
Aos 18 anos, D. está prestes a concluir o ensino médio e quer trabalhar como cozinheiro, a fim de aproveitar as aulas oferecidas pelo Senac. Talvez ele não concluísse o ensino médio, e sequer sonhasse vestir algum dia o avental de chef, se não estivesse cumprindo medida socioeducativa em regime de internação no Centro de Atendimento Socioeducativo Regional de Caxias do Sul(Case).
Imigrante, D. é um dos cerca de 30 jovens com idade entre 13 e 21 anos incompletos que cumprem a decisão judicial na unidade caxiense do Case. São rapazes privados de liberdade, mas que têm neste espaço, localizado no bairro Reolon, a possível porta de saída para uma nova vida, fora da violência.
- Para a gente ter um ponto de partida na tentativa de reinserção dos adolescentes na sociedade, é preciso ofertar mais do que eles tinham na rua: respeito, dignidade e ser recebido com outro olhar. Mais do que estar cumprindo uma medida, o segredo é fazer com que eles sintam que são parte de um processo - comenta o diretor do Case, Rafael de Oliveira.

Na rotina dentro das paredes do complexo, os meninos frequentam a Escola Estadual Paulo Freire, cumprindo a mesma carga horária de qualquer outra instituição de ensino médio. Também é oferecido o mesmo acesso ao Enem, Sisu, Prouni e a cursos profissionalizantes oferecidos pelo Senai ou Senac.
No contraturno, o tempo é ocupado com atividades físicas (a equipe se orgulha de ser a única unidade no Estado a ter uma quadra de areia para a prática esportiva), manutenção de uma horta e momentos de lazer. É onde entram projetos culturais desenvolvidos por quem decide voltar o olhar para aquela juventude que esteve à beira de se perder.
- Todo o foco do nosso trabalho é na reinserção social e viemos todos os dias trabalhar porque acreditamos nisso. Por ser uma instituição que acolhe adolescentes e jovens, não pode ser um lugar parado. Precisa ser dinâmico. Por isso receber esse olhar de projetos parceiros é tão importante - destaca a pedagoga Tanisa Benati.

Uma destas iniciativas é desenvolvida pela Fluência Casa Hip-Hop, entidade sediada no bairro Santa Fé, voltada para iniciativas de inclusão pela arte urbana. Desde junho, o projeto Hip-Hop - Conhecimento e Ação, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc, leva oficinas de poesia marginal, rima, graffiti e DJ para os jovens. As atividades ocorrem a cada quinzena do mês, dois dias por semana.
A psicóloga Caroline Navarini destaca que o papel da socioeducação vai além do ensino de uma técnica ou de explorar uma habilidade. É fundamental para que eles desenvolvam novas ferramentas para se comunicar com o mundo:
- Eles aprendem a se postar como pessoas, como se expressar de maneiras que não sejam pela via do corpo apenas, se inserir no contexto cultural, pois muitos deles não têm este acesso quando estão no território onde vivem, e projetos como esse conseguem fortalecer sua sensação de pertencimento.
Além de beneficiar aos adolescentes, projetos como o da Fluência contribuem para a saúde mental dos profissionais que trabalham no local, como explica a socioeducadora Nara Mattos:

- Essas atividades contribuem para a estabilização do clima na unidade. Nos ajuda a ter um dia a dia mais tranquilo e a cumprir com todas as rotinas de uma maneira mais fácil.
Redirecionar potenciais
Numa tarde de oficinas de poesia marginal, conduzida pelo rapper Piedro Augusto Correa, sete meninos trabalhavam para escrever juntos a letra de um rap a ser gravado ao final do projeto. Estimulados a criar a partir de passagens de alguns livros expostos à mesa, misturando com reflexões sobre sua própria realidade, elaboraram versos sobre a privação e a humilhação sentida por quem vive à margem da sociedade, mas também sobre a esperança de redenção.
Em certo momento, um dos internos foi chamado para deixar a sala. Era hora de ter uma audiência com o juiz - o que pode significar, se a notícia for boa, até a permissão para cumprir o restante da medida em outro tipo de regime. Para os rapazes, mesmo a incerteza do chamado é um alento:
- Queria que fosse eu sendo chamado para audiência - comenta um deles, enquanto o colega se levantava para sair da sala.

Para Piedro, o trabalho no Case faz ver com clareza como o cenário de vulnerabilidade social, especialmente nas comunidades pobres ou dominadas pelo crime, é o que chama de “um moedor de talentos”:
- São potenciais que foram direcionados para coisas que traz risco para eles, porque não tiveram outras oportunidades . Quando acontece de, aqui dentro, se identificar um ótimo grafiteiro, ou um ótimo cozinheiro, a gente se questiona por que eles não puderam explorar esse potencial quando estavam lá fora.
Douglas Gonçalves, responsável pelas oficinas de rima no projeto, ressalta que os encontros têm sido produtivos não só por conta do estímulo que eles, enquanto oficineiros, trazem de fora, mas também pela motivação que surge na interação entre os jovens durante as atividades.
uri contribui para melhorar a rima do outro, ou quando incentiva aquele que está mais quieto a participar. Por mais que eles estejam aqui dentro, os sonhos deles estão lá fora. É estar com a namorada, estar com a mãe. E com a gente parece que eles conseguem se abrir de uma forma diferente, porque sabem que viemos de realidades parecidas - comenta.
"É fundamental que a sociedade entenda a relevância do trabalho feito no Case"

Um dos primeiros artistas caxienses a enxergar o Case como espaço para transformar vidas através de projetos culturais foi Chiquinho Divilas. Com o projeto RAPajador, que desenvolve junto do acordeonista Rafa De Boni e com o DJ Hood, desde 2022 o rapper e escritor leva aos jovens oficinas, palestras, apresentações musicais e até gravação de podcasts. Em reconhecimento pela seriedade e excelência do projeto, os caxienses já foram a Brasília receber Menção Honrosa no Prêmio Conciliar é Legal, distinção que reconhece ações relevantes para o Poder Judiciário brasileiro.
- Nós, como artistas, apenas damos sequência a um trabalho que já é feito pelos profissionais e técnicos que estão lá todos os dias. A arte e a socioeducação trabalham um lado educativo mais integrador e menos punitivo, e muitos desses jovens que, infelizmente, cometeram um ato infracional, desconheciam este outro lado. É fundamental que a sociedade compreenda a relevância do trabalho feito no Case. Todas as estatísticas evidenciam o quanto jovens que passam pelo trabalho socioeducacional não retornam ao ato infracional - avalia Chiquinho.
Para a equipe do Case, sempre que um jovem sai da unidade com uma nova perspectiva de vida, a sensação é de que o trabalho vale a pena, como exemplifica a socioeducadora Nara Mattos:
- Já tivemos um menino que saiu daqui e ingressou em uma das melhores escolas de gastronomia da cidade. Alguns conseguiram entrar para uma faculdade, também já tivemos outros que estão buscando seu espaço no rap. Muitos descobriram aqui dentro quem eles queriam ser, e para nós isso é motivo de orgulho.



