
Leio um poeta que diz preferir se apresentar por aquilo que o assusta. E que essa seria uma maneira mais rápida e verdadeira de conhecer alguém a fundo. De criar empatia, de tentar diminuir a idealização, que costuma estragar tudo. Com o passar do tempo, percebemos que as pessoas ao nosso redor não têm a menor obrigação de corresponder ao que imaginamos sobre elas. Esse é um problema exclusivamente nosso e temos que aprender a lidar com ele. Albert Camus, ao versar sobre o desencontro entre o esperado e aquilo que está posto, discorre que “criamos o hábito de viver antes de adquirir o hábito de pensar”.
É de Camus, aliás, um dos primeiros parágrafos mais emblemáticos entre todas as produções literárias já escritas. Em O Estrangeiro (1942), ao ler as primeiras linhas, o leitor se depara com “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”. O personagem segue vivendo sem ilusões e nada mais parece assustá-lo.
Nem sempre nossos medos são claros e conscientes. Os meus mais óbvios são medo de aranha e de altura. Não consigo ver aracnídeos sem entrar em pânico nem por foto, já altura eu sublimo e faço concessões – entro em aviões sozinha, atravesso oceanos e me nego a deixar de viajar “só” por causa disso. No entanto, jamais saltaria de paraquedas ou bungee jump. Mas isso está longe de definir quem sou, ao contrário do que refere o poeta.
Os medos que podem me definir de forma mais precisa são mais profundos e difíceis de serem verbalizados. Tenho medo de perder para sempre as pessoas que gosto. De ficar indiferente às mazelas do cotidiano. De magoar as pessoas. De ser magoada. Do descaso. De errar a dose das emoções. De não conseguir voltar atrás.
O medo declarado, nesse caso, pode significar a capacidade de se abrir ao outro, de mostrar um lado obscuro, sem nenhum grau de atratividade, para ver se as pessoas ao redor topam entrar no nosso mundo do jeito que somos – e apesar dele. Esse desnudamento pode ser um convite a compartilhar a nossa versão sem filtros, crua, difícil e nem sempre amistosa, ao lado de pessoas que ajudem a não paralisarmos diante daquilo que causa hesitação. Dividir o que nos desagrada em nós pode ser uma forma também de exorcizarmos nosso lado sombra, de nos aceitarmos e nos revelarmos.
Dia desses, uma amiga disse acreditar que não temos o valor que supomos ter – e não disse isso de forma depreciativa. Completou que somos apenas instrumentos, para aprender com nossas experiências ruins, atribuir sentido a elas e mostrar uns aos outros que somos testados a desafiar nossos medos e crenças o tempo todo. E a graça da vida reside exatamente nisso: na possibilidade de se (re) conhecer a cada instante, seja olhando para si ou se espelhando no outro.


