
As cidades de Bento Gonçalves e Caxias do Sul recebem, nesta semana, a peça O Nome do Bebê, da dupla francesa Matthieu Delaporte e Alexandre de la Patellière. A comédia, que reflete a relação de Vicente e Anna, se passa no anúncio do nome escolhido para o primeiro filho do casal, em um jantar, que reúne a irmã dele, o cunhado e um amigo de infância.
Na cena, o pai de primeira viagem faz uma brincadeira infeliz e diz que o bebê se chamará Adolfo; nome que tem referência direta a um dos maiores ditadores da História: Adolf Hitler.
Montada em vários países e adaptada para o cinema em 2012, a versão brasileira tem o elenco formado por Bianca Bin, como Elizabete; Cesar Baccan, como Pierre; Eduardo Pelizzari, como Vicente; Lilian Regina, como Anna e Marcelo Ullmann, como Claude. A direção é de Elias Andreato e o texto foi traduzido pela atriz Clara Carvalho, que buscou aproximá-lo ainda mais da realidade brasileira, valorizando ironias e sarcasmos.
Vivendo como Claude, Marcelo Ullmann também é produtor e idealizador da versão brasileira da peça. Fascinado com o enredo desde quando assistiu ao filme francês Le Prénom, em 2012, Ullmann teve a ideia de montar a peça. Anos depois, em uma conversa com Cesar Baccan, diretor de produção, decidiram transformar essa vontade em realidade.
— Aquela história tão cotidiana e, ao mesmo tempo, tão absurda e provocadora, ficou comigo por anos. Era uma comédia, sim, mas com um veneno elegante, um texto afiado, cheio de camadas. Começamos a desenhar o projeto, e assim nasceu O Nome do Bebê no teatro brasileiro — revela Ullmann.
Claude é um personagem de muitas sutilezas. À primeira vista, ele parece apenas o amigo gentil, meio contido, observador, mas, aos poucos, o público vai percebendo que há algo mais ali, um desconforto, uma inadequação silenciosa. Claude acha, em muitos momentos, que não se encaixa no mundo. É assim que Ullmann define o seu personagem.
— Eu confesso que, às vezes, também me sinto assim. Foi nesse lugar de fragilidade que encontrei o coração do personagem. A construção dele foi menos sobre “criar” e mais sobre revelar — conta.
A preparação para viver o Claude, precisou de muita escuta, muita contenção e, sobretudo, verdade. Além de atuar, a função de produtor muda completamente o processo, enfatiza Ullmann. Pois é necessário estar atento desde o ensaio até a ocupação da plateia. Porém, também houve uma preparação cênica muito especial. Ullmann também conta que o texto tem um ritmo muito particular, já que é rápido, cheio de sobreposições, interrupções e viradas. Foi necessário trabalhar muito isso nos ensaios, quase como uma partitura musical.
— O desafio era fazer com que tudo soasse natural, como numa conversa de amigos. Para isso, a preparação do elenco foi intensa e colaborativa — ressalta.

A comédia mistura humor com temas sensíveis e para acontecer esse equilíbrio precisou ter respeito, respeito ao texto, ao público e aos temas que ele traz, salienta Ullmann. A trama trata de preconceitos, machismo, sexualidade, paternidade e relações familiares, e tudo isso aparece com muito humor, mas nunca de forma leviana.
— O humor aqui é uma chave, não um escudo. A gente ri porque se reconhece e, às vezes, a risada vem justamente de um lugar desconfortável. Como ator, procurei sempre manter esse tom: que o riso seja inteligente, que ele revele, não esconda. E isso só é possível com um elenco afinado e uma direção atenta.
Dupla indicação ao Prêmio Bibi Ferreira
Por conta da peça, Marcelo Ullmann recebeu indicação de melhor ator coadjuvante e Bianca Bin de melhor atriz, no Prêmio Bibi Ferreira, que leva o nome de uma das grandes divas do teatro brasileiro.
— Foi emocionante. A Bianca está brilhante, forte e vulnerável ao mesmo tempo, como exige o papel. E ser indicado ao lado dela, nesse projeto que eu ajudei a sonhar e concretizar, tem um gosto especial. É o reconhecimento de um trabalho coletivo. Essa indicação é nossa — celebra Ullmann.
Além dos prêmios e indicações, o reconhecimento veio através do público lotando as sessões, os elogios, debates e até mesmo as críticas generosas. O espetáculo criou um vínculo entre o entretenimento e as conversas profundas. As pessoas riem muito, se divertem, mas saem do teatro pensativas.
— A gente trabalha com amor, com rigor, com o desejo de fazer algo que comunique. Mas nunca dá pra prever. Eu tinha uma intuição forte de que essa história tinha potência, que ela poderia tocar as pessoas. Mas o reconhecimento veio como um presente. Mas acima de tudo, é a prova de que o teatro ainda tem força, ainda tem lugar no coração das pessoas — diz, em tom esperançoso.
Em Caxias do Sul, as apresentações ocorrem nesta sexta-feira (18) e neste sábado (19), no Teatro Murialdo. Ainda há ingressos. Já em Bento Gonçalves, com ingressos esgotados, o espetáculo será encenado nesta quinta-feira (17), na Fundação Casa das Artes.
Programe-se
Caxias do Sul
- O quê: O Nome do Bebê, direção de Elias Andreato.
- Quando: sexta-feira (18) e sábado (19), às 20h.
- Onde: Teatro Murialdo (Rua Flôres da Cunha, 1.740 - Centro - Caxias).
- Quanto: ingressos a partir de R$45 (+taxas), à venda no site Disk Ingressos.
- Classificação indicativa: 12 anos




