maika é exatamente parecida com a minha, por ser DJ, artista independente, procurando um lugar, uma oportunidade de trabalhar com a minha arte — orgulha-se.
A classificação como um dos finalistas na Mostra de Curtas Gaúchos já foi uma vitória para a atriz, que conta ter ido para a premiação sem expectativas, porque sabia que o páreo era duro.
— Eu não acreditava que, de fato, a gente receberia algum prêmio. Quando a gente recebeu o primeiro de trilha sonora, todo mundo ficou muito empolgado e feliz. Quando falaram o meu nome, eu fiquei tipo extasiada. Realmente eu não sei o que passou na minha cabeça, só fiquei tipo em êxtase, eu acho que ainda tá caindo a ficha, porque era algo que eu não imaginava. Principalmente pensando que esse era o meu sonho de criança: poder atuar e ser reconhecida pela minha atuação — relembra Mikaella.
Hoje, depois de premiada, enxerga que esse reconhecimento não representa uma linha de chegada e, sim, uma porta aberta para que novas oportunidades surjam e para que possa servir de inspiração para outras pessoas artistas, negros e trans que buscam viver da arte.
— Por mais que a transfobia me atravesse todos os dias e o racismo também, por ser algo estrutural, eu tenho histórias muito fantásticas e que podem ser contadas, porque têm um final feliz. Eu acho que contar, por exemplo, a história de que eu recebi um prêmio, o quanto isso é impactante não só pra mim. Eu consigo entender como uma referência para as pessoas trans que são mais novas e que estão tentando procurar uma inspiração de que é possível chegar lá — diz, esperançosa.

