
A palavra "paliar" significa proteger. Ela tem raízes no latim pallium, que designava a capa usada pelos cavaleiros como abrigo contra as tempestades em suas jornadas. Assim como esse manto oferecia proteção, o cuidado paliativo se dedica a suavizar o sofrimento humano — seja ele físico, emocional, social ou espiritual. Apesar de ainda ser visto com receio por muitas pessoas, o cuidado paliativo é considerado um gesto profundo de acolhimento.
Coordenadora do Núcleo de Cuidados Humanizados do Complexo Hospitalar Unimed Serra Gaúcha, em Caxias do Sul, Mariana Leão Goettems, oncologista, especialista em cuidados paliativos, destaca que o trabalho é voltado a pacientes com doenças graves, ameaçadoras da vida, associadas a sofrimento tanto para o paciente quanto para a família. Segundo ela, o objetivo principal dos cuidados paliativos é amenizar esses sofrimentos.
— Ainda existe muita desinformação nessa área, pois as pessoas associam os cuidados paliativos exclusivamente ao fim da vida. E a gente tenta trazer essa desmistificação do assunto, porque, na verdade, o cuidado paliativo é muito mais do que isso. Nós podemos iniciar esse acompanhamento a qualquer momento do adoecimento desses pacientes. Quanto mais precoce, melhor — defende Mariana.
Formado por profissionais de diferentes áreas, o grupo de paliativistas conta com a atuação de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, farmacêutico, psicólogo e assistentes sociais. Como preconiza a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), o time de cuidados paliativos entende que uma doença grave atinge não só o paciente, mas também aqueles que o amam. Por esse motivo, seu papel é cuidar de todos. Daí a importância de ser uma equipe multidisciplinar.

— Um médico sozinho não vai conseguir envolver toda a dinâmica desse sofrimento que está envolvido. Então, é fundamental termos mais pessoas com formação na área, para que possamos oferecer esse cuidado de forma adequada, pois entendemos que esse sofrimento é multidimensional. E nós tentamos mostrar aos pacientes que temos muito a oferecer. Em algumas situações, tratamentos que vão melhorar a doença. Em outras, vamos conseguir aliviar a dor dele — sintetiza Mariana.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, a cada ano, cerca de 56,8 milhões de pessoas, incluindo 25,7 milhões no último ano de vida, necessitam de cuidados paliativos. Ainda segundo a OMS, apenas cerca de 14% das pessoas no mundo que precisam de cuidados paliativos, os recebem atualmente.
Olhar ampliado para além das doenças
Formada em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas, Mariana fez residência de oncologia na Santa Casa de Porto Alegre. Até aquele momento, nunca havia tido contato com a terapia paliativa, mas percebia que havia uma lacuna no cuidado aos pacientes oncológicos, cujos tratamentos eram pensados apenas em questões associadas à quimioterapia.
— Muitas vezes é preciso acolher, conversar e entender quais são as reais necessidades dos pacientes. Sempre senti essa necessidade de olhar além do tratamento oncológico e, ao longo do tempo, fui me interessando, me aprofundando e estudando mais sobre esse tema para, objetivamente, cuidar de forma mais completa dos pacientes, ampliando o olhar para além das doenças — avalia a médica.
Para Mariana, ainda que seja um desafio, os cuidados paliativos carregam grande importância no contexto da saúde do paciente.
— Tem momentos que são extremamente difíceis de lidarmos, mas é extremamente recompensador também quando a gente chega no quarto do paciente e ele começa a não ter mais dor e consegue interagir com os seus familiares. Em muitas situações, não conseguimos a cura, mas conseguimos essas vitórias. Se eu pudesse resumir numa frase o que são os cuidados paliativos seria isso: amenizar o sofrimento e cuidar de forma mais completa do paciente.

“A vida e a morte andam lado a lado”, diz psicóloga
Mais do que um protocolo médico, os cuidados paliativos são um compromisso com a dignidade, o acolhimento e o alívio do sofrimento. A atuação integrada de profissionais revela como esse tipo de cuidado transforma a experiência de pacientes e familiares diante da finitude.
Foi após a perda de uma grande amiga que a psicóloga Franciele Reis começou a pensar que podia fazer algo de diferente na sua atuação profissional. Com o passar do tempo, ela entendeu que era preciso olhar mais para as pessoas, e não somente para a doença.
— O grande desafio do psicólogo é ensinar a olhar para as pessoas com a sua história, com o seu legado, com a sua importância, com as suas necessidades, e, a partir disso, poder fazer a diferença — reflete.
Integrante da equipe paliativista da Unimed, Franciele lembra que o processo de adoecimento grave traz à tona muitas emoções. Segundo ela, muitas vezes, o papel do psicólogo é ajudar a dar sentido a esse momento.
— Nós buscamos dar qualidade aos dias das pessoas a partir do momento que a gente entende que a vida e a morte andam lado a lado. É entender que, para morrer, não precisa necessariamente sofrer. E nós levamos esse acolhimento e mostramos isso de uma forma muito tranquila e sem romantizar a morte — afirma.

"Garantir o conforto e a dignidade do paciente", diz enfermeiro
O enfermeiro Fernando Moraes acompanha de perto o dia a dia desses pacientes. Segundo ele, o papel da enfermagem vai além da técnica. O ato de ouvir é uma das principais ferramentas no cuidado. Ele explica que o enfermeiro, nessa área, atua na gestão dos sintomas físicos, mas também é um elo entre o paciente, a equipe médica e a família.
— A equipe de enfermagem precisa ter conhecimento para auxiliar os médicos nas intervenções e garantir o conforto, a dignidade do paciente no sentido de manter ele íntegro. Além de fazer esse controle da dor, é estar próximo do paciente de forma contínua — diz Moraes.
Para ambos os profissionais, mesmo quando não há mais nada a ser feito do ponto de vista curativo, há sempre algo a ser feito do ponto de vista do cuidado. Torna-se um exercício constante de humanidade.

Encontro sobre cuidados paliativos em Caxias do Sul, neste final de semana
Autora do best-seller A morte é um dia que vale a pena viver, Ana Claudia Quintana Arantes palestrará em Caxias do Sul neste sábado (26). O encontro promete reflexões sobre amor, vida e cuidado. A programação ocorre no Samuara Hotel, a partir das 8h.
Além de Ana Claudia, o evento contará com a presença de outros palestrantes que são referência em suas áreas: o cardiologista, escritor e diretor médico da Santa Casa de Porto Alegre, Fernando Lucchese, a pesquisadora do Cecan RS, mestre pela Universidade de Ottawa e cancerologista Patricia Moretto, e a psicóloga especialista em luto e fundadora do Instituto Luspe Ana Paula Reis.
Cronograma do evento
- 8h45min: Abertura do evento.
- 9h: Palestra com a Dra. Ana Paula Reis com o tema Reflorestar o coração: O cuidado como sobrevivência da espécie.
- 9h20: Palestra com a Dra. Patricia Moretto com o tema Jornada do paciente oncológico.
- 9h50: Palestra com o Dr. Fernando Lucchese com o tema Espiritualidade como Adjuvante no Tratamento de Doenças.
- 11h: Palestra com a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes com o tema A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver.
- 12h30: Encerramento.
Agende-se
- O quê: Encontro “A morte é um dia que vale a pena viver e um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida”.
- Quando: Sábado (26), a partir das 8h.
- Onde: Samuara Hotel (Av. Frederico Segala, s/n - Samuara - Caxias do Sul).
- Quanto: ingressos à venda pelo site Eleven Tickets, a R$ 300(+taxas).



