
Moradores mais antigos do bairro Rio Branco – e também quem foi criança nos anos 1950 – lembram bem da expectativa em torno do surgimento de uma moderna sala de cinema na esquina da Av. Rio Branco com a Rua Miguel Muratore – em uma época em que as projeções se concentravam no Centro, no máximo, em São Pelegrino, vide o Cine Real.
Corria o ano de 1956 quando o empresário Mário Sartor, superintendente regional da empresa Companhia Nacional Cine Filmes, sediada no Rio de Janeiro, apresentou a proposta para um grupo de acionistas.
A ideia do “moderno novo cinema do bairro Rio Branco” era grandiloquente: capacidade para 800 pessoas, palco para apresentações de grandes companhias de teatro, sistema de saída rápida – com ante salas espaçosas para espera da segunda projeção – e o suprassumo da época: uma cúpula metálica, removível automaticamente, permitindo que a sala de projeção ficasse descoberta e ao ar livre.
Para tanto foram demolidas a antiga Casa Petrini e outras duas edificações próximas, conforme divulgado pelo Pioneiro de 9 de junho de 1956 – na época, o engenheiro Bivar Schmidt, responsável pela obra, recebeu os também engenheiros Léo Lubianca e Gino Sibemberg, de Porto Alegre, autores do projeto.


VIAGEM AO RIO DE JANEIRO
Fotos dos acionistas, da equipe técnica fazendo medições no terreno e notas frequentes na coluna social do Pioneiro ajudaram a badalar o futuro espaço. Até um concurso para o nome chegou a ser criado, tendo como prêmio uma viagem ao Rio de Janeiro, com tudo pago, para o vencedor conhecer a sede da Companhia Nacional Cine Filmes – dirigida pelo empresário Francisco Valério.
Não se sabe exatamente se o tal concurso chegou ao final, tampouco quem foi o autor da denominação Cine Deusa, como a edificação é descrita no projeto aprovado pela prefeitura em 1956. Uma das últimas reportagens destacando o cinema foi publicada no Pioneiro de 8 de dezembro de 1956:
“Tão logo fiquem concluídos os trabalhos de estaqueamento, serão atacadas as obras restantes, ou seja, paredes, vigamentos e outros”.
Posteriormente, em 1964, o empresário Mário Sartor encaminhou um novo projeto à prefeitura, para a construção de um edifício residencial de três andares no mesmo local, o Edifício Roberto.
Popularmente conhecido como o prédio “com a marquise em forma de arco” antes de chegar ao quartel, o Edifício Roberto abrigou, na sala comercial do térreo, estabelecimentos marcantes do bairro, como o Super Rio Branco e as Lojas São Francisco.




HISTÓRIA DE FILME
O embargo da obra – e a transformação do cinema em um prédio de apartamentos – até hoje rende especulações. A mais plausível teria sido a interferência do Exército, prevendo a aglomeração pública defronte a uma guarnição militar.
O caso também foi meio abafado, pois envolveu disputa de poderes e também um certo amadorismo: a prefeitura municipal expediu licença para edificar um espaço com uma finalidade (no caso, lazer e diversão) que uma instituição nacional não permite em seu entorno.
No final das contas, saíram no prejuízo a empresa exibidora, os acionistas e o público - todos testemunhas de uma história que renderia um filme. E o título não poderia ser outro:
Deusa, o cinema que nunca existiu…



OS ACIONISTAS
Entre as dezenas de acionistas do empreendimento que não saiu do papel figuraram nomes como Nilo Gobbato, Jimmy Rodrigues, Carlos Rolin Bedin, Tercílio Fochesatto, Mario Milani, Athos Horn, Valdemar Petrini, Leonilda Garbin Casara, Stefano Roglio, Dante Fadanelli, Carlos Juber, João Bevilaqua, Angelo Scola, Nelson Reis, Luiz Radaelli, Algacir Gelatti, Argemiro Formolo, Victor De Lazzer e Adelino Lorenzoni.
