
Professora de piano de diversas gerações de caxienses, Cleufe Andreazza fez das audições de seus alunos mais do que uma impecável apresentação de final de ano: elas costumavam ser também um badalado evento social.
Entram aí tanto os concertos realizados na casa da família (o Palacete Andreazza, defronte à Praça Dante Alighieri) quanto os recitais no Clube Juvenil e no Recreio da Juventude. Reproduzimos aqui alguns desses momentos, destacados em jornais das décadas de 1930 e 1940 – quando ter aulas com a musicista era disciplina obrigatória na formação da elite local.
Edição do jornal “A Época” de 1º de janeiro de 1940 trouxe o relato da audição ocorrida em finais de 1939:
“Realizou-se quarta-feira última, dia 27 de dezembro, a audição de piano dos alunos da professora Cleufe Andreazza, a qual compareceu grande número de convidados. A audição, que teve início às 21h, na residência dos progenitores da professora, prolongou-se até a meia-noite, finda a qual foi servido aos presentes doces e bebidas. O bem organizado programa foi executado com brilhantismo pelos alunos de Cleufe, que foram muito aplaudidos”.
Conforme o texto, a turma de 1939 era formada por Pilar Tirado, Henrique Grossi, Ruth Vagner, Roberto Veronese, Flavinha Lohmann, Maria Alvarenga, Céres Falcão, Milton Menegotto, Aedy Karan, Tulio Menegotto, Nelly Veronese, Neda Ungaretti, Renée Lohmann, Gessy Agostinelli, Vera Serafini, Nena Pieruccini, Ignez Falcão e Vasco Campagnolo.
Na imagem acima, a audição ocorrida na casa da família em dezembro de 1936. Cleufe (sentada ao centro) aparece com um ramalhete de flores ofertado pelos alunos. Entre as crianças sentadas no chão está Temis Andreazza (Sehbe), aluna e prima de Cleufe.
Infelizmente, não temos a identificação dos outros. Você reconhece mais algum? Informações para o e-mail rodrigolopes33@gmail.com.


A FAMÍLIA
Filha de João Andreazza e Otávia Maggi Andreazza, Cleufe Cecília Andreazza nasceu em 4 de julho de 1914 e desde cedo recebeu estímulo para o aprendizado da música. Abastada, a família forneceu todos os meios necessários para que a jovem expressasse – e consolidasse – um potencial artístico nato.
Conforme informações contidas no livro Família Andreazza no Rio Grande do Sul, de Romeu Andreazza, Cleufe formou-se pianista aos 16 anos, no Conservatório de Porto Alegre. Aos 20, concluiu o curso de aperfeiçoamento no Real Conservatório de Bologna, na Itália, sendo diplomada no grau mais alto e agraciada com a medalha de ouro. Também apresentou-se no lendário Scala de Milão.
Contemporânea de mestras como Dyna Braghirolli e Lola Giesen – e professora de vários outros nomes expressivos do piano caxiense, como Lorita Sanvito Andreazza e Nestor Campagnolo –, Cleufe casou com o empresário Carlos Gonçalves de Oliveira, com quem teve quatro filhos: Cleufe, Antonio, Cecília e João. Após a morte de Carlos, em 1953, ela uniu-se em segundas núpcias com o general Edson de Carvalho Leme.
Conforme informações repassadas pela neta Thais Della Giustina, Cleufe vivia no Leblon, no Rio de Janeiro, onde faleceu em 3 de agosto de 2019, aos 105 anos.
- Em seu apartamento, tinha 2 pianos (um de cauda), tendo se dedicado à prática do instrumento até seus últimos anos. Jamais se distanciou da música clássica, sendo uma assídua frequentadora de audições no Theatro Municipal do Rio de Janeiro - revelou Thais.

BADALAÇÃO NO PALACETE DA JÚLIO
As audições de Cleufe no salão de música do Palacete Andreazza costumavam ser acompanhadas também por jornalistas e representantes de vários órgãos de imprensa, tanto de Caxias quanto de Porto Alegre.
A audição de 18 de dezembro de 1937, por exemplo, reuniu profissionais dos jornais O Momento, A Época, Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha do Nordeste e Giornale del Agricoltore, além da lendária Revista do Globo.
Na imagem abaixo, de 1947, vemos o trecho da Av. Júlio de Castilhos em frente a então Praça Ruy Barbosa. Contam os mais antigos que, ao passar por ali, era possível ouvir o som do piano de Cleufe ecoando pelas janelas do Palacete Andreazza - o prédio mais alto, ao centro, erguido em 1928 e que, por anos, abrigou também o mítico Café América.
Coisas de quase um século atrás…





