A linha colorida é o fio condutor da memória que, aos poucos, desenrola histórias íntimas de mulheres da região. Descendentes de italianos, elas tinham no bordado uma atividade cotidiana, que é narrada no livro Bordando Sonhos, de Neusa Maria Roveda Stimamiglio, recém-lançado.
Foi a própria memória afetiva que levou Neusa a pesquisar sobre o tema, com financiamento do Ministério da Cultura. Dos panos bordados que a mãe Lurdes colocava atrás do fogão, ela começou a aprender a transformar o cotidiano em poesia.
Mais do que isso: quis conhecer o assunto em profundidade, a fim de revelar a autoria daquelas que exerciam ou ainda exercem a atividade. Esses panos, reciclados de sacos de farinha ou açúcar, expressavam crenças, sonhos, angústias, alegrias, temores e histórias.
- Bordado é uma narrativa que constrói identidades - define Neusa, que é psicopedagoga.
Ela descobriu que as mulheres aprendiam a bordar no colégio, ainda na infância, e que era um ofício pouco valorizado. Servia, essencialmente, para que as meninas conseguissem bordar os próprios enxovais - sendo o casamento e a constituição da família a principal aspiração feminina na época.
Depois que o bordado entrava como atividade desenvolvida dentro dos lares, perdia o registro:
- Quando o bordado vai para dentro de casa, as mulheres não o veem como um saber fazer, mas como um dever - explica a pesquisadora.
Como era o homem quem promovia o sustento da casa, para conseguir dinheiro as mulheres engordavam as galinhas, cuidavam da horta. Com o lucro da venda de ovos e hortigranjeiros, compravam linhas.
Segundo ela, ao mesmo tempo em que transmite uma herança cultural, o bordadoconstitui identidades. Nos dizeres escritos a linha, estava o comportamento esperado das mulheres: "ama o teu marido mais do que tudo no mundo", "tem sempre a casa em ordem e o rosto sereno", "não pedir à vida o que ela nunca deu à ninguém, se és útil já te podes considerar feliz".
- Essa história tecida cotidianamente é desvalorizada. Muitas bordadeiras achavam que não servia para ser contada - afirma Neusa.
Na contramão dessa ideia, ela sugeriu às bordadeiras que elegessem uma cena da vida delas que se relacionasse com a atividade e a bordassem para contar a história.
Para o projeto, as telas foram fotografadas e estampam o livro, bem como a mostra homônima em exposição no Centro Cultural Casa Grezzana Belfiore di Verona, em Antônio Prado.
- O que se faz no espaço doméstico se desfaz. Mas bordados deixam rastros de existência, que se contrapõem à invisibilidade do trabalho - explica.
Bordando Sonhos é um projeto dividido em três partes: livro, revista da exposição e mostra dos quadros bordados. Neusa pretende concretizar uma outra etapa dele, com projeto audiovisual e criação de uma coleção de livros infantis resgatando a importância histórica do bordado.
Tanto o livro quanto a revista são ricos em detalhes e revelam o olhar feminino atento às minúcias. Além da pesquisa densa, há uma preocupação visual para inserir o leitor no universo das linhas e desenhos. As flores mais comuns de Antônio Prado viraram bordados delicados que estampam as páginas.
A impressão em papel foi a maneira escolhida para perenizar o conhecimento que conseguiu ultrapassar gerações, transcender no tempo e deixar rastros coloridos na história.
O livro não está à venda, mas pode ser conhecido em Caxias no Museu Municipal, no Arquivo Histórico, na Secretaria Municipal de Educação e na Biblioteca Pública.





