
Atividades esportivas de madrugada, drinks sem álcool, rolês que terminam no máximo a meia-noite ou fins de semana em casa. Essas podem ser algumas das mudanças mais perceptíveis no comportamento dos jovens e dos adultos nos últimos anos. O que acontece hoje, tanto em Caxias do Sul quanto em outras cidades do mundo, é reflexo da pandemia de covid-19, segundo a pesquisadora de comportamentos, estrategista de marcas e conteúdos, Débora Bregolin.
Esse evento marcante de cinco anos atrás fez com que os adolescentes desenvolvessem uma maior dificuldade em se relacionar pessoalmente. Contudo, isso não os impediu de buscar pertencimento em um grupo e de tentar recuperar o "tempo perdido".
— Quando voltamos a viver socialmente, dois anos depois (da pandemia), o jovem queria buscar um grupo. Nunca se viu tanta proliferação de grupos de corrida, aumento da galera do crossfit, de grupos de leitura. Isso porque o jovem precisa se reconectar com pessoas reais —destaca Débora.
A pandemia também influenciou outros fatores, como a readequação dos hábitos em prol de uma vida mais saudável.
— Vemos hoje em dia um comportamento social, de forma geral, que busca uma vida mais saudável e produtiva. Por isso, se você quer ter uma rotina de trabalho, ir à academia, tomar seus dois litros de água por dia, não dá para ficar até as 6h da manhã na festa. Além disso, em uma sociedade que exige produtividade o dia todo, não tem como, né? A conta não fecha. Por isso, o jovem tem buscado baladas mais cedo ou trocado por cafés e brunches — comenta a pesquisadora.

Esse comportamento mais saudável se reflete também na diminuição do consumo de bebidas alcoólicas. Conforme o relatório Covitel, com entrevistas realizadas a partir de 2019, na época pré-pandemia, 10,7% dos jovens de 18 a 25 anos afirmavam ingerir bebidas alcoólicas três vezes ou mais por semana. Em 2023, quando se encerrou esse recorte da pesquisa, esse número caiu para 8,1%. A mesma redução foi registrada na faixa etária de 25 a 34 anos, que passou de 10,5% para 6,5%.
Além disso, uma pesquisa do Datafolha realizada em 2022, em 12 capitais brasileiras, mostrou que mais da metade (54%) dos jovens e adultos entre 15 e 29 anos afirmam não frequentar boates ou frequentá-las menos de uma vez por ano.
Débora reafirmou essas questões, mas salientou que isso não significa que os empreendimentos noturnos estão fadados ao fim. Contudo, é preciso que eles se adaptem ao consumidor atual.
— Não dá para afirmar, obviamente, que as pessoas vão parar de ir a festas. Isso seria muito taxativo. Mas há dados que mostram que o ritmo diminuiu. O que acontece são adaptações, com eventos começando mais cedo e sendo mais nichados. Porém, não dá para dizer que isso vai durar para sempre. Já tivemos movimentos em que a vida noturna foi mais "tranquila" e depois voltou com força, com a cena eletrônica. No fim, temos um vai e vem de tendências — reforça.
Em Caxias do Sul, isso já vem acontecendo. Dois exemplos são o bar Reffugio e a danceteria Chardonnay, que se adaptaram às tendências e estão conseguindo atrair cada vez mais seus públicos-alvo.
Chardonnay: 40 anos de história

Um clássico da cultura caxiense, especialmente entre pessoas de 35 a 70 anos, é a danceteria Chardonnay, localizada no bairro de Lourdes. Completando 40 anos neste sábado (16), o espaço é voltado para bailes com as tradicionais "bandinhas" e foi fundado pela empresária Adilce Luchtemberg, falecida em 2019.
Atualmente, quem administra a casa são dois de seus netos, Vinícius e Paula Capeletti. Os irmãos aceitaram o desafio após a morte da avó e contam como precisaram se adaptar para enfrentar a pandemia e as mudanças no comportamento dos frequentadores.
— Tivemos que mudar muito ao longo dos anos. A única coisa que a gente perdurou, e que a gente mantém sempre, é a segurança e o respeito. Por muitos anos, havia banda na casa, então era sempre a mesma coisa e o público vinha de forma orgânica. Hoje, isso mudou bastante: precisamos trazer atrações, bandas de fora, para inovar e atrair um público diferente. Além disso, antes abríamos de quarta a domingo, agora, apenas aos sábados e domingos — salienta Paula.

Vinícius reconhece que o sucesso da casa noturna é resultado do trabalho da avó, que construiu a Chardonnay como uma marca consolidada na cidade.
— O que buscamos não é vender apenas um serviço, mas sim uma experiência. Ou seja, a pessoa vem e quando ela chega aqui, cada noite é diferente. Também, vimos que as pessoas ainda gostam muito de dançar, então, todos os sábados, uma hora antes de abrir a portaria, tem aula de dança. Com o valor que você paga a aula, já ganha o direito de curtir a festa depois. Essa foi uma forma que achamos de começar com a casa cheia. Além disso, tentamos manter a regularidade dos funcionários. Isso é importante, porque o cliente chega, conhece o cara e acaba tendo afinidade. Então, eu acho que o nosso cliente acaba vindo bastante porque ele lembra que aqui ele tem uma família, entende? — avalia Vinicius.
Clientela fiel

Uma das clientes fiéis da Chardonnay é a aposentada Marilice Ferraz, de 74 anos.
— Venho a vida toda. Eu amo a Chardonnay e não vou a nenhuma outra casa em Caxias. Aqui tem as melhores bandas, tenho uma turma de amigas e até uma mesa fixa — conta Marilice.

O espaço é tão popular que até une casais, como os aposentados Roseli Rodrigues Alves e José Leone de Abreu, ambos com 57 anos, que se conheceram há 20 anos, se casaram, tiveram uma filha e continuam frequentando a Chardonnay.
— Gostamos muito de dançar e, por isso, continuamos vindo aqui. Para nós, é o melhor lugar para a nossa idade em Caxias. É seguro, podemos deixar a bolsa na mesa que ninguém mexe, além de ser um lugar com muito respeito — diz Roseli.
Reffugio: alternativo e com muitas opções de rolê

"Era um projeto de vida, e eu precisava criar um lugar com o qual me identificasse, para ser um refúgio para as pessoas, por isso também o nome." É assim que a proprietária do bar Reffugio, Bruna Turmina, define seu empreendimento, localizado na área central de Caxias do Sul.
Com o desafio de abrir durante a pandemia, a empresária apostou em uma proposta mais alternativa: um espaço que com karaokê e shows de bandas locais em um ambiente colorido, artístico e aesthetic (que rende muitas fotos conceituais), e que tem drinks e petiscos no cardápio.
Segundo Bruna, após enfrentar alguns problemas com a fiscalização por promover festas (já que o alvará permite funcionamento como bar), atualmente ela considera o Reffugio um "pré-rolê" para os jovens, mas também um local para o público 30+, que às vezes quer apenas tomar um drink e ir para casa.
— Então, tu faz um aquece aqui e, depois das 2h, se quiser ir para uma casa noturna, já vai estar meio embalado. Ou, para a galera mais velha, que curte um rolê cedo, tomar uns drinks, comer alguma coisa e ir embora cedo — destaca Bruna.
A proprietária diz ainda que percebeu a mudança no comportamento do público, principalmente em relação a redução do consumo de álcool.
— Tem muita galera mais nova, com menos de 30 anos, que faz exatamente isso: vem com um grupo de amigos, bebe álcool, mas pouco, e vai para casa. A gente até aumentou a cartela de drinks sem álcool porque vimos que era o que as pessoas estavam consumindo. Eu penso: "Nossa, na idade delas eu estava ali nos trilhos", então mudou muito o comportamento. Fumam pouco também. Bom, acho legal, tem umas coisas em que eles são exemplo — recorda.
Por outro lado, Bruna também sentiu essas mudanças de forma financeira. Para lidar com isso, passou a utilizar uma ferramenta que está em alta: vídeos no TikTok mostrando um pouco da rotina no Reffugio. Nesse espaço, ela passou a ouvir a opinião do público, pensar em novas estratégias e, assim, conquistar novos clientes.
— Quando vi que o caixa estava ruim, começou a bater uma angústia. Então, um dia, abri a câmera do celular e comecei a gravar vídeos falando sobre o Reffugio. No primeiro, eu estava num dia péssimo, mas as pessoas começaram a dar opiniões sobre o que eu poderia melhorar. Lancei drinks mais baratos, refeições nas segundas e terças, noites com karaokê, e o pessoal começou a vir conhecer o bar. Teve até o caso de uma menina que trouxe o pai e a mãe para almoçar. Achei legal, sinto que o pessoal se identificou com o conteúdo — conta Bruna.
Bate-papo e boa música

Para a médica Giane Greiner, 28, o Reffugio tornou-se um lugar para colocar o papo em dia com as amigas, ao mesmo tempo em que aproveita os drinks da casa.
— Venho quase sempre aqui. Acho um lugar muito aconchegante, com muita arte, toca as músicas que eu gosto, como rock e indie, e é um dos únicos lugares alternativos em Caxias, então a gente se sente muito à vontade aqui —disse Giane.
Lojas de conveniências e venda de bebidas na rua

Além dos bares e casas noturnas, as conveniências têm se tornado um negócio promissor na noite caxiense. Esse perfil revela também uma questão financeira, avalia a pesquisadora de comportamentos, estrategista de marcas e conteúdos, Débora Bregolin.
— Quando falamos de um estilo de vida mais saudável, também estamos falando de uma classe que tem mais dinheiro, que pode escolher esse estilo. Mas há uma galera que não consegue, que está no corre o dia inteiro e, no fim de semana, só quer sair de casa, ficar ao ar livre, tomar uma bebida barata e se divertir. E aí surgem as conveniências, onde a pessoa pode ficar na rua com os amigos, em um espaço seguro, porque tem a loja, entrar e sair a hora que quiser e, ainda assim, gastar pouco. Isso transforma o local em um espaço de encontro e conexão — explica Débora.

A moda dos copões de 700ml
O sucesso das lojas de conveniência vão na contramão dos relatos sobre a redução do consumo de álcool. A mistura de gelo de coco, leite condensado e destilados, intitulada como "copões" de 700 ml, virou a nova onda entre os jovens de Caxias, principalmente pelo preço acessível.
Vendido pelo paulista Edi Santana, o negócio é feito em parceria com as lojas Station Pub e Uzi Smash Burguer, na Rua Coronel Flores, no bairro São Pelegrino, ponto de encontro da galera.
— Me mudei para Caxias em 2021 e, depois de um tempo, comecei a vender doces no Centro. Em dois meses, decidi ir para os locais que tinha a galera da minha idade, onde tem muita balada. No começo, pensei em seguir nos doces, mas bateu em mim um estalo de que isso daqui é cultura na minha cidade, e falei: "Bom, nenhuma casa noturna tem os copões, vou começar a fazer, com sabor e tal". E aí eu montei uma geladeira e fiz o movimento acontecer. A galera comprou a ideia e eu fico muito feliz com isso — conta Santana.
Ponto de encontro

Em meio a fumaça dos cigarros e filas para entrarem em casas noturnas na Rua Coronel Flores, é possível encontrar uma galera nas calçadas, principalmente com os "copões" na mão. Mesmo com as baixas temperaturas, as estudantes Lucia Matt e Anna Luiza Deon, ambas de 18 anos, não deixam de curtir a noite caxiense no local.
— Quase todas as sextas estou aqui para comprar o copão, gosto muito porque é barato. Tu vai no restaurante e paga uns R$ 45 em uma bebida. Aqui tu paga R$ 20 em um copão. Vale muito a pena — contou Lucia.
E afinal, a noite caxiense está morrendo?

Para o público entrevistado, a opinião é divergente. No caso do estudante Pedro Luiz Ademes, 20, há muitas opções de lazer em Caxias, mas são mais nichadas.
— É legal a noite, mas eu acho que falta opção. Os rolês estão muito separados, acaba que nenhum lugar realmente enche. Não sei se o pessoal não tá mais saindo de casa também, mudou a vibe.

Mas, para o técnico de laboratório, Arthur Erthal Pitton, 20, o aumento de possibilidades fez com que o pessoal deixasse de sair tanto quanto antigamente.
— Eu sinto falta de uma parada de quando estava no Ensino Médio, que tinha, sei lá, dois rolês no mês e tava todo mundo naqueles dois rolês. Daí não tinha como ser ruim, tá ligado? Agora, parece que não tem opção, porque tem muita opção. E aí os grupos se dispersam muito.

Para a arquiteta Isabela de Conto, 27, só há duas opções na noite: balada ou jantar.
— Eu acho que Caxias peca um pouco na questão do turismo e do lazer. Caxias é muito focada no trabalho. Existem bares, mas são bares muito repetitivos. Ou é um bar de drink ou é um restaurante/lanchonete. Nunca tem um meio termo, onde você pode ir num happy hour e conseguir ficar até de noite para ter uma festa. Ou você sai para comer ou você sai para balada.




