
Uma das vozes mais conhecidas e influentes do rap nacional, MV Bill esteve em Caxias do Sul nesta terça-feira para conversar com estudantes da Zona Norte. A palestra marcou o pontapé inicial, na cidade, do Centro de Referência para a Juventude - Reconstrução (CRJ), projeto do governo do Estado operacionalizado pela Central Única das Favelas (Cufa), entidade da qual o rapper e ativista social foi um dos fundadores, em 1999.
Ao longo desta semana, MV Bill irá passar por outras cidades gaúchas contempladas com o projeto, que visa fortalecer vínculos em comunidades marcadas pela vulnerabilidade social _ e onde esse quadro foi agravado após a enchente de 2024.
A seguir, confira entrevista que o rapper concedeu ao Pioneiro na manhã de ontem, na sede do Grupo RBS em Caxias do Sul:
Pode traçar um paralelo da realidade que levou à criação da Central Única das Favelas (Cufa), no final dos anos 1990, com a realidade atual?
O que nos motivou a criar a Central foi que a gente sentia muita falta do básico. O básico do básico, mesmo. E foi o Celso (Athayde, parceiro na idealização da Cufa) quem me fez a provocação, que eu fazia letras maneiras sobre problemas reais, mas que sem uma ação prática aquilo não era nada mais do que teoria. A ajuda governamental que a gente cobrava não ia chegar nunca se a gente não desse o primeiro passo. A Cufa foi esse passo.
Faz 16 anos que saí da Central, mas vejo que muitas demandas continuam parecidas. Ainda é preciso lutar pelo básico em muitos lugares. Não dá para negar que houve avanços. Andando por favelas, vilas e quebradas, percebo a diferença nítida: onde não tem projeto social, a criminalidade, a evasão escolar e a drogadição são muito maiores. Onde há este trabalho sendo feito, o leque de possibilidades se abre. Ainda vai ter jovens que podem estar no crime, mas também tem aqueles que estão fazendo cursos, que estão na escola, porque querem outro futuro para si.

Qual a importância de um projeto como o Centro de Referência para a Juventude, que te trouxe ao RS nesta semana?
Vejo muita potência porque não é somente algo que o governo está chegando lá e montando como bem quer. Houve uma consulta prévia sobre quais os lugares que mais demandam essa intervenção, além de uma outra consulta para saber o que os jovens daquele lugar querem. Com a experiência a gente aprendeu que não dá para chegar com a receita do bolo pronta. Cada lugar tem a sua especificidade que precisa ser respeitada, e isso é fundamental. O jovem passa a ter outro cuidado quando sabe que é gente que nem ele que está tomando conta daquele patrimônio.
Infelizmente, nossa realidade política é não dar continuidade a algo bom que foi feito por um outro político que estava naquela pasta antes. Exemplo disso são os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), modelo de escola criado no RJ na época do governo de Leonel Brizola, que era tudo o que a gente sonhava. A criança ia de manhã e só saía à noite, tinha piscina para praticar natação e melhorar os problemas respiratórios da criançada que morava em casas muito úmidas, tinha bibliotecas de vidros vazados para as pessoas virem o que acontecia lá dentro. Tudo foi muito bem pensado. Só que, infelizmente, foi tudo sucateado e deixaram morrer.
Eu vou torcer muito para que este projeto sirva de inspiração para todos os outros 26 estados do Brasil.
A ajuda governamental que a gente cobrava não ia chegar nunca se a gente não desse o primeiro passo. A Cufa foi esse passo.
Projetos como esse chegam muito alinhados à cultura do hip hop, oferecendo oportunidades. Está mais fácil hoje para se projetar pelo rap do que era nos anos 1980, quando você começou? As letras ainda carregam a mesma potência?
Hoje está muito mais fácil, porque a internet entrega todas as ferramentas para gravar a música, para gravar o videoclipe e para distribuir. Mas tudo isso também deu uma banalizada, porque antes tinha todo um trabalho para percorrer até chegar onde se queria. A gente tinha que vender nossas fitas, os nossos CDs, de mão em mão. E agora há também uma banalização dos assuntos. O trabalho que era feito lá atrás também era difícil porque a gente falava de assuntos impopulares, indigestos…o rap tocava o dedo na ferida. Hoje se perdeu um pouco desse propósito da música tratada como ideologia. Muitos jovens que estão fazendo rap ou qualquer vertente de rap não querem entender a origem, a importância e como nasceu o hip hop, muito menos querem entender quem são os antepassados, os ancestrais que trouxeram essa cultura até aqui. Tem uma outra galera, no entanto, não tão numerosa, que presta atenção nisso. Vejo pais que passam o rap original como ensinamento para os seus filhos, além de professores que utilizam essa cultura dentro do projeto de educar seus alunos.

Você sempre alertou sobre a pouca representatividade negra na mídia. Houve alguma mudança neste sentido nos últimos anos?
Avançou um pouquinho, mas ainda tem uma coisa muito nossa, das pessoas da periferia, de não querer reconhecer o outro. E não é mais só pela mídia, pela televisão. Mas no dia a dia. Nos damos muito like, muito ouvido para aquilo que está distante de nós, enquanto o cara que está aqui na comunidade, do nosso lado, está fazendo algo muito maneiro, só que é ignorado porque não está no hype, não tem tanta visibilidade. A comunidade precisa olhar mais para si mesma. O autofortalecimento é muito importante.
Ainda tem uma coisa muito nossa, das pessoas da periferia, de não querer reconhecer o outro. O autofortalecimento é muito importante
Aos 51 anos, seu álbum mais recente, Visão do Morador (2024), reflete um novo momento na sua vida e carreira?
Sempre fui conhecido por trabalhos como Soldado do Morro, De Homem Pra Homem, Marquinhos Cabeção, O Soldado Que Fica, que são músicas narradas pela perspectiva do marginal, do criminoso que já está cometendo o delito. Porque essa ótica do marginalizado era o meio em que eu estava, era como eu me sentia ali muito próximo de quem era o bandido. Com o passar do tempo virei outra pessoa, mais consciente. Hoje, quando chego na Cidade de Deus, eu preciso passar com meu carro pela barricada, como todo mundo faz, passo pelos bandidos e tem muitos que não me conhecem, porque são os netos da minha geração, nem sabem quem eu sou e olham para mim como olham para qualquer pessoa mais velha da comunidade. Isso me aproximou da visão da pessoa que não tem a quem reclamar, que tem que escutar muita coisa e ficar quieto…isso me fez querer falar sobre os mesmos assuntos que eu já falava, continuar fazendo músicas de levante, mas com esse novo olhar.



