
Na transição entre a infância e a adolescência, é comum que surjam novos sentimentos ainda difíceis de nomear. A puberdade, as relações interpessoais na escola e com a família e as mudanças na aparência são marcos dessa fase tão desafiadora para as crianças e adolescentes.
Pensando nessa transição, escolas de Caxias do Sul estão transformando a sala de aula em espaço de reflexão sobre as emoções e uso consciente da tecnologia. Projetos que estimulam o autoconhecimento e a inteligência emocional têm sido aliados para enfrentar esse cenário preocupante: em cinco anos, os atendimentos por ansiedade entre jovens aumentam 955% na rede pública do Rio Grande do Sul.
Os dados são do Ministério da Saúde e apontam que, em relação à ansiedade e depressão, houve aumento de atendimentos ambulatoriais de pessoas dos 13 aos 29 anos, em hospitais públicos do Rio Grande do Sul desde 2018. Ao todo, foram 1.333 atendimentos relacionados à ansiedade em 2018, número que saltou para 14.058 em 2023.
A realidade gaúcha repete um cenário global: de acordo com um levantamento da Organização Panamericana de Saúde, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo o mundo, estima-se que de 10% a 20% dos adolescentes vivenciem problemas de saúde mental.
O uso excessivo de telas e acesso irrestrito às redes sociais podem contribuir no aumento desse número. Conforme a psicóloga e professora da UCS, Daiane Tissot, além do contexto social, o entorno e o momento histórico em que cada indivíduo está inserido são fatores determinantes no desenvolvimento.
— Estamos falando de um contexto histórico em que a tecnologia está intrinsecamente associada às rotinas. Na infância, alguns períodos são mais sensíveis no desenvolvimento. É um momento em que uma série de conexões cerebrais acontecem. No contexto de uso excessivo de telas, muitos desses processos cognitivos vão ficando mais empobrecidos. Afeta a atenção e memória, por exemplo. Quando fica muito tempo na tela, desperdiça um tempo importante para a exploração do ambiente — explica.
Outro aspecto importante a ser levado em consideração nessa fase é o sono das crianças. De acordo com Daiane, muitas delas usam os celulares ou tablets antes de dormir, prejudicando o tempo e a qualidade do descanso.
— No outro dia, acordam cansados. Isso impacta na concentração na escola e nos processos no geral. As crianças também estão mais sedentárias hoje. Então, elas acabam ficando mais restritas no seu quarto ou no sofá, deitadas ou sentadas, e acabam explorando menos a parte física, o que também influencia no desenvolvimento cognitivo — explica.
A Organização Mundial da Saúde entende que para uma criança de até dois anos, o ideal é não ter acesso a nenhum tipo de tela: televisão, computador ou celular. De dois a cinco anos, se recomenda no máximo uma hora por dia. Entre cinco anos e adolescência, o ideal seriam duas horas diárias.
— É difícil de distinguir esse excessivo, mas tem alguns parâmetros em relação a esses conteúdos também. Essa estimulação sensorial crônica vai poder levar a problemas do funcionamento normal do cérebro. As conexões vão ficando mais empobrecidas e vão impactar a saúde mental, qualidade de vida, bem-estar e produtividade — observa a professora.
Mudança no comportamento
Desde o período da pandemia, quando as telas de computador ou de celular representavam a sala de aula, a interação social e as possibilidades de diversão, a psicóloga percebeu um aumento na busca por consultas psicológicas.
— Na clínica, tem um aumento exorbitante de procura tanto de adultos quanto de crianças e adolescentes com inúmeros problemas de comportamento. As crianças, por exemplo, tendem a ter mais alterações em termos de humor, ficam mais irritadas, é difícil tirar ela de uma tela. Ficam mal-humoradas, impacientes. Às vezes, é difícil tolerar processos simples. Até de jogos, por exemplo, porque aquele hiperestímulo da tela é tão interessante que faz com que as outras coisas não sejam mais — observa.
Atividades como brincar com um amigo, jogos de tabuleiro, praticar um esporte ou até mesmo conversar pessoalmente tornam-se momentos de ansiedade para as crianças.
— Essas coisas deixam de ser estimulantes e ali a gente vai tendo prejuízos. Há um estudo que cita que em várias idades foram encontrados prejuízos e foram encontradas essa associação de telas com depressão e ansiedade. Na adolescência, a gente vê prejuízos na autoestima também, bem mais associado à rede social, já que tem a questão de comparações — afirma a professora.
Provocações para melhorar relacionamento

Na escola, espaço em que as crianças e adolescentes passam boa parte do seu dia, a proibição do uso de celulares também se tornou uma provocação para professores pensarem em reflexões para os estudantes sobre o uso consciente da tecnologia e os impactos na saúde mental.
Estudantes do 6º ano do colégio Murialdo, Anita Cordeiro e Laís Rossi, de 11 anos, foram desafiadas, durante o primeiro trimestre de 2025, a desenvolver atividades do projeto Cuido de Mim, Cuido de Você. As alunas, junto dos colegas, precisaram desenvolver pesquisas sobre temas como autoimagem, inteligência emocional e comunicação.
— Quando eu recebi o assunto inteligência emocional, eu não fazia a mínima ideia do que era. Agora eu sei e também sei me controlar melhor. Eu aprendi que inteligência emocional é muito importante, é a base pra gente poder se comunicar, interagir com as pessoas, saber controlar as suas emoções, que é uma coisa que começa a mudar bastante. Às vezes é difícil de reagir, você começa a sentir raiva, depois tristeza, e é importante saber separar os sentimentos ruins dos bons e sempre tentar sentir ao máximo os sentimentos bons — conta a estudante Laís Rossi.
Os temas foram elencados pelo corpo docente e distribuídos nos grupos de alunos. Depois, eles tiveram o desafio de apresentar os conhecimentos aos estudantes do Ensino Médio do colégio.
— O meu trabalho foi sobre comunicação, eu acho que é muito importante, porque tu pode expressar como está se sentindo, o que tu está passando, pode falar o que tu sente para alguma pessoa, e não ter que sentir medo sobre o que está passando na tua vida. Nessa idade a gente muda, nossos sentimentos mudam, a gente cresce, então é bom saber o que está acontecendo com você mesmo — afirma Anita.
De acordo com a coordenadora pedagógica Poliana Molon, o objetivo do projeto é de provocar os alunos sobre o autocuidado e, a partir desse entendimento, o cuidado com o meio ambiente, com a família e as amizades, por exemplo.
— A palavra veio por conta da necessidade de coisas que a gente observava no entorno e dentro da escola. Não só o cuidado dos bens, mas também das pessoas. É uma idade que eles estão entrando no Fundamental 2, há necessidade de olharmos para as emoções desses alunos. Quando vai se trabalhar em grupo, vem muitas emoções à flor da pele. Através da identificação dos sentimentos, o que que é a autorresponsabilidade, empatia, onde eu posso cooperar, quando eu tenho que fazer escuta ativa... Trazer esses conceitos para os alunos foi uma provocação para a gente melhorar os relacionamentos — destaca.
Autoconhecimento e regulação

Na disciplina de Projetos Especiais, os alunos do 9º ano do Colégio Madre Imilda são desafiados a refletir sobre autoestima, saúde mental e suas relações com a família e os amigos. Os estudantes são guiados pelo professor Diego Martins, com base no projeto Líder em Mim, de educação socioemocional.
— Desde o início do ano, falamos bastante sobre a mente e o corpo. Junto a isso, teve um momento em que a gente comentava da cidadania digital, de tentar entender o uso das tecnologias hoje. A gente teve a ideia de elaborar esse projeto, que é o Desconectando. Num dos encontros que a gente teve, a gente começa a entender que as meninas voltam a sua carga horária de uso do celular muito mais às redes sociais e os meninos aos jogos online — explica o professor.
Nas conversas, os alunos refletiram sobre a imagem que passam nas redes sociais, se essa personalidade faz sentido com a realidade, autoestima, comparações, autoconhecimento e autorregulação.
— Para eles refletirem sobre o quanto utilizam e quanto isso é necessário. Principalmente o uso da rede social, como eles lidam com isso? Entendem muito como um mundo sem lei. Eu trago o pensamento crítico, a criatividade, o bem-estar físico e mental e aí a gente faz as provocações e o debate. Será que existe uma dupla personalidade? Quem que eu sou na vida real? O que o tempo de tela está me tirando? — provoca.
Para a aluna Bruna Sebben, de 15 anos, as atividades têm sido um incentivo à reflexão sobre o tempo em que passa nas redes sociais, o que consome e de que forma isso afeta a autoestima.
— A gente vê que a maioria dos jovens usam muito o celular. A gente realmente não percebe porque isso se torna muito um vício. A primeira atividade que a gente fez foi quem eu sou nas redes sociais e quem sou na vida real e isso faz a gente refletir muito. Na primeira aula, uma colega falou dessa questão da comparação, a forma como tu se vê. Porque a gente sabe que na internet, a maioria das coisas não são reais — relembra a estudante.
As atividades, que começaram ainda no início do ano letivo, já têm gerado efeitos práticos, inclusive com feedbacks positivos dos próprios estudantes.
— Quando a gente traz uma atividade para eles relacionada a algo tão próximo, que é a tecnologia mas que tem um viés de saúde mental, a gente acaba se surpreendendo. Nos surpreende o próprio relato deles, as famílias conhecem um pouco mais seus filhos — aponta o professor.
Novas realidades
- Um novo termo tem sido usado para definir o vício nas tecnologias. A nomofobia (de no mobile, em tradução livre: sem celular) se refere ao medo ou ansiedade sentido pela falta do uso do celular. Os sintomas podem ser medo, irritabilidade, dificuldades na escola e nas relações.
- Desde 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a dependência digital como transtorno que desencadeia um medo irracional de estar sem o aparelhos.
- Há ainda o termo FOMO (fear of missing out, em tradução livre: medo de ficar de fora). Caracterizada por uma ansiedade relacionada ao que acontece nas redes sociais. O medo gera um vício em checar constantemente os aparelhos móveis. Os sintomas podem ser irritação, ansiedade e nervosismo.





