
Domingo (13) é Dia Mundial do Rock, celebração a um dos gêneros que transformaram a música, a cultura pop e, por que não, o mundo. A cada ano, a data também é cercada pela provocativa pergunta — às vezes invocada como afirmação: "O rock morreu?".
Entre tantas possibilidades de resposta, o Pioneiro mostra que, na Serra, o rock'n'roll não embala apenas os eventos deste fim de semana, ele tem sustentado a cena de bandas, bares e casas noturnas locais, e pulsado na veia das novas gerações.
Se em muitas histórias a paixão pelo rock foi transmitida como herança por aqueles que viveram o auge do estilo, na segunda metade do século 20, a estudante Letícia Pryslak, 15 anos, de Flores da Cunha, representando a nova geração, é a ovelha negra da família — como diria o ícone Rita Lee.
É que, em meio a pais que escutam sertanejo e música gaúcha, a menina se viu, em 2020, no confinamento da pandemia da covid-19, hipnotizada pelo universo que acabara de descobrir por iniciativa própria.
— Comecei a escutar indie, tipo Mother Mother e, aos poucos, fui caindo em AC/DC, Black Sabbath, Metallica. Peguei gosto, achei o som legal — relembra Letícia.

Mais do que isso, se abria uma porta para um desejo que ela nem sabia que tinha: empunhar uma guitarra e plugá-la a um amplificador, incorporando os músicos de rock que ela estava conhecendo. Por isso, um antigo violão, presenteado pelo padrinho, ganhou sentido após anos inativo em um dos cômodos da casa:
— Lembro que a primeira música que tirei, vendo vídeo no YouTube, foi Come As You Are, do Nirvana. Ganhei, então, minha primeira guitarra e entrei para tocar rock de fato.
Com uma Stratocaster em mãos, que Letícia ganhou dos pais, passou a estudar pela internet, empenhada a passar, pelo menos, cinco horas diárias tocando. Também somou conhecimento em aulas na Master Escola de Música, em Flores, e na Overdrive Guitar School, em Caxias.
Os professores e músicos Jonatas Costa e Henri Franzoi ajudaram a lapidar o talento da Letícia, que toca hard rock — uma das tantas vertentes do rock —e blues, gênero que pode ser visto como um dos pais do rock.
— O que mais vejo influência no que eu toco é o Stevie Ray Vaughan — diz ela, sem pensar duas vezes, citando o virtuose guitarrista de blues texano, morto prematuramente, aos 35 anos, em 27 de agosto de 1990.
A jovem transformou o que seria um escritório, na casa dos pais, em um estúdio para praticar, gravar e ensaiar com as bandas que integra, a Burning Wild e As Lunáticas — reproduzem clássicos do gênero. Logo, mirou o som encorpado da guitarra Les Paul — popularizada por caras como Jimmy Page e Slash — e a utiliza em combate atualmente.
Com rotina que inclui frequentar bares consagrados da região e encontros de carros antigos e relíquias, Letícia vem ganhando espaço na cena roqueira local e chamando a atenção de figurões, como os Blackbirds.
Recentemente, Jus Nino, Julio Sasquatt, Diogo Farina e Cassiano Farina dividiram os palcos do Memphis Juke Joint e do Vier Pub Beer House, de São Marcos, com a garota. Desse supergrupo, ecoaram trilhas icônicas, como Man In The Box, de Alice In Chains, e autorais da banda, tipo Por Um Triz.
— É uma honra, fico muito feliz. Outra vez toquei com a banda Só Creedence, no bar Sgt. Peppers (em Porto Alegre). É trocar experiências, receber dicas, recomendação de artista. Eu apareço para um outro público, em bares e casas, e eles conseguem também o olhar de gente mais nova — salienta Letícia.
Nas redes sociais, a guitarrista divide esses momentos e compartilha o trabalho para estabelecer pontes com colegas da música e com o público. Ainda que tenha apresentações marcadas para os próximos meses, Letícia quer mais: lançar em breve músicas autorais com sua banda Burning Wild.
— O rock é um movimento muito forte e grande. Talvez ele não esteja mais no mainstream, aparecendo tanto quanto antes, mas ele existe e vai continuar vivo — garante a jovem guitarrista.

Novos talentos a caminho
A formação de talentos na música, como Letícia, é destaque na Serra. Somente em Caxias, maior cidade da região, há 79 estabelecimentos ativos entre escolas de música, cursos independentes de ensino de instrumentos musicais ou canto e instrutores de música com aulas particulares, segundo a Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico.
A Artstage Music Center, no bairro Panazzolo, dá aulas para cerca de 300 alunos, sendo 230 crianças e adolescentes de até 17 anos, empregando quase 30 professores. Vocal, guitarra, piano, violão e bateria respondem pela grande maioria das matrículas.

Rafael Triches, 50, sócio-proprietário do negócio ao lado do guitarrista Sasha Z, constata: 95% dos alunos buscam o local para tocar e vibrar na pegada do rock.
— A música é uma linguagem e, no nosso caso, o rock prevaleceu.
A gurizada tem a oportunidade de ensaiar em grupo, formar banda e subir ao palco. Desde a fundação, em 2021, a Artstage organiza no fim de cada ano um festival para pôr em prática os músicos em formação.
A próxima edição ocorre em três noites: 2, 3 e 4 de dezembro, no Teatro Pedro Parenti (Casa da Cultura). Ao todo, serão tocadas 60 músicas pelas bandas formadas dentro da escola, envolvendo mais de 200 crianças e adolescentes. Em agosto, começam os ensaios.
— Como escola, estamos abertos a qualquer estilo musical. Mas por algum motivo virou uma escola de rock. Na apresentação de final de ano, das 60 músicas, 57 são rock'n'roll. Estamos falando de Queen, Rolling Stones, Aerosmith, AC/DC, Black Sabbath, Pink Floyd, Deep Purple, Led Zeppelin — conta Triches.
Uma das bandas que ganhou forma na Artstage é a Cabras da Peste, integrada por adolescentes de 13 a 15 anos. Atualmente, 12 grupos ensaiam semanalmente na casa, com instruções de professores.
Triches também cita o Little Star, projeto voltado a crianças de até oito anos que oferece experiências com cordas, teclas, percussão e vocal. O aluno é direcionado, em um segundo momento, ao eixo em que demonstrar mais aptidão e interesse.

"Tem muito espaço e público para o rock"
A Jack Band é um grupo que trilha os palcos da Serra há 10 anos, e se mantém firme na estrada da música. O guitarrista Mauro Caldart situa a banda como pop rock. Os caras tocam sons consagrados em uma versatilidade de épocas: de Queen, Depeche Mode e Bon Jovi a Blink-182, The Killers, Kings Of Leon e até versões de Lady Gaga.
A Jack emplaca, pelo menos, um show por semana, sendo que neste mês do rock são sete apresentações já marcadas. Um dos bares que mais servem ao gênero, na opinião de Caldart, é a Bier Haus. O Joe, em Garibaldi, também é um ponto de agito contínuo
Além das tradicionais casas, os eventos corporativos, formaturas, casamentos e, especialmente, festivais de cervejarias estão aquecendo o cenário das bandas locais.
— A Jack Band tem várias versões: a normal, plugada, com guitarra, baixo e bateria; a acústica, com kit reduzido de bateria; a trio, com violão, voz e bateria; e a duo, com voz e violão. Isso abre muitas possibilidades de shows — afirma o guitarrista.
Aliado à parceria com Sandro Debortoli (vocal), Rodrigo Restelatto (baixo) e Lucas Ceconi (bateria), Caldart é professor de guitarra e violão na Artstage, atua com produção musical e mixagem, e toca em projetos paralelos.
Todos os domingos, ele toca no Hard Rock Café, em Gramado:
— Faço uma média de 15 shows por mês, às vezes mais. Todos os meus projetos são vertentes do rock, então tem muito espaço e público para isso. Não dá para dizer que o rock está morto. Está bem longe disso, na verdade.
Onde tem agito na Serra
- Onde: Villa Basilico Gastronomia e Eventos (Rua Olavo Bilac, 503 - Sala 7, em Caxias).
- Quando: Domingo (13), a partir das 17h.
- Atrações: bandas Cabras da Peste, Blackbirds, Desire (Tributo a Black Sabbath) e Jack Band. Sets com o DJ Jaime Rocha.
- Quanto: R$ 30 (+taxas) neste site ou na Hamburgueria Jaime Rocha.
- Onde: São Patrício Bar (Rua Tronca, 2.803 - Caxias).
- Quando: sábado (12), a partir das 20h.
- Atrações: Magnata Joe e Peter 27.
- Quanto: gratuito.
- Onde: União das Associações de Bairros (UAB) de Caxias do Sul (Av. Independência, 2.542).
- Quando e que horas: domingo (13), a partir das 15h.
- Atrações: Devil Dogs, Puro Malte, Tissão e Uzguri e Código 4. Nos intervalos, DJ Josué Rainert.
- Quanto: R$ 20 (+ um quilo de alimento), à venda com as bandas ou no São Patrício. Na hora, R$ 30 (+ um quilo de alimento).
- Onde: Rua Coberta, em Bento Gonçalves.
- Quando: domingo (13), a partir das 14h.
- Atrações: Ale Crestani & Pri Bortolosso, From Beyond, Conci's Unconscious Daydream, Monkey Bizness (Tributo a Arctic Monkeys); guitarrista Evandro Demari e banda Elétrika Tribo.
- Quanto: gratuito.
- Onde: All Need Master Hall (Rua Castelnovo, 13.351, em Caxias).
- Quando: sábado (12), a partir das 22h. Show começa às 1h.
- Atrações: Cachorro Grande. Abertura com banda Jogo Sujo
- Quanto: ingressos à venda pelo site Minha Entrada, a partir de R$ 75 (+taxas).
- Onde: Hop House Pub (Rua Garibaldi, 1094 - Caxias).
- Quando e que horas: sábado (12)
- Atrações: shows com o paulista Sérgio Duarte e bandas Hard Blues Trio, Izzi Louise e Bordogos S.A.
- Quanto: R$ 25, à venda neste link. Na hora, R$ 35.
Torque & Brasa
- Onde: Bodega Del Toro (Rua Olavo Bilac, 363 - Caxias).
- Quando: domingo (13), a partir das 11h.
- Atrações: show com a banda Hyperdive.
- Quanto: gratuito.



