
– Talvez eu represente a possibilidade de não parar no tempo.
Em setembro de 2009, Maria do Horto Coelho estava às vésperas de estrear o monólogo teatral Em Cena quando respondeu assim ao colunista do Pioneiro João Pulita, sobre qual era o seu papel principal àquela altura da vida, aos 77 anos.
Em julho de 2025, próximo de completar 93 anos de idade em plena atividade, circulando pelos teatros com o mesmo monólogo que estreou 16 anos atrás, a atriz radicada em Caxias desde 1991 segue firme no papel de desafiar os efeitos que o tempo poderia provocar. Neste fim de semana, ela sobe ao palco do Teatro do Sesc para duas sessões de Em Cena (confira o serviço no final da matéria).
– Mesmo que eu tivesse a receita da longevidade, eu não daria. Iria vender (risos). Mas tem que viver e tem que cuidar da saúde. Do corpo, da mente… Mas, acima de tudo, eu falo dessa saúde boa de querer confraternizar, de fazer amizades, de fazer cursos – reflete, sentada no sofá da ante sala da Sala Ulysses Geremia, no Centro de Cultura Ordovás, onde atendeu a reportagem para falar sobre uma carreira que beira as oito décadas.
Nascida em Santa Maria, Maria do Horto (nunca a chame apenas de Maria) é filha de cuiabanos. É a mais velha de nove irmãos, oito deles vivos (um morreu de covid-19). Foi uma irmã, Maria de Lourdes Coelho Torres, quem escreveu Em Cena, cuja montagem original teve direção do saudoso Raulino Prezzi, falecido em 2016.
– Sinto muita saudade do Raulino, embora esteja de mal com ele – diz, em alusão à morte precoce do amigo, aos 48 anos.
A descoberta do teatro ocorreu ainda na infância, no Sul do Estado. Antes de se apaixonar pela atuação ou pelo espetáculo cênico em si, contudo, o primeiro amor foi pelas histórias: tanto aquelas que via representadas no palco, quanto as que depois saltariam diante dos seus olhos nas páginas dos livros.
– Papai, assim como mamãe, sempre achou que nós (os filhos) tínhamos de ler bons livros. Aos 13 anos eu já lia Eça de Queiroz e Stefan Zweig. A leitura, assim como tudo aquilo que eu assistia no teatro, foi me formando como pessoa. Ler é fundamental – diz.
PROJEÇÃO NO TELETEATRO
Desde o primeiro papel no teatro da escola, Maria do Horto e as histórias desenvolveram uma atração magnética, como se estivessem impedidas de se separar por muito tempo. Em Porto Alegre, para onde se mudou no final dos anos 1950 para assumir sua função como concursada na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (onde se aposentou como gerente), logo foi convidada por um amigo de infância para atuar no teleteatro da recém-criada TV Piratini. Protagonizou diversas das peças transmitidas ao vivo que ajudaram a popularizar o canal. Naquela época, em que também atuava nas radionovelas da Farroupilha, chegou a ter quatro empregos simultâneos:

– Era uma loucura, porque, além da TV e da rádio, eu era contratada por uma empresa que gravava comerciais, fora a função pública. Cheguei a ficar 24 horas sem dormir, indo de um trabalho para o outro. Mas depois que tive meus dois filhos precisei fazer uma escolha, e então priorizei a maternidade. Já não estava morrendo de amores pela arte e por aquele estrelato àquela altura em que tinha duas vidas para eu cuidar.
O reencontro com a dramaturgia só viria a ocorrer em Caxias do Sul, para onde se mudou já aposentada, a fim de estar mais perto dos filhos que cursavam a universidade na Serra. Passou a frequentar um curso de formação de atores conduzido por Volnei Canonica, ator e diretor que ofereceria a ela o primeiro papel nesta nova fase, já perto de completar 70 anos.
– Lembro de chegar para começar o curso e o Volnei perguntar se eu sabia que tinha de ter no mínimo dois anos de experiência. Eu apresentei a ele a pasta em que guardo todos os meus recortes de jornal e outros materiais de portfólio e falei: “servem 40 anos?” (risos). Fato é que logo depois ele me ofereceu um papel na sua montagem de Alice no País das Maravilhas. Eu fazia o gato da Alice – relembra.
Um dos principais trabalhos que marcam os primeiros anos da santa-mariense vivendo e atuando em Caxias é a peça Querida Mamãe, baseada em texto de Maria Adelaide Amaral. A história da relação conturbada entre mãe e filha (esta interpretada por Priscila Weber) teve diversas montagens nos primeiros anos deste século e firmaram o nome de Maria do Horto na cena local, pavimentando o terreno para que pudesse estrear seu primeiro solo.
“Nada é mais difícil do que um monólogo”

Em Cena traz Maria do Horto no papel de uma atriz retirada do palco abruptamente por duas criaturas, no meio de uma apresentação em que esta representava a Rainha Elizabeth I. A trama se passa nos bastidores deste teatro, onde a personagem busca entender as razões que a colocaram naquela situação, no melhor estilo de Josef K. em O Processo, do Franz Kafka:
– Não existe nada mais difícil dentro da arte teatral do que um monólogo. Tem alguns em que o ator ou atriz conversa com o público, e isso torna um pouco mais fácil, porque tu tens aquele retorno, aquela reação. No caso do meu monólogo, eu não falo com o público. A quarta parede tem de estar ali, porque o assunto não é com ela e eu não olho para ela. É uma peça que vai se dando em torno das perguntas que a personagem faz querendo descobrir o que está acontecendo.
Diferente da personagem que recebeu das mãos da irmã escritora, Maria do Horto não entra em cena sem que tenha o máximo de controle sobre o que acontece. É nisso que discorda de parte dos colegas que dizem deixar o palco apenas para o personagem, na hora de atuar. Seja ao lado de outros atores ou em monólogo como o Em Cena, saber que é sempre sobre ela, e não sobre a criatura encenada, a ajuda a manter a atenção e o foco necessários:
– A melhor parte de estar em cena é o nível de atenção que o momento te exige. Qualquer gesto, qualquer palavra que você faz ou fala , já pensando no que vem depois. Se ficar nervosa, perco o controle. Tem colegas que dizem que, quando entram no palco, o artista não entra junto, entra só o personagem. Eu penso diferente. A personagem é só uma espécie de marionete, um boneco que eu tenho que comandar. Quem está no palco sou eu, consciente e atenta a tudo.
As apresentações de Em Cena no Teatro do Sesc ocorrem no sábado e no domingo, às 19h. A entrada é gratuita, com distribuição de ingressos meia hora antes da peça. A peça voltará a ser encenada em 16 e 17 de agosto, no Espaço Tem Gente Teatrando, e nos dias 20 e 21 de setembro, no Teatro Pedro Parenti.



