
O cenário musical na Serra há muito tempo escapa do óbvio. Bandas da última década, como Catavento, Cuscobayo, Não Alimente os Animais e Yangos, furaram a bolha e alimentaram uma cena vibrante que colocou a região no mapa. Agora, uma nova geração desponta disposta a se destacar, seja pela verve criativa do indie pop ou pelo resgate de heranças culturais pouco presentes nas playlists, como a cúmbia.
Ao mesmo tempo em que são bandas e artistas com sonoridades diversas, fato é que o desafio maior é semelhante: como e onde emplacar a música autoral alternativa? Por estarem apostando em soluções criativas para contornar barreiras e conquistar espaço, a chance é grande de que, cedo ou tarde, tu os escute tocando num bar ou num festival da região.
A seguir, confira cinco nomes que estão se movimentando para trazer diversidade estética e sonora para a cena regional.
Ritmo que veio esquentar a Serra

Originária da Colômbia, a cúmbia atraiu a atenção de um grupo de caxienses interessados em trazer mais cores e mais tempero à cena musical local, à mesma medida em que também a cidade ganha cada vez mais sotaques latinos, como destino de imigrantes. Nasceu assim, no final do ano passado, a Brás Cúmbias.
Idealizada pela acordeonista Júlia Costella, a banda nasceu como um filho do projeto Bailinho Ay Amor, da DJ Paulinha e do DJ Chico Maffei, que entrou para a banda como percussionista. Participam também Milena Schafer (percussão), Izac Zaccani (saxofone), Antônio Filho (trompete) e Roddy Bonetto (baixo).
_ A ideia foi nascendo aos poucos, conforme a gente percebia que havia a necessidade de trazer essa latinidade para Caxias. Dava pra sentir nas festas como a galera curtia. Às vezes nós, brasileiros, ficamos tão deslumbrados com a nossa música, que é maravilhosa, que deixamos de prestar atenção para a música dos nossos vizinhos _ destaca Júlia.
Talvez a prova de que a banda viria suprir uma demanda represada foi o convite, logo em seu primeiro ano, para uma circulação pelo estado à convite do Sesc, passando por São Sepé, Santa Maria e São Sebastião do Caí. De tão recente, mal deu tempo para firmar um repertório, que já conta com sucessos da chamada Era de Ouro da cúmbia, entre 1940 e 1960, como La Piragua e La Subienda (ambas do colombiano José Barros) e Carinito (do peruano Angél Aníbal Rosado).
_ A gente se debruça mais sobre a cúmbia colombiana, mas também temos essa proposta de fazer um panorama, mostrando diferentes tipos de cúmbia, como aspectos diferentes foram sendo agregados nos países por onde ela se espalhou _ comenta a acordeonista.
Após a primeira mini turnê, a acordeonista destaca que o momento é de trabalhar nas primeiras músicas autorais, em português, e de dar mais recheio ao repertório:
_ O que a gente mais quer agora é ter mais músicas no show, para fazer o público dançar por mais tempo (risos).
Para acompanhar as novidades, no Instagram a banda está no perfil @brascumbias.
Promíscuo, sem ser vulgar

Espetáculo protagonizado pelo cantor e ator garibaldense Felli Dalbosco, o Cabaré da Frankie Lee é um musical que transporta o público para a atmosfera boêmia e proibitiva dos cabarés, porém com um toque de latinidade, como uma versão tropical do parisiense Moulin Rouge.
Frankie Lee é a persona drag de Dalbosco, que neste show cênico se junta a uma banda formada por Júlia Costella, Miraci Jardim (percussão) e o Gregor Dimiter (violão), todos músicos interessados em pesquisar as raízes e as convergências culturais brasileiras e de países vizinhos.
_ Existe uma visão estética eurocentrada do que é um cabaré, de seus apetrechos, acessórios, cores e sonoridades, e a gente quis justamente fazer um cabaré brasileiro e latino, com uma outra visão do que isso poderia ser para populações que vivem na periferia do capitalismo. Neste sentido o cabaré é mais do que um antro, sendo também refúgio de povos marginalizados e que não tem pra onde ir _ define Dalbosco, que estuda Música na UCS.
No Cabaré da Frankie Lee dança-se desde chacareras até xaxados, da valsa até o frevo, do candombe ao mambo. A performance e a encenação ganham o olhar experiente da coreógrafa Nádia Medina e da atriz Aline Tanaã.
Neste sábado (9), o Cabaré da Frankie Lee será atração no Refúgio, em Caxias, às 21h. No próximo dia 17, Felli levará o projeto até o norte do Estado, dentro do 1º Festival de Música Regional de Marau, onde irá apresentar a composição Cabaré. O show também foi contemplado para a temporada da Sexta Cultural, no Zarabatana Bar e Café, ainda sem data confirmada. Para acompanhar, @adrag_frankielee no Instagram.
Mente aberta para viajar com o ska

Resumir como pai ou precursor do reggae não daria conta de definir a importância do ska, gênero surgido na Jamaica nos anos 1950. Os discos de nomes como Prince Buster e Desmond Dekker atravessaram o oceano atlântico para influenciar, entre outras coisas, o surgimento do punk rock britânico, através de bandas como The Clash e The Specials.
Em Carlos Barbosa, uma galera que fazia um som dedicado ao punk e ao hardcore passou a se aproximar do reggae e do ska quando entraram no repertório músicas da banda norte-americana dos anos 1970 Bad Brains. Percebendo que poderia dar um bom caldo, a formação convencional com baixo, guitarra e bateria ganhou o acréscimo de percussão, teclado e sopros, definindo a estética da nova banda que estava nascendo, em meados de 2022, reunindo barbosenses e vizinhos garibaldenses..
_ Toda a galera da banda é roqueira, mas a gente sabe que, principalmente aqui na Serra, tem muita banda fazendo rock 'n' roll. Então por que nem tocar algo diferente, que a gente gosta também e que vai oferecer algo novo? _ comenta o baixista, o Sassá.
O nome remete a uma piada interna dos caras, que em algum momento apelidaram o tecladista de Caçulinha, numa referência ao icônico músico que liderava a banda do programa Domingão do Faustão, da TV Globo. Surgiu assim Os Caçulinhas de Outrora, que mais tarde trocaria para o nome atual (o nome antigo acabou por ser utilizado como título do primeiro EP da banda, disponível nas plataformas digitais).
Conforme o nome da banda foi se espalhando até chegar à capital, surgiu a possibilidade de tocar no tradicional programa Radar, da TVE. No entanto, era preciso ter pelo menos três músicas autorais, algo que os barbosenses ainda não tinham à época. A participação na atração vespertina não aconteceu, mas a ocasião serviu para a banda trabalhar em composições como leão e Maria, essa com uma divertida letra em alusão à Maria Fumaça). Para conferir as novidades, além das plataformas de streaming a banda está no Instagram, com o perfil @skaculinhas.
Indie com toque místico

Foi durante as aulas no curso de licenciatura em música da UCS que Júlia Molon e Nathália Pontes ficaram amigas e viram que suas playlists convergiam em bandas como Florence + The Machine, Of Monster and Men e Kings of Leon. Do gosto em comum veio a vontade montar uma banda para tocar estas e outras referências dentro do universo indie, sem a pretensão, no começo, de apostar em composições próprias.
Ao longo de 2022 Júlia, que mora em Flores da Cunha, e Nathália, de Caxias, reuniram colegas de curso que abraçaram a ideia para dar vida a Artemis, banda cujo nome, em homenagem à deusa da vida selvagem na mitologia grega, contempla outra afinidade entre as idealizadoras, o misticismo. Entre ensaios e shows em lugares como a Cachaçaria Sarau, em Caxias do Sul, e o Cheers Pub, em Flores, a banda entrou no estúdio para gravar seu primeiro videoclipe, uma versão para Happier Than Ever, de Billie Eilish.
A virada de chave para investir no repertório autoral veio com o convite para compor uma música para a trilha sonora de um curta-metragem. Assim nasceu Sarah, single que ganhou um videoclipe, lançado com recursos da Lei Aldir Blanc.
_ É uma música que fala sobre a pessoa se sentir presa a um lugar onde ela não se sente bem, e o clipe conta essa história. Como composição, foi um primeiro passo que deu o gás necessário para a gente saber pra onde queria ir e trabalhar nas nossas composições _ comenta Júlia Molon.
A aposta em músicas próprias provocou mudanças na formação. Atualmente, somam-se a Nathália, nos vocais, e a Júlia, na bateria, Kauã Strickler (guitarra), Gui Moterle (baixo) e William Solf (teclado). Além de batalhar para rechear a agenda de shows, o quinteto ensaia para arredondar as próximas músicas que irão estar no primeiro EP digital, ainda sem data de lançamento.
_ Como banda a gente discute sobre a dificuldade para marcar shows, dentro da nossa proposta de ser uma banda indie e autoral. Em alguns shows tivemos de adaptar o repertório, como na Fenavindima, de Flores da Cunha. Outra saída tem sido convidar outras bandas para criar o próprio rolê. Mas nossa luta diária é pelo trabalho autoral e por entrar nesta cena em Caxias _ diz a baterista.
Para seguir a Artemis, as novidades estão no Instagram @artemismusicoficial e no canal de mesmo nome no YouTube.
Indie com pegada roqueira

O rock alternativo e o indie rock, gêneros que passam ao lado das grandes gravadoras e não abrem concessões em sua atitude contestadora, fisgou ainda no início da adolescência a caxiense Gabriela Schmidt, hoje com 20 anos. Fã de Pitty e da banda norte-americana Paramore, que tem à frente a vocalista Hayley Williams, a jovem foi descobrindo na música uma maneira de pôr para fora toda sua personalidade.
Na faculdade de Artes da UCS, Gabriela convidou jovens do curso de Música com referências parecidas para serem seus parceiros de palco e de composição. Surgiu assim o nome artístico, Gabs vs The Stars, inspirado em uma referência do cânone nerd, o filme Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010).
- Eu comecei a me interessar por música, entre a infância e a adolescência, tendo um interesse maior pelo pop. Até por isso minha identidade visual tem muito brilho, glitter, estrelas, algo que é menos comum no rock. Quando passei a gostar mais de rock e me encontrei neste gênero, também como uma forma de expressar os meus sentimentos através da música, misturei um pouco destes dois mundos.
O primeiro single, Do It Again, já pode ser conferido nas plataformas digitais. Até o fim do ano a cantora quer lançar pelo menos mais duas músicas, que estarão no primeiro álbum, cuja expectativa é lançar em meados de 2026. Irá misturar canções autorais em inglês e em português, repleto de influência de bandas como Arctic Monkeys e Green Day, além da cantora Avril Lavigne.
Por ser um gênero que encontra certa resistência nos bares onde as portas se abrem com mais frequência para as bandas dedicadas ao rock clássico, a jovem tem aproveitado cada brecha para apresentar seu som ao vivo. O próximo será no Espaço Coletivo, no próximo dia 22. Para acompanhá-la no Instagram, é só seguir @gabsvthestars.


