
A deposição das urnas cinerárias do pintor italiano Aldo Daniele Locatelli e de sua esposa, Maria Mercedes Biancheri Locatelli, na Igreja São Pelegrino, prevista para o dia 1º de agosto, traz a lembrança da inauguração da obra máxima do artista no templo: a Via Sacra.
As 14 estações foram descerradas em 22 de maio de 1960 – sete anos após a inauguração da igreja, em 2 de agosto de 1953. Ao contrário de todo o restante do conjunto pictórico, as telas foram confeccionadas no atelier do artista em Porto Alegre, onde ele residia com a família.
Pintadas aleatoriamente entre 1958 e 1960, as obras ficaram expostas inicialmente na Capital, para testar a receptividade do público. Como o artista baseou-se no livro A Paixão de Jesus Cristo Segundo o Cirurgião, do médico francês Pierre Barbet, ele temia que o realismo dramático do flagelo de Cristo – com seus cortes, fissuras e sangue – chocasse os fiéis do interior.
O vernissage, no entanto, foi um sucesso, tranquilizando o artista a trazer as obras para a Serra. Porém, antes de serem descerradas, as 14 estações permaneceram cobertas por um pano preto durante quase uma semana, aguçando a curiosidade dos fiéis.
Chegado o grande dia, a missa solene da inauguração foi conduzida pelo arcebispo de Florianópolis, Dom Felício César da Cunha Vasconcelos. A cerimônia contou ainda com a presença do bispo auxiliar de Caxias, Dom Cândido Maria Bampi, do pároco Eugênio Giordani e dos padres Waldomiro Minella, Ruy Bosa e Sidney Zanettini, além do próprio Locatelli e da esposa, Mercedes Biancheri.
A saber: Aldo Locatelli faleceu apenas dois anos após a inauguração da Via-Sacra. Foi em 3 de setembro de 1962, aos 47 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. Dona Mercedes morreu em 1979 .



AS 14 ESTAÇÕES
A inauguração da Via Sacra foi acompanhada por dezenas de personalidades, entre elas o prefeito Armando Biazus, o jornalista e advogado Heráclito Limeira, a rainha da Festa da Uva de 1958, Zila Turra, e os 14 paraninfos que auxiliaram no custeio das estações.
Os casais, viúvas e irmãos patrocinadores acompanharam o descerramento da respectiva tela paga. Conforme os registros paroquiais, foram eles:
❚ Estação 1: Condenado – Ítalo Corsetti e Sra.
❚ Estação 2: Cruz e Vilipêndios – Viúva Rosa Paulina Guidali Andreazza.
❚ Estação 3: Queda – Pegadas de Sangue no Caminho da Dor – Genuína Corso e filhos.
❚ Estação 4: Encontro com a Mãe – Dante Paternoster e Sra.
❚ Estação 5: O Homem Bondoso (Simão Cirineu) – Jacó Gregoleto e Sra.
❚ Estação 6: Verônica – Domingos Bianco e Sra. e Egídio Bianco e Sra.
❚ Estação 7: Queda: Jesus Cai pela Segunda Vez – Antonio Marchet e Sra.
❚ Estação 8: Encontro com as Piedosas Mulheres (menina com um pote de água) – Ana Azevedo Maggi.
❚ Estação 9: Queda: Jesus Cai pela Terceira Vez – Orestes Baldisserotto e Adélia Casanova.
❚ Estação 10: Despojado de suas Vestes – Victório Cesa e Sra.
❚ Estação 11: Pregado na Cruz – Dorvalino Galiotto e Sra.
❚ Estação 12: Crucificado – Waldemar De Zorzi e Sra.
❚ Estação 13: Mãe Dolorosa – Francisco Marchetto e Sra.
❚ Estação 14: O Sepulcro – Viúva Maria Gregoletto.

PAI E FILHOS
Cristiana e Roberto Locatelli, filhos do pintor, estarão presentes na cerimônia do próximo dia 1º de agosto. Na infância, ambos serviram de inspiração para as pinturas do pai na igreja.
Cristiana foi retratada na Estação 8 – Encontro com as Piedosas Mulheres. É a menina com um pote de água no primeiro quadro à direita, na estrada da igreja. Roberto é o Menino Jesus no colo de São José, no altar.
O próprio Locatelli inspirou a figura de Simão Cirineu, que auxilia Jesus a carregar a cruz, na Estação 5 – O Homem Bondoso (foto abaixo).







