
Programado para 2026, o livro sobre a história da Linha São Maximiliano, em Santa Lúcia do Piaí, destacará a trajetória de diversas famílias da localidade, a partir das pesquisas realizadas pelo historiador Éder Dall’Agnol dos Santos desde 2015. Antecipamos aqui parte da saga de João Maria Lazzarotto - marcada por resiliência, fé e solidariedade comunitária.
Nascido em 12 de abril de 1912, João Maria - conhecido por “Joanni Maria” - foi o terceiro filho do casal Francesco e Maria, após a perda de oito crianças. Diferentemente da maioria das famílias da região, João e seus irmãos foram alfabetizados pelo próprio pai, que havia estudado na Itália, atuava como professor particular e exercia liderança religiosa na comunidade. Francesco também se destacava por defender que as crianças não fossem submetidas ao trabalho pesado, prática comum no início da colonização italiana.
Na juventude, João gostava de participar dos bailes e festas locais, apesar da rígida educação imposta pelo pai, que proibia os filhos de frequentar eventos na casa do senhor Sisto Echer. Com a ajuda da irmã Valentina, João escondia suas roupas de festa e escapava discretamente pelas estruturas do grande casarão da família, retornando de madrugada sem despertar os pais.
CASAMENTO
A morte de Francesco, em janeiro de 1930, levou João a buscar novos rumos. O jovem obteve um salvo-conduto e viajou para Capinzal (SC), a fim de conhecer as terras adquiridas pelo pai. Porém, sem experiência agrícola, retornou à comunidade. De volta, iniciou um namoro com a jovem Victória Binotto, filha de José Binotto e Fiorina Dall’Astra.
Casou-se em 19 de setembro de 1932, na matriz de Santa Lúcia do Piaí, e passou a viver no casarão da família Lazzarotto, em um dos 48 quartos, com uma pequena cozinha anexada. Já em 1941, após a divisão dos bens familiares, João e Victória precisaram deixar a propriedade e foram morar no interior de Getúlio Vargas, em Rio do Peixe (hoje Charrua), a convite de Alexandre Binotto.
Mas as condições precárias fizeram a família retornar à Linha São Maximiliano, onde foram acolhidos por Angelo Moschen, que lhes disponibilizou um paiol como moradia provisória.

INCÊNDIO EM 1951
Em 1943, novamente em busca de oportunidades, João viajou para Chapecó, mas não conseguiu adquirir terras e retornou mais uma vez. Nesse período, passou a trabalhar no DAER, contribuindo para a construção da estrada entre Nova Petrópolis e Gramado.
Em 1949, o cunhado Paulo Libardoni ofereceu suas terras no oeste catarinense, permitindo que João adquirisse uma propriedade próxima à capela da Linha São Paulo.
Após anos de dificuldades, a família finalmente conquistou autonomia. Porém, em 1951, um incêndio destruiu totalmente a casa, uma tragédia que mobilizou a comunidade.
O jornal Pioneiro publicou um pedido de ajuda de João, e doações começaram a chegar de toda a região. O amigo João Dall’Agnol Filho (Nanetti) doou os pinheiros necessários para reconstrução, enquanto inúmeras pessoas auxiliaram voluntariamente nas obras.
DENTISTA E BARBEIRO
Além de suas atividades na agricultura, João Maria Lazzarotto também prestava serviços importantes à comunidade. Era conhecido por extrair dentes sem anestesia, prática comum na época, e por cortar cabelos gratuitamente para os moradores da região.

A FAMÍLIA
João e Victória tiveram 11 filhos: Leduvino, Oswaldo, Nelson, Darci, Algeny, Alécio, Ari, Egídio, Alfredo, Maria Helena e Norma. Em 1962, Leduvino, o mais velho, foi ordenado sacerdote por Dom Antonio Zattera, tornando-se motivo de grande orgulho para os pais.
No ano seguinte, a família mudou-se para o bairro Cruzeiro, em Caxias do Sul. Aos 51 anos, João já enfrentava dificuldades para conseguir trabalho: atuou na Madezatti, depois como vigilante autônomo e, por fim, como vigilante na Metalúrgica Abramo Eberle.
Foi nessa época que começaram as dores persistentes na garganta. Inicialmente atribuídas a uma simples laringite, revelaram-se um tumor maligno. João passou por cirurgias, longos períodos de internação no Hospital Santa Rita, em Porto Alegre, e tratamentos com cobalto - equivalente à atual radioterapia.
Em meio ao agravamento da saúde do patriarca, a família enfrentou mais uma tragédia: a morte acidental do filho Nelson, aos 33 anos, em agosto de 1970. O impacto emocional acelerou o declínio de João, que faleceu em 30 de setembro de 1970, aos 58 anos. A esposa Victória morreu em 23 de abril de 2003, aos 90 anos.
BASTIDORES DE UMA FOTO
A imagem que abre esta matéria guarda uma história curiosa. Segundo relato de Maria Helena Lazzarotto (a menina à esquerda), a fotografia originalmente seria apenas da mãe com as filhas. Porém, a pequena Norma acabou se assustando e começou a chorar, pedindo a presença do pai no estúdio. Então João foi chamado às pressas.
Conforme Maria Helena contou, ele nem estava preparado para o retrato, ainda com barba por fazer. O registro foi feito pelo fotógrafo Fiorentino Cavalli.
LEGADO
A idealização do projeto dos livros sobre as capelas e comunidades de Santa Lúcia do Piaí é da empresa Legado – Histórias de Vida, da jornalista Valquíria Vita, autora de diversas biografias e histórias de empresas de Caxias do Sul e região.
Uma das últimas publicações da Legado destacou os 80 anos da comunidade de Nossa Senhora da Salete, interior de Farroupilha, e os 110 anos da tradicional Loja Magnabosco.


